Por mais que isso incomode alguns decisores da área da comunicação televisiva, nos dias que correm não é possível pensar o valor social do cinema sem questionar as opções de programação dos pequenos ecrãs. Isto porque o cinema foi praticamente excluído de alguns canais que se apresentam como “espelho" da atualidade; entretanto, neste período em particular (“temporada de verão”, como se diz na gíria comercial) os “blockbusters” são das poucas referências cinéfilas que têm “direito” a alguma atenção, ainda que breve e quase sempre esquemática. Dito de outro modo: A Odisseia consegue furar a rede informativa, mas títulos como o marroquino Calle Málaga, ou o italiano Campo de Batalha, regra geral são “não-acontecimentos” televisivos. Um velhíssimo preconceito, alimentado por uma apoteótica ignorância da história (tanto do cinema como do pensamento crítico), avança com uma “explicação” que, infelizmente, tende a satisfazer a preguiça mental do senso comum. A saber: os “críticos”, assim descritos como um rebanho sem diferenças interiores, seriam aqueles que, automaticamente, condenam os filmes de grande apelo comercial. Enfim, considero A Odisseia um prodigioso acontecimento de cinema, mas não é essa a questão — sobre esta conjuntura televisão/cinema, pensaria de modo idêntico, mesmo que o filme de Christopher Nolan não me seduzisse... Há mais mundos artísticos, para lá da guerra pueril do “bom” e do “mau”. A questão de fundo (ou “do fundo”, como diria o saudoso Millôr Fernandes) está para lá dos juízos de valor, felizmente diversos e contrastados, que cada um de nós, legitimamente, vai produzindo. É uma questão de percepção do próprio continente cinematográfico, daquilo que nele acontece e dos mecanismos sociais que o enquadram. .Realizado pela marroquina Maryam Touzani (nascida em Tânger, em 1980), Calle Málaga não é uma obra-prima, longe disso, mas ilustra de forma exemplar — com assinalável consistência narrativa e evitando tratar o espectador de forma paternalista — um modelo de drama popular que, noutros tempos, chegou a ocupar um sector importante do mercado. Tendo em conta que esta é, em última instância, uma história amarga sobre o envelhecimento, o filme demarca-se das ficções dominantes, favorecidas pelas novelas e alguns formatos de talk shows que exploram de modo obsceno os elementos físicos ou psicológicos de qualquer velhice. Em Calle Málaga, deparamos com uma história genuinamente humana em que o envelhecimento surge com toda a sua carga dramática, mesmo quando pontuado por sinais insólitos de ironia ou até de pura (e contagiante) comédia social. Encontramos, assim, Maria Ángeles, 79 anos, espanhola a viver em Tânger, a cidade onde nasceu. O seu drama poderia ser assunto de telenovela, embora aqui tratado com uma diferença fundamental: nem ela, nem as outras personagens, são estereótipos de um qualquer moralismo de pacotilha. Acontece que a relação pouco frequente que mantém com a filha, Clara, vai ser interrompida de forma chocante. Recentemente divorciada, Clara surge “vinda do nada", com o objetivo principal de vender a casa em que Maria sempre habitou — e não é todos os dias que, contra os sentimentalismos da moda, vemos um drama familiar encenar, assim, a contaminação dos afetos pelas questões financeiras. Moral da história? Nada determinista, como o prova a sábia suspensão dramática do final: Calle Málaga é um sugestivo exercício sobre a pertença de cada ser humano a um lugar, não apenas no plano geográfico e cultural, mas como “coisa” irredutível, anímica, quase secreta. Com Carmen Maura, figura emblemática do cinema de Pedro Almodóvar, a provar também que o envelhecimento é uma arte. Sem esquecer, no papel da filha, a brilhante Marta Etura.