Convenhamos que Bravo Bene!, de Franco Maresco, é um filme que o espectador terá dificuldade em descrever. Incluindo o crítico de cinema. Afinal, que estamos a ver? O desafio é tanto mais sugestivo quanto por ele perpassa um perfume de menosprezo pelo trabalho da crítica que, sejamos realistas, tem sempre algum sucesso garantido junto de alguns sectores do público... Enfim, não se pode ter tudo, mas é um facto que Maresco não esconde a sua indiferença pelas regras correntes da produção cinematográfica. Tal atitude não pode deixar de suscitar alguma simpatia, mesmo não sendo fácil perceber que alternativas ele tem para propor. Um jornalista italiano, Davide Stanzione [no site bestmovi.it] propôs um curioso resumo de Bravo Bene! como um filme que “de uma vez por todas, manda o cinema para o inferno”. Devemos deduzir que aquilo que nos é proposto já não é cinema? No original, Bravo Bene! chama-se Un Film Fatto per Bene, “um filme bem feito” ou “feito por boas razões”. Em boa verdade, trata-se de um trocadilho, já que pode ser lido também como “um filme feito para o Bene”. Ou seja: Carmelo Bene (1937-2002), personalidade lendária do cinema italiano, também criador de muitos títulos de ruptura com os mais frequentes códigos narrativos, polvilhados por um militante fascínio por William Shakespeare. Maresco está a fazer um documentário sobre Bene... Estará mesmo? Com assumida ironia, o projeto cedo se apresenta como um jogo de máscaras em que a componente documental não esconde os seus artifícios — para utilizarmos a designação que entrou na gíria cinematográfica, estamos perante um “mockumentary”, literalmente, um documentário a fingir. Bravo Bene! acaba mesmo por ser uma deambulação autobiográfica com que, num misto de candura e perversidade, Maresco dá conta das suas dificuldades para filmar e também da resistência a estabelecer qualquer cumplicidade cinéfila com os seus pares. Daí alguns bizarros momentos de humor, como a “reprodução” burlesca da cena da Morte a jogar xadrez em O Sétimo Selo (1957), de Ingmar Bergman. Ou ainda as imagens televisivas da consagração de um filme de Maresco, Era uma Vez a Mafia, com o Prémio Especial do Júri no Festival de Veneza de 2019 — entenda-se: com apresentação da presidente do júri, a cineasta argentina Lucrecia Martel, e na ausência de... Maresco! Resumindo: Bravo Bene! vê-se como uma boa anedota cujo humor vai sendo esbanjado por uma narrativa caótica.