'Boorman and the Devil': memórias de exorcismos cinematográficos.
'Boorman and the Devil': memórias de exorcismos cinematográficos.

Cinema de terror com um toque de nostalgia

Filmes do americano Roger Corman e do português José de Sá Caetano integram a programação do MOTELX — a 20ª edição do Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa arranca na quinta-feira. 
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Ao chegar à 20ª edição — a partir de quinta-feira, 3 de setembro, no Cinema São Jorge e na Cinemateca Portuguesa — o MOTELX é um festival capaz de cultivar as mais diversas memórias do género de terror. Por vezes, com natural nostalgia, como acontece com a celebração do centenário de Roger Corman (1926-2024), produtor/realizador de um cinema de meios artesanais e ideias ousadas. A Bucket of Blood (1959), com um perverso tempero de comédia, e A Queda da Casa Usher (1960), uma das suas engenhosas recriações de Edgar Allan Poe, servirão de testemunho de uma carreira indissociavelmente ligada ao nascimento de toda uma geração de cineastas que incluía, entre outros, Francis Ford Coppola e Martin Scorsese. 

Uma secção muito especial, em tom português, recordará três títulos da filmografia de José de Sá Caetano: As Ruínas no Interior (1976), Um S Marginal (1983) e Azul, Azul (1984). Não serão exemplos de um género de terror claramente definido por uma “estética”, antes exercícios narrativos que desafiam as evidências de uma realidade que se vai transfigurando em fantasia secreta das personagens — destaque especial merece As Ruínas no Interior, retrato insólito, invulgarmente poético, de um Portugal “interior” no tempo da Segunda Guerra Mundial. 

Outro tipo de memória será possível encontrar em Boorman and the Devil, documentário de David Kittredge revelado no Festival de Veneza de 2025. O título é para ser tomado à letra, uma vez que o inglês John Boorman enfrentou mesmo o “Diabo", tanto na ficção como na prática, quando aceitou dirigir Exorcista II: O Herege (1977), sequela de O Exorcista, lançado quatro anos antes. Na verdade, o falhanço comercial do filme, acompanhado pela visão negativa de muitos sectores da crítica, quase destruiu a sua carreira — será, por certo, uma boa oportunidade para reavaliar um filme muito mais interessante do que a (má) fama que o tem perseguido. 

'The End of It', fábula de um futuro inquietante.
'The End of It', fábula de um futuro inquietante.

Na sessão de abertura do festival (São Jorge, dia 3, 20h30) será apresentado Drag, uma produção de Danny DeVito, primeira longa-metragem assinada por Raviv Ullman e Gred Yagolnitzer que se anuncia com componentes de comédia negra. Fall 2: Deadpoint, dos irmãos Peter e Michael Spierig, é o título de encerramento (São Jorge, dia 12, 21h15), retomando o suspense de Fall (2022), agora através da escalada do Monte Kwan, na Tailândia. 

Na zona dos documentários, além do filme sobre Boorman, Rubberhead: The Life & Monsters of Steve Johnson, de Nick Taylor, faz o retrato de um dos mais ativos criadores de efeitos especiais na produção americana, colaborador de cineastas como Tim Burton, James Cameron ou Steven Spielberg. Nas sessões especiais, será possível ver ou rever objetos de culto como Polyester (1981), de John Waters, The Hunger/Fome de Viver (1983), de Tony Scott, e essa lendária raridade que é The Movie Orgy (1968), uma colagem de fragmentos de diversas origens (filmes, anúncios, programas de televisão, etc.) formando uma desconcertante coleção de bizarrias da cultura popular. 

Como já é tradicional, o MOTELX acolhe os filmes candidatos ao Méliès d’Argent, prémio a que concorrem obras do terror e do fantástico apresentadas em festivais especializados da Europa. Entre os candidatos, vale a pena sublinhar a presença de The End of It, da espanhola Maria Martínez Bayona, uma das boas revelações da secção de ante-estreias do último Festival de Cannes — em cena está o risonho pesadelo de um futuro em que a ciência consegue que os seres humanos não morram... 

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