As derradeiras canções gravadas por Marianne Faithfull chegaram no EP Burning Moonlight, lançado no chamado Record Store Day, a 12 de abril de 2025. Foi uma edição póstuma, uma vez que Faithfull falecera poucos meses antes, a 30 de janeiro, na sua cidade natal (Londres) — contava 78 anos. Aquele que seria o seu derradeiro álbum, She Walks in Beauty, co-assinado com Warren Ellis, tinha surgido em 2021, precisamente o ano em que começou a trabalhar em Broken English, uma absoluta obra-prima do género documental que hoje, 25 de junho, chega aos ecrãs portugueses.Dizer que os autores de Broken English, Iain Forsyth and Jane Pollard, quiseram, precisamente, documentar o trajeto criativo de Faithfull será, de uma só vez, correto e insuficiente. Estamos perante um objeto de cinema que desafia, ponto por ponto, as ideias feitas (sobretudo mal feitas) sobre o que possa ser um “documentário”.Para nos ficarmos pelos dados mais imediatos, podemos descrever Broken English como um filme que tem por base uma multifacetada conversa com Faithfull, de alguma maneira ilustrando o modelo clássico de “entrevista-de-vida" (nada a ver, bem entendido, com a miséria humana das entrevistas “confessionais” com que alguma televisão explora a existência privada de incautos cidadãos). Ao mesmo tempo, diremos também que essa conversa, com o ator George MacKay (conhecemo-lo, por exemplo, de 1917, o filme de guerra que Sam Mendes assinou em 2019), não esconde os artifícios da sua organização e montagem.MacKay não surge como um entrevistador tradicional, já que faz parte de um aparato técnico de estúdio que possui também a dimensão de um sistema de investigação e filosofia condensado na sua designação oficial: “Ministério do Não Esquecimento”. Gerido por uma figura de postura austera e intransigente rigor argumentativo (Tilda Swinton), que faz esse “ministério”? Investiga e inventaria os factos para lá da dimensão mítica que adquiriram, ou ainda repondo algumas verdades muito básicas maltratadas pelos agentes do mais vergonhoso jornalismo que, ao longo de décadas, perseguiu e enxovalhou a vida e a obra de Marianne Faithfull. . Revisitamos, assim, o turbilhão mediático que reduziu Faithfull à figura da “namorada de Mick Jagger” que, através de muitas atribulações, sobreviveu aos dramas da toxicodependência. Não que ela não tenha sido uma quase musa dos Rolling Stones, sobretudo a partir do momento em que interpretou a canção As Tears Go By, incluindo numa célebre sequência, recordada por Forsyth/Pollard, do filme Made in USA (1966), de Jean-Luc Godard (imagem que ilustra este texto). Não que ela não tenha vivido anos terríveis por causa das drogas que consumiu. Seja como for, o que está em jogo é algo mais do que uma simples reposição dos factos — é a devolução desses factos a uma forma de memória e narrativa em que Faithfull se possa rever e, de alguma maneira, reconhecer num misto de desencanto e alegria.As palavras e as coisasEvocando uma fala inglesa que se “quebrou”, ou melhor, uma linguagem em luta pelo equilíbrio ideal entre as palavras e as coisas, o título Broken English provém, como é óbvio, do álbum homónimo de 1979 — foi o sétimo registo de estúdio de Faithfull. E não é das menores maravilhas deste filme singularmente encantatório que a revisitação de diversos momentos emblemáticos da sua carreira — incluindo uma profusa atividade como atriz de cinema (lembremos o belíssimo Intimidade, realizado por Patrice Chéreau em 2001) — combine as qualidades de uma abordagem jornalística e a vibração emocional de uma história íntima finalmente reconquistada pela sua protagonista.Sem querer revelar mais do que é devido, não resisto a informar o leitor que Broken English inclui Marianne Faithfull a cantar Misunderstanding (do álbum Negative Capability, 2018), na companhia de Warren Ellis e Nick Cave. Foi a sua última interpretação a ser filmada — são momentos de comovente comunhão de arte e artistas, abençoados pela eternidade que o cinema contém..'Aos nossos Amigos'. À procura das imagens de uma geração.'Little Trouble Girls'. Música e desejo vindos da Eslovénia