A célebre passadeira vermelha de Cannes é apenas uma espécie de corredor ao ar livre, com uma cobertura transparente e umas duas dezenas de metros até aos degraus que conduzem ao Grande Auditório Lumière. Os protagonistas das sessões com obrigatório guarda-roupa de cerimónia passam a caminho da escadaria, ladeados por dezenas de fotógrafos, enquanto alguns milhares de mirones gritam os nomes das “stars”, muitos deles, inevitavelmente, sem conseguirem ver o que se está a passar... Não é uma descrição moralista, tão só o retrato objetivo de um espaço emblemático de um festival que, mesmo através das suas frivolidades, persiste como um acontecimento fulcral no cinema (e para o cinema) de todo o mundo - amanhã, primeiro dia da 79ª edição do Festival de Cannes, o ritual recomeça.Quando Thierry Frémaux, delegado-geral do festival, anunciou a programação deste ano mesmo os mais antiamericanos não deixaram de observar que a seleção parecia sofrer de um défice de Hollywood... Enfim, há muito que a palavra “Hollywood” passou a ser uma nostálgica referência simbólica, mas é um facto que, em anos recentes, algumas das mais fortes produções dos EUA têm optado por Veneza, em agosto/setembro, como plataforma de lançamento para a chamada “temporada dos prémios”.Mas não há razão para os cinéfilos, “pró” ou “contra”, ficarem incomodados. Na corrida para a Palma de Ouro, teremos Ira Sachs, com The Man I Love, e James Gray, com Paper Tiger. Isto sem esquecer as presenças de Ron Howard e Steven Soderbergh com documentários fora de competição: o primeiro sobre o fotógrafo Richard Avedon (Avedon), o segundo evocando a derradeira entrevista de John Lennon (John Lennon: The Last Interview). Destaque especial vai para a primeira realização de John Travolta, Propeller One-Way Night Coach, cuja antestreia mundial ocorrerá em Cannes. . Seja como for, e de acordo com uma elaborada política de produção e difusão (iniciada em 1949, com a fundação dessa sofisticada máquina promocional que é a Unifrance), a programação continua a ser marcada pela intransigente defesa do cinema com chancela da França. Assim, observando a lista de países envolvidos nos 22 títulos que concorrem para a Palma de Ouro, vemos que a produção de 16 deles tem participação francesa. O principal cartão de visita será Histoires Parallèles, realização do iraniano Asghar Farhadi, rodada em França, com um elenco liderado por Isabelle Huppert, Vincent Cassel e Catherine Deneuve. A representação dos autores franceses estará a cargo de Jeanne Herry (Garance), Léa Mysius (Histoires de la Nuit), Emmanuel Marre (Notre Salut), Arthur Harare (L’Inconnue) e Charline Bourgeois-Tacquet (La Vie d’une Femme).A galeria espanhola é também significativa, com três longas-metragens realizadas por Pedro Almodóvar (Amarga Navidad), Rodrigo Sorogoyen (El Ser Querido) e a dupla Javier Ambrossi/Javier Calvo (La Bola Negra). Neste trio, Almodóvar surge como um “eterno” candidato à Palma de Ouro, quanto mais não seja porque o impacto internacional da sua filmografia está fortemente ligado a Cannes desde Tudo sobre a Minha Mãe (prémio de realização na edição de 1999). . Outros cineastas premiados em edições anteriores reaparecem no alinhamento deste ano: o japonês Ryusuke Hamaguchi (All of a Sudden), o belga Lukas Dhont (Coward), o polaco Pawel Pawlikowski (Fatherland), o russo Andrey Zvyaginstev (Minotaur), o húngaro László Nemes (Moulin), o romeno Cristian Mungiu (Fjord) e o japonês Hirokazu Kore-eda (Sheep in the Box). Estes dois últimos já ganharam Palmas de Ouro: Mungiu com 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (2007), Kore-eda com Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões (2018). . Elogio dos clássicosA presença de todos estes “habitués” da Côte d’Azur não exclui, bem pelo contrário, uma continuada abertura aos trabalhos de autores menos conhecidos, ou mesmo a iniciar a sua atividade - incluindo o espaço La Cinef, dedicado a alunos de escolas de cinema de todo o mundo, este ano de novo com uma participação portuguesa. Especialmente significativa desta atenção a valores emergentes será “Un Certain Regard”, parte integrante da seleção oficial, cada vez mais orientada para valores emergentes - com uma abertura em tom de terror (Teenage Sex and Death at Camp Miasma, da americana Jane Schoenbrun), a secção apresentará 19 títulos dos quais seis são primeiros filmes.Dir-se-ia que o festival não desiste de procurar nas experiências do presente os sinais dos autores do futuro, porventura com potencialidades para se tornarem clássicos das novas gerações. O que, bem entendido, encontra sempre a rima adequada na secção que mais cresceu nos últimos anos: Cannes Classics, este ano com abertura dedicada à cópia restaurada de O Labirinto do Fauno (2006), de Guillermo del Toro. Estarão presentes, entre outros, títulos de Orson Welles (O Estrangeiro, 1946), Luchino Visconti (O Intruso, 1976) e Chen Kaige (Adeus, Minha Concubina, 1993). Sem esquecer, claro, que o cartaz oficial do festival recorda Susan Sarandon e Geena Davis em Thelma e Louise, de Ridley Scott, fenómeno de culto que começou com a sua passagem em Cannes/1991. . O júri da Palma de OuroHá múltiplos júris nas diferentes zonas do festival, nomeadamente na secção “Un Certain Regard” (que integra a seleção oficial, a par das curtas-metragens, os clássicos e as antestreias), ou ainda na Quinzena dos Cineastas e na Semana da Crítica. Em qualquer caso, Cannes tem o principal núcleo competitivo nas longas-metragens. O respetivo júri será este ano presidido por Park Chan-wook, várias vezes premiado em Cannes, a primeira com Old Boy (2004), título que se tornaria decisivo na sua projeção internacional. Como já é tradicional, o júri que vai atribuir a Palma de Ouro tem nove membros - eis a respetiva constituição:PARK CHAN-WOOK (Coreia do Sul). Realizador, argumentista, produtor.DEMI MOORE (EUA). Atriz, produtora.ISAACH DE BANKOLÉ (Costa do Marfim/EUA). Ator.LAURA WANDEL (Bélgica). Realizadora, argumentista.PAUL LAVERTY (Escócia). Argumentista.CHLOÉ ZHAO (China). Realizadora, argumentista, montadora, produtora.DIEGO CÉSPEDES (Chile). Realizador, argumentista.RUTH NEGGA (Irlanda/Etiópia). Atriz, produtora.STELLAN SKARSGÅRD (Suécia). Ator. .Das curtas à realidade virtual