Um milhão e cinquenta e cinco mil entradas pagas para Avatar - O Caminho da Água. Eram estes os números do filme de James Cameron e cuja receita dá mais de 7 milhões e 600 mil euros na passada segunda-feira, de acordo com os dados do ICA, mas um blockbuster da Warner, o novo da DC Comics, Shazam! Fúria dos Deuses, entra apenas com uns modestos 17 mil bilhetes. Não estamos ainda com a embalagem da era pré-pandemia, isso é um facto, mas quem acompanha as receitas das salas costuma apanhar surpresas: as pessoas começam a selecionar mais as idas aos cinemas e quando há um filme que as atrai os números parecem indiciar retoma..Vejam-se os efeitos dos Óscares para Tudo em Todo o Lado ao Mesmo Tempo: o filme dos Daniels foi reposto e entrou logo para os lugares cimeiros, estando agora com 36 mil entradas no seu total. Aliás, ao contrário do que foi dito, não foi um flop quando chegou aos ecrãs na passada primavera - mesmo não tendo campanha, foi ficando nas salas bastante tempo e conseguiu beneficiar de um efeito de boca a boca para um lançamento com pouca pompa..Há também um filme que dá esperança: Creed III, de Michael B. Jordan: ultrapassou a barreira dos 100 mil espectadores e está a abrandar pouco, tendo devorado Gritos 6, que nos EUA tinha funcionado bem. Lá está, o público dos multiplexes já não vai a tudo..Por exemplo, da safra dos Óscares, A Baleia, de Darren Aronovosky, foi dos que funcionou bem. O efeito do comeback de Brendan Fraser atraiu muita gente, coisa que A Voz das Mulheres, vencedor do Óscar de Melhor Argumento Adaptado para Sarah Polley, não conseguiu. Até agora não levou mais de 6.000 pessoas. Até Ice Merchants, de João Gonzalez, a curta que foi lançada num modelo novo, fez bem melhor: segundo a sua distribuidora, a Cinemundo, cerca de 10.000 pessoas foram às salas vê-la..Dessa mesma distribuidora, Nuno Gonçalves, diz ao DN, que acredita na retoma: "Ainda estamos longe dos números antes da pandemia, mas, quando os filmes apelam, o público reage e está presente em sala de cinema. Estamos com menos 26% dos números de 2019, mas estamos em crer que, com os filmes programados para este ano, o gap será bastante colmatado. Em síntese, desenvolveremos por todos os meios, conjuntamente com os nossos clientes, para a missão de trazer à experiência da sala o melhor que se faz no cinema mundial. Acreditamos na recuperação!".E dos filmes que na próxima temporada podem ajudar a esta resistência à quebra estão Super Mario Bros - O Filme, aposta de animação forte da Warner; Barbie, de Greta Gerwig, Oppenheimer, de Christopher Nolan, Astérix e Obélix: Império do Meio, de e com Guillaume Canet (estreará também com cópias em versão dobrada...), Os Guardiões da Galáxia: Volume III, o último para a Disney de James Gunn, A Pequena Sereia, de Rob Marshall e, sobretudo, Velocidade Furiosa X, com o efeito das filmagens em Portugal e com um elenco forte onde cabem igualmente Joaquim de Almeida e Daniela Melchior..Os chamados filmes de alcance médio é que são a grande incógnita. Há sinais positivos, como Magic Mike: A Última Dança, de Steven Soderbergh, que chega aos 80 mil espectadores ou Um Homem Chamado Otto, de Marc Forster, com resultados semelhantes. Mas também há O Urso do Pó Branco, de Elizabeth Banks, que se ficou por 12 mil pessoas... Depois, outro problema: o cinema português. Great Yarmouth - Provisional Figures, de Marco Martins, entrou modestamente, apesar de em certos cinemas ter tido casas cheias: no seu primeiro fim de semana não foi além de 2.171 entradas. Resultado nada animador para filmes como Nação Valente, de Carlos Conceição, e Sombras Brancas, de Fernando Vendrell, que se vão anular no mesmo dia: 20 de abril..Como sempre, há uma sala que resiste e onde o cinema português costuma ter lotações esgotadas, o Trindade, no Porto. Américo Santos, o seu proprietário, está convencido de que Não Sou Nada, de Edgar Pêra, e o díptico Mal Viver / Viver Mal, de João Canijo, podem vir a funcionar. "São propostas que podem revelar-se surpreendentes. Mas aquilo que poderá fazer a diferença, em termos de adesão de público, será a qualidade das estreias. Ou seja, há dois nomes em que depositamos grandes expectativas: Wes Anderson e Pedro Almodóvar, cineastas cujos filmes correm sempre muito bem no Trindade. Julgo, também, que vamos depender muito dos filmes do próximo Festival de Cannes, que por norma geram enormes expectativas junto do público"..Outro dos distribuidores independentes, a The Stone and the Plot, por intermédio de Daniel Pereira, também não é parco em otimismo: "estamos a trabalhar na Integral da Kinuyo Tanaka com o maior dos otimismos. Depois dos mais de 40.000 espectadores que estes seis filmes fizeram em França, acreditamos que, proporcionalmente, podemos fazer um número muito interessante em Portugal, chegando não só a um espectador mais especializado, mas também a um espectador comum, que se vai interessar por descobrir a primeira realizadora japonesa. Estamos em crer que com este ciclo vamos chamar a atenção para outras propostas mais arriscadas que a The Stone and the Plot e algumas outras distribuidoras têm trazido, contribuindo assim para reter e aumentar espectadores"..Para o mercado carburar, era preciso que filmes como Beau tem Medo, de Ari Aster, Air, de Ben Affleck, ou Saint Omer, de Alice Diop, não passem despercebidos. Mas é aí que pode reinar o pessimismo quando obras como Os Filhos de Ramsès, de Clement Cogitore, ou Pacifiction, de Albert Serra, têm números desastrosos. Ou seja, o excesso e fartura nos lançamentos das obras de cinema de autor está a afastar para sempre um público culto de cinema....dnot@dn.pt