Estranha opção esta de lançar um filme chamado Dossier 137 com o título português Caso 137... É um pormenor, claro. Terá sido por desnecessária “fidelidade” ao título inglês (Case 137)? Podemos até supor que haveria questões contratuais, ou razões de mercado, para não utilizar o original. O certo é que assim se perde o sabor cinéfilo que o título francês obviamente contém. Dito de outro modo: estamos perante uma narrativa do género policial, sem dúvida consciente da herança que está a revisitar.Nas suas muitas nuances e derivações, este é, de facto, um género (polar) profundamente enraizado na produção francesa. Há uns anos, a Cinemateca Francesa apresentou mesmo um ciclo dos seus clássicos (Le polar français), integrando títulos tão admiráveis, e também tão contrastados, como O Corvo (Henri-Georges Clouzot, 1943) Fim de Semana no Ascensor (Louis Malle, 1958), Cai a Noite sobre a Cidade (Jean-Pierre Melville, 1971), ou ainda o bem chamado Detetive (Jean-Luc Godard, 1984).Eis um dossier que pertence também a um modelo muito particular do policial. Ou seja: a investigação dos desvios abusivos da própria atividade policial, neste caso da responsabilidade da IGPN (Inspection Générale de la Policie Nationale), na gíria conhecida como “polícia das polícias”. A investigação é conduzida por Stéphanie Bertrand e tem como objetivo esclarecer em que condições foi gravemente ferido um jovem de 20 anos durante uma manifestação dos Coletes Amarelos, em Paris, em finais de 2018.Dominik Moll, o realizador (que partilha a autoria do argumento com Gilles Marchand), tem a noção prática e, mais do que isso, a agilidade de um narrador que sabe que uma história deste teor se conta tanto através da crueza de alguns factos incontornáveis como das sugestões ambíguas que vão contaminando a ação das personagens principais — até porque, a pouco e pouco, Stéphanie vai percebendo que há quem não esteja muito empenhado em facilitar o seu trabalho...Sem redundâncias retóricas, e também evitando a facilidade de qualquer generalização simplista, o que mais conta é a densidade psicológica dos ambientes e o modo como as relações (profissionais e privadas) se vão enredando de forma inesperada, por vezes inquietante. O sentido de “casting” é exemplar e, enfim, no papel central, Léa Drucker, anti-estrela do actual cinema francês, confirma o seu desmesurado talento — a sua interpretação valeu-lhe o César de melhor actriz de 2025.