Brad Pitt ou a paixão do burlesco

Subitamente, um grande espectáculo de verão: Brad Pitt comanda Bullet Train: Comboio Bala, aventura japonesa que é também uma das melhores comédias que Hollywood produziu em tempos recentes.

Perante a estreia de Bullet Train: Comboio Bala, protagonizado por Brad Pitt, reencontramos uma dúvida: para onde vai o cinema de verão? Ano após ano, a pergunta regressa, concisa e incómoda. E por duas razões fundamentais: primeiro, porque esse cinema está parasitado pelos valores impostos pelo marketing de super-heróis e afins; depois, porque as grandes forças de produção de Hollywood tendem a esquecer a diversidade da sua nobre tradição de entertainment, reduzindo o espectáculo a uma rotina de formas e fórmulas cada vez mais entediante.

Se é verdade que não há regra sem exceção... aí está a exceção! Adaptando um livro de Kotaro Isaka, com grande impacto nos mercados japonês e americano, Bullet Train narra as aventuras e desventuras de um assassino contratado que responde (ou é obrigado a responder) pelo nome de código "Ladybug" (à letra: Joaninha). A sua coordenadora envia-o numa viagem no "comboio bala" que liga Tóquio a Kyoto, com a missão de recuperar uma mala que contém uma grande quantidade de dinheiro. No mesmo comboio viajam mais alguns assassinos interessados na mesma mala, direta ou indiretamente ligados à personagem de "Morte Branca", um sinistro cérebro criminoso...

A sinopse é limitada e limitativa, quanto mais não seja porque ignora o saber (e o sabor) narrativo que perpassa por todos os elementos de Bullet Train. Acontece que estamos perante um objeto que se distingue pela inteligência cénica e cenográfica com que sabe tirar partido do espaço fechado das carruagens - creio que não exagero se disser que uns bons 90% da ação têm lugar no interior do comboio em movimento. Tal "claustrofobia" é tanto mais surpreendente e envolvente quanto surge potenciada como elemento de comédia pelo realizador David Leitch (até agora, o seu título mais interessante era Atomic Blonde, um thriller de 2017 protagonizado por Charlize Theron).

Estamos, de facto, perante uma comédia, das mais vertiginosas e surreais que Hollywood produziu nos últimos tempos. O filme sabe convocar toda uma série de clichés ligados à tradição do thriller policial para, metodicamente, os decompor em explosões de alegria formal e contagiante gosto do absurdo - tudo pontuado por diálogos de maravilhosa contundência teatral, dir-se-ia desafiando a rapidez do próprio comboio. Como se esta fosse uma "missão impossível" refeita em tom de farsa.

A excelência técnica de tudo isto é incrível - a provar também que há diferenças importantes entre a invenção que aqui encontramos e as rotinas dos chamados efeitos especiais. Sem esquecer que nada disso anula (bem pelo contrário!) a contribuição fundamental dos atores, incluindo Aaron Taylor-Johnson e Brian Tyree Henry, dupla de assassinos que se dão a conhecer pelos nomes de "Tangerina" e "Limão". Enfim, destaquemos o prodigioso trabalho de Brad Pitt a afirmar-se como legítimo herdeiro de uma tradição que passa por Buster Keaton e Jerry Lewis, oferecendo-nos um "Ladybug" de genuína poesia burlesca.

dnot@dn.pt

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