Como fazer um filme biográfico sobre Michael Jackson? Eis uma resposta possível: Michael, uma realização de Antoine Fuqua, a partir de amanhã nas salas portuguesas (e de todo o mundo), é uma sofisticada superprodução que, para lá das suas componentes biográficas, propõe uma contagiante celebração do génio musical do “Rei da Pop”. Mais do que isso, estamos perante uma verdadeira simbologia familiar, com a personagem de Michael interpretada pelo seu sobrinho, Jaafar Jackson, filho de Jermaine Jackson (que, por sua vez, surge como um dos produtores executivos do filme). Se pensarmos na “tradição” dos retratos cinematográficos de grandes figuras da música, deparamos, com alguma frequência, com filmes que partem da mitologia dos retratados para, por assim dizer, expor os seus bastidores, eventualmente as respectivas contradições. Entre os títulos mais recentes, Judy (2019), com Renée Zellweger no papel de Judy Garland, será um dos mais interessantes. Ora, face à figura mitológica de Michael, dir-se-ia que ele viveu até às últimas consequências a dimensão fantástica da sua “persona” musical — o reverso do seu mito é ainda o próprio mito. Porquê? Porque ele próprio se assumiu, apresentou e representou como um artista universal. Ou como Michael diz no filme: “Fui posto na Terra para fazer isto.” E o que é isto? Num video promocional do filme, disponível no YouTube [“A Conversation with Director Antoine Fuqua”], o realizador responde através de uma afirmação concisa, afinal enraizada no discurso do próprio Michael: “Ele foi alguém que recusou ser catalogado como apenas um artista negro. Fez música para transcender a cor e a raça.” .Claro que o preconceito inerente ao politicamente correto reagirá sempre contra tal afirmação, confundindo o desejo de universalidade com uma traição “ideológica”. De facto, tal preconceito ignora o facto de o próprio Michael, em Black or White, ter expressado essa dinâmica humana numa hipótese radical, de contundente simbolismo: “(...) se estás a pensar ser meu irmão / não interessa se és preto ou branco.” Em qualquer caso, Black or White pertence ao oitavo álbum de estúdio de Michael Jackson, Dangerous, lançado em 1991. O filme de Fuqua ocupa um tempo anterior: do despertar musical de Michael, integrado nos Jackson 5 (com os irmãos Jackie, Tito, Jermaine e Marlon) até ao impacto de Bad (1987), o sétimo título da sua discografia. E se há uma fundamental virtude dramática do filme, ela decorre do tratamento da música — e, em particular, da performance das canções — como matéria fulcral do espectáculo que nos é proposto. .Em boa verdade, há personagens que justificavam um maior desenvolvimento dramático. É o caso do pai de Michael, Joseph Jackson (Colman Domingo), cuja obstinada resistência à carreira do filho para lá dos Jackson 5 tende a ser reduzida a uma repetida nota dramática, e também do produtor Quincy Jones (Kendrick Sampson) que, não tenhamos dúvidas sobre isso, foi muito mais do que a presença “decorativa” a que o filme o reduz. À maneira de Peter Pan .As qualidades interpretativas de Jaafar Jackson, incluindo o canto e a dança, são decisivas para sustentar uma personagem que se mantém sempre em aberto, mesmo enquanto vai acrescentando camadas mitológicas à sua identidade. E há momentos emblemáticos que, mesmo na sua brevidade, são tratados com particular acutilância e, por vezes, uma adequada ironia: do jardim zoológico privado de Michael até à rodagem do teledisco de Thriller (sob a direção de John Landis), passando pela cena nos escritórios da CBS Records, com o impecável Mike Myers, quase irreconhecível, a interpretar o respectivo presidente, Wakter Yetnikoff. São fragmentos que retraçam as etapas de um verdadeiro ícone popular, organizadas como uma colagem de “quadros vivos” de banda desenhada ou, de forma explícita, como variações de uma outra mitologia — a de Peter Pan e da sua ânsia de recuperar a sombra que perdeu. São, afinal, outras tantas formas de fidelidade ao imaginário artístico e à utopia criativa de Michael Jackson.