Está quase a chegar a 19ª edição da Festa do Cinema Italiano (a partir de 9 de abril). Como já é tradição, o programa integra uma “antecipação” tendo por cenário as duas salas da Cinemateca. Assim, esta quarta-feira, 1 de abril, inicia-se um ciclo de homenagem a Claudia Cardinale (1938-2025), com dezasseis títulos da sua vasta filmografia, incluindo alguns dos clássicos absolutos que, na década de 1960, lhe conferiram o estatuto de embaixatriz do cinema de Itália. Em paralelo, na quinta-feira, terá lugar a primeira de quatro sessões dedicadas a raridades de Pier Paolo Pasolini (1922-1975), incluindo a versão de Medeia (1969) em que Maria Callas surge com a sua própria voz (e não com a dobragem que circulou na altura do respetivo lançamento) - será também editada mais uma edição das “Folhas da Cinemateca”, dedicada à obra de Pasolini. . Os dois primeiros títulos com Claudia Cardinale podem ajudar a definir a vitalidade, e também a diversidade, de toda uma época de ouro da produção italiana. São eles Gangsters Falhados (1958), de Mario Monicelli, e A Rapariga da Mala (1961), de Valerio Zurlini - o primeiro reconvertendo em subtil comédia social o modelo tradicional do “grande assalto”, o segundo distinguindo-se por um realismo (também social, obviamente) que se afastava cada vez mais das componentes estéticas do neorrealismo.São dois filmes que nos ajudam a compreender que as décadas de 1950/60 foram, de facto, tempos de superação da herança neorrealista. Não numa lógica de rejeição, mas de reconversão crítica da sua herança. Ou seja: respondendo aos sinais de um desenvolvimento económico em que os heróis das narrativas da Segunda Guerra Mundial vão dando lugar a novas personagens, masculinas e femininas, ligadas a diferentes formas de organização das famílias, dos grupos sociais e, em última instância, das classes. .Nesse contexto, Claudia Cardinale afirmou-se como uma figura paradoxal cuja talento, a par de uma invulgar fotogenia, lhe permitiu ziguezaguear entre personagens de componentes psicológicas e estatutos sociais muito diversificados - dos cenários visceralmente populares de Gangsters Falhados até à aristocracia de O Leopardo, de Luchino Visconti, este seguramente um dos dois filmes que mais e melhor passou a simbolizar as suas qualidades de representação (foi Palma de Ouro de 1963 no Festival de Cannes); o outro é, obviamente, Oito e Meio (1962), de Federico Fellini.Esta quarta-feira, duas sessões - A Rapariga da Mala e Oito e Meio, às 18h30 e 21h30, respetivamente - serão apresentadas por Claudia Squitieri, filha da atriz e do realizador Pasquale Squitieri. Corleone (1978), filme em que Squitieri dirigiu Claudia Cardinale, integra também o ciclo.Mais de 150 filmesItaliana nascida em La Goulette, na Tunísia francesa, a 15 de abril de 1938, numa família de raízes sicilianas, Claudia Cardinale entrou no mundo do cinema depois de, com 17 anos, ter conquistado o título da “Mais Bela Rapariga Italiana da Tunísia”. Morreu a 23 de setembro de 2025, na sua casa de Nemours, na região de Île-de-France, deixando um legado de mais de 150 filmes. Curiosamente, o derradeiro título da sua filmografia - The Island of Forgiveness (2022), de Ridha Behi - centra-se numa família tunisina de origem siciliana. . De modo diferente de outras grandes atrizes reveladas na mesma época, a imagem de Claudia Cardinale nunca ficou ligada a um autor “dominante” (como aconteceu, por exemplo, com Monica Vitti e Michelangelo Antonioni), mesmo se é um facto que foi dirigida por Visconti numa admirável trilogia (Rocco e os Seus Irmãos, O Leopardo e Sandra). Ao mesmo tempo, aliás a par de alguns outros nomes emblemáticos do cinema europeu (Catherine Deneuve, em França, poderá servir de exemplo), nunca consolidou uma verdadeira carreira em Hollywood, ainda que o seu nome tenha surgido no elenco de vários títulos made in USA. A sua deriva através de universos cinematográficos plenos de contrastes temáticos e narrativos poderá ser ilustrada também através da sua participação em O Gebo e a Sombra (2012), derradeira longa-metragem de Manoel de Oliveira.Cinco filmes a (re)descobrirApesar de o nome de Claudia Cardinale ser uma referência universal da cinefilia, alguns dos seus filmes nem sempre terão tido a divulgação, ou até mesmo a atenção crítica, que merecem. Eis um quinteto de hipóteses para rever, ou descobrir, no ciclo da Cinemateca. A RAPARIGA DE BUBE (1963)A partir de 1962, a carreira de Claudia Cardinale adquire uma dimensão verdadeiramente gloriosa, filmando sucessivamente Oito e Meio, O Leopardo, A Pantera Cor de Rosa (título inaugural da saga cómica de Blake Edwards, com Peter Sellers) e La Ragazza di Bube. Centrado no regresso da guerra de Bube, um “partisan” da Toscânia, o filme possui a intensidade dramática típica do estilo de Luigi Comencini, cineasta “artesanal” cuja redescoberta está por fazer. No papel de Bube, surge George Chakiris que dois anos antes tinha sido um dos protagonistas de West Side Story. . VAGHE STELLE DELL’ORSA... (1965)Entre as raridades programadas, há também uma realização de Luchino Visconti que, em qualquer caso, ganhou o Leão de Ouro do Festival de Veneza de 1965. Mais conhecido pelo título internacional Sandra (nome da personagem de Claudia Cardinale), este é um drama intimista apostado em refazer para os tempos modernos a tragédia de Electra. A relação incestuosa que se estabelece entre Sandra e o irmão é filmada com os tons de uma inquieta sensualidade, rara na obra de Visconti — a notável fotografia a preto e branco tem assinatura de Armando Nannuzzi. .OS PROFISSIONAIS (1966)Quando pensamos em Claudia Cardinale em ambiente de “western”, é inevitável citar Aconteceu no Oeste (1968), de Sergio Leone. O certo é que, dois anos antes, ela inscrevera a sua energia numa aventura do velho Oeste, contracenando com vários “duros” do género, incluindo Burt Lancaster, Lee Marvin e Robert Ryan. Com assinatura de Richard Brooks, este é um belo exemplo das transformações críticas do “western” ao longo da década de 1960, com a particularidade de a sua encenação possuir o tom festivo, por vezes paródico, de um conto moral virado do avesso. . A AUDIÊNCIA (1972)Não serão necessários muitos exemplos para lembrar que a humanidade segundo Marco Ferreri existe como uma imensa tribo que evolui entre a vulnerabilidade e o absurdo — lembremos apenas Dillinger Morreu (1969), o seu filme anterior a este. Aqui, trata-se de encenar a odisseia enigmática do jovem Amedeo (Enzo Jannacci), apostado em conseguir uma audiência privada com o Papa... O resultado é uma bizarra parábola filosófica que, além do mais, apresenta um elenco de luxo, incluindo Claudia Cardinale, Ugo Tognazzi, Michel Piccoli e Vittorio Gassman. . HENRIQUE IV (1986)Marco Bellocchio, realizador deste insólito e fascinante Enrico IV, sempre se interessou pelas ambivalências da história colectiva, a par das convulsões da mente humana. Daí o seu interesse pela adaptação da peça de Luigi Pirandello (estreada em 1922) sobre um homem que, na sequência de uma queda de um cavalo durante uma festa medieval, acredita ser o Imperador Henrique IV. Claudia Cardinale surge na personagem de Matilda, enredada no logro da figura central interpretada por Marcello Mastroianni, este numa das composições mais subtis de toda a sua carreira.