Catarina, a Grande: uma mulher acima dos homens

Chega nesta quinta-feira à HBO Portugal a grande produção, em formato minissérie, que retrata os últimos anos do reinado da maior imperatriz da Rússia. Esta, protagonizada por uma dominadora Helen Mirren.

Não há dúvida de que a realeza cai bem a Helen Mirren. Tínhamos a prova disso na interpretação, que lhe valeu um Óscar, de Isabel II em A Rainha (2006), de Stephen Frears, mas imediatamente antes desta a atriz inglesa já tinha dado cartas na pele de Isabel I, na minissérie televisiva - Elizabeth I - em que contracena com Jeremy Irons. Trunfos que se somam na carreira a outros papéis fortes e centrais. Não é por isso de estranhar a vontade recente de assumir, do alto dos seus luminosos 74 anos, a personagem de Catarina II da Rússia, a mulher que mais anos liderou e expandiu este império, e um dos nomes maiores do século XVIII.

Quando se fala de Catarina, a Grande, a referência do cinema é Marlene Dietrich, ela que, sob a direção do mestre Josef von Sternberg no assombroso A Imperatriz Vermelha (1934), encarnou a jovem alemã prometida ao grão-duque Pedro, herdeiro do trono russo, que pouco depois de este tomar posse organizou um golpe de Estado para o depor. Em 1762, Catarina proclamava-se assim imperatriz da Rússia, tanto com o apoio do tribunal e da elite como do exército de São Petersburgo, que o amante Grigory Orlov integrava (ou não fosse a sedução a sua primeira arma política). Quanto a Pedro III, morreria logo, em circunstâncias obscuras... O filme de Sternberg termina, pois, nesse ato triunfal de uma Catarina/Dietrich a cavalo, com os militares a seus pés.

Ora a história que se conta na minissérie Catarina, a Grande, a chegar esta quinta-feira à HBO Portugal, já não contempla os referidos acontecimentos - apesar de o passado estar muito vivo na mente dos que rodeiam a imperatriz. Por sua vez, o ângulo recai sobre os últimos anos do seu reinado, que correspondem à expansão do Império Russo e à gestão férrea do poder, com particular foco no romance com o militar Grigory Potemkin (Jason Clarke). Conhecida a promiscuidade da soberana (que marcou inclusivamente os anos do penoso casamento com o grão-duque Pedro), esta nunca se deixou manipular, ou perder de paixão, pelos que lhe animavam o leito. De qualquer modo, Potemkin terá sido um caso à parte: as ânsias da carne completaram-se com o verdadeiro amor.

Composta por quatro episódios, a minissérie assinada por Philip Martin (realização) e Nigel Williams (argumento) é um autêntico palco para os talentos da veterana Helen Mirren, que tem também um papel como produtora executiva. Aqui descobrimos a temida governante, rodeada de inimigos, a reger o império - como erudita que era -segundo os ideais da razão e do progresso, ao mesmo tempo que afasta as ameaças ao seu poder. A cada episódio, a dinâmica é muito clara: acompanham-se os procedimentos e rituais no interior do luxuoso palácio, da mesma maneira que a imperatriz vai seguindo os movimentos suspeitos à sua volta.

Cada ser masculino na sua órbita - dos conselheiros e secretários aos amantes - surge como alguém frustrado com a ideia de estar abaixo de uma mulher. Um deles será o próprio filho, Paulo, herdeiro do trono, que ela procura por todas vias evitar que lhe suceda na coroa. Entre a autoridade e os jogos de sedução, entre os assuntos diplomáticos e a intimidade, uma coisa é certa: Catarina nunca quis partilhar o trono com ninguém (nem deixá-lo a qualquer um). Por mais cercada de gente que estivesse, foi a sua liberdade de mulher culta que prevaleceu até ao fim. E, contudo, Grigory Potemkin representa a ligeira exceção à regra - ainda que não completamente. A linha que separava o público do privado esbateu-se com ele, uma vez que, além de fervoroso amante, se tornou uma figura crucial na arquitetura da política de expansão do império russo, que definiu a última fase do reinado. Talvez, mais do que tudo, ele tenha sido o único a encher-lhe as medidas por uma certa equivalência intelectual e abertura de espírito.

À parte destas mais ou menos típicas intrigas palacianas que dominam o retrato histórico, Catarina, a Grande é, no seu formato de minissérie, uma majestosa produção, cuja abundância e fausto (sobretudo dos interiores) leva facilmente à benigna exaustão dos olhos. No centro de tudo, sempre, Helen Mirren enverga a postura possante da monarca, e as suas subtilezas humanas, com a mesma desenvoltura com que caminha dentro dos vestidos pesados. Digamos que há uma soberana forma de estar que só algumas atrizes dominam, e Mirren é certamente uma delas.

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