Magia e tecnologia juntas são o pão para a boca do cinema de efeitos visuais de Hollywood. Em Braga, a Nu Boyana Portugal estabeleceu-se em 2018 e tem provado até hoje que artistas locais e estrangeiros podem ser fulcrais para grandes produções internacionais. Benesses desta globalização que permite que do Minho sejam criadas explosões, cenários inimagináveis e uma fantasia de larga escala em filmes como Rambo -A Última Batalha, de Alan Grunberg, Hellboy, de Neil Marshall ou o recente O Guarda-Costas e a Mulher do Assassino, de Patrick Hughes. Ou seja, de Braga a Hollywood vai um pulinho e é nesta casa de efeitos que a Millennium, produtora de peso do cinema americano, conta para polir visualmente os seus filmes. São mais ou menos três dezenas de profissionais que numa moradia no centro de Braga vão compondo efeitos e pequenos truques em múltiplas produções, os chamados VFX, efeitos visuais digitais, criados a partir de computadores..Braga porquê? "Porque não? Sobretudo agora que cada vez mais estamos numa fase da indústria em que o trabalho remoto e a globalização faz parte da equação. Ao mesmo tempo, foi querer ter qualidade de vida. Eu e a Celine , cuja família é minhota, conhecíamos bem a zona e temos um aeroporto a 40 minutos. E está a correr bem, os bracarenses foram recetivos e muita gente da área quis vir para aqui, mesmo com as resistências de não ser em Lisboa", conta Pedro Domingo, espanhol que juntamente com Celine Fernandes, uma luso-francesa, dirige esta aventura. Ou seja, um investimento em Portugal em nome do amor e da família. Céline salienta outro trunfo de Braga: "É uma cidade que encaixa no significado de smart city e é uma aposta de descentralização"..Seja como for, com Portugal como destino de moda e cada vez mais técnicos e artistas dos VFX portugueses, Braga já não parece assim tão excêntrico, sobretudo agora que a empresa também tem trabalhado com o audiovisual português. Por exemplo, a série Cuba Livre, da RTP, tem efeitos Nu Boyana, e alguma da publicidade portuguesa também tem tido tratamento nestes computadores minhotos..Na altura desta visita, o foco da casa são acabamentos do quarto Os Mercenários, os Expendables, de Stallone, alguém que controla de perto todo este processo de criação digital. Este Expendables é o projeto mais ambicioso que alguma vez a Nu Boyana participou e há muita explosão e outras loucuras para acrescentar. Trabalha-se contra o relógio e a rezar que os sistemas informáticos não falhem nem fiquem com um rendering lento, mesmo tendo em conta que ainda não há data para a estreia do filme. Antes, os cinemas devem receber o filme de terror The Piper, com Julian Sands, outra aposta da Millennium que terá a Nu Boyana Portugal nos créditos. Tudo isto dentro dos maiores procedimentos de segurança ou não fosse o caso destes artistas serem os primeiros a ver as imagens brutas de muitos filmes de orçamento elevado..E porque os efeitos digitais não deixam de ser animação, Pedro Domingo criou também a Lusco Fusco, um braço da empresa para os filmes de animação, área onde começou a trabalhar em cinema. Neste momento, já há uma série para a RTP na forja e outros projetos em coprodução, "nesta altura, estamos a começar mais como servicing e a investir em coproduções, creio que faz mais sentido assim pois temos o músculo e as ferramentas certas. Quando a estrutura estiver mais madura vamos começar a criar ideias!", conta o diretor. Para além dos VFX, aos poucos a Nu Boyana está também a desenvolver produções de base. Já na fase de financiamento estão Revolução sem Sangue, ainda em pré-produção, Justiça Artificial, projeto galego situado num futuro distópico e Elefante, uma coprodução com Espanha para uma história de realismo social para ser filmada dos dois lados da Península Ibérica. Aliás, cada vez mais a ideia é procurar projetos nacionais de raiz..Para Pedro Domingo, mais do que os efeitos visuais e todos os impossíveis tornados possíveis da fantasia, os VFX servem sobretudo para ajudar a necessidade de cada filme. Por vezes, os melhores efeitos são aqueles que o público nem nota, como por exemplo a inclusão de um edifício ou a remoção de uma antena numa produção de época, o chamado apoio visual narrativo. "Esses efeitos muitas vezes ajudam a poupar muito dinheiro. Recorrem a nós para evitar construir cenários ou contratar milhares de figurantes"..No menu destes serviços há de tudo um pouco dentro daquilo que o digital pode transformar: do rigging, modelação, texturização à animação, composição e iluminação. Vale tudo, até criar monstros e outras criaturas....O brasileiro Marcelo Ferreira é um dos craques da casa e assume-se como supervisor de VX. O que isso quer dizer? O próprio explica: "Sou a última linha até à criação dos efeitos. O que faço é organizar o efeito e depois passar para os artistas da minha equipa. Mais tarde, faço uma revisão e dou algumas notas artísticas para a cena ou até para a sequência inteira. Em seguida, respondo para o supervisor que está na Nu Boyana mãe, na Bulgária". Marcelo salienta que o segredo nas execuções dos prazos é as equipas estarem unidas. A próxima vez que num genérico final de um blockbuster virmos centenas e centenas de artistas, já percebemos a razão pela qual o cinema contemporâneo está tão dependente destes artistas. Pedro Domingo sabe que não é fácil segurar estes craques tão bem pagos, mas acredita que um dos caminhos é em Braga começar-se a apostar cada vez mais na formação de novos técnicos. "Acima de tudo, queremos estar em diversos campos mas como produtores a ideia é só apostar nos projetos que gostamos. A maioria dos filmes dão muitos problemas - ao menos que estejamos a tentar superar os problemas nos projetos que acreditamos...".dnot@dn.pt