Aos 65 anos, Vincent Lindon continua a ser um dos raros atores franceses a fazer recordar velhas figuras da produção do seu país, de Jean Gabin a Lino Ventura, senhores de uma vibração dramática com o seu quê de teatral, capaz de contaminar toda a intensidade emocional de um filme. Reencontramo-lo agora, em Brincar com o Fogo, confirmando a aptidão para compor personagens a viver experiências capazes de abalar todas as certezas do seu universo pessoal, familiar ou profissional.Escrito e realizado por duas irmãs, Delphine Coulin e Murial Coulin, Brincar com o Fogo coloca em cena a figura de um viúvo (Lindon) com dois filhos adolescentes: o mais novo (Stefan Crepon) prepara-se para entrar na Sorbonne e parece encaminhado para uma brilhante carreira; quanto ao mais velho, Félix, conhecido como “Fus” (excelente Benjamin Voisin, que já tínhamos visto, por exemplo, em Verão de 85, de François Ozon) envolve-se com um grupo da extrema-direita e entra numa espiral de solidão e violência.Escusado será dizer que o filme ecoa muitas convulsões contemporâneas, não apenas da sociedade francesa, correndo o risco de se transformar numa ficção tendencialmente abstrata, “adaptável” a qualquer contexto. Se tal não acontece, isso decorre, pelo menos em parte, da consistência do elenco, com inevitável destaque para o trio formado por Lindon, Crepon e Voisin. Acabando por resistir à facilidade “panfletária”, as irmãs Coulin fazem um filme que vive das singularidades daqueles três seres que definem uma comunidade de memórias e afetos subitamente ameaçada por formas de degradação humana e política que lhes entram, literalmente, pela casa dentro...A representação algo distante do grupo de extrema-direita, tratado como uma ameaça “coletiva” que não chega a ter qualquer definição dramática com um mínimo de contrastes, não beneficia a eficácia do filme. Dir-se-ia que “Fus” se envolve, não tanto com rapazes da sua geração, mas com um “fantasma” ideológico que existe como objeto imponderável, correspondente a uma coleção de rostos fugazes e corpos de presença sempre efémera no ecrã.Tudo isso resulta também do facto de Brincar com o Fogo nunca querer confundir-se como uma “tese” definitiva sobre o que quer que seja. Nos seus melhores momentos, assistimos à decomposição, primeiro emocional, depois ideológica, de um universo em que cada personagem se confronta com a fragilidade do seu próprio “destino”. Será por isso também (sejamos pragmáticos) que o filme tem conseguido importantes ecos internacionais. Em Veneza, para lá de várias distinções paralelas ao palmarés oficial, valeu mesmo a Vincent London a Taça Volpi (prémio de melhor interpretação masculina) - ele é, de facto, alguém capaz de encher o ecrã com a energia paradoxal do fator humano. .'Noite sem Fim'. Redescobrindo o prazer do “suspense” .'O Romance de Jim'. Através do labirinto das relações humanas