Que sentido faz (ou não faz) fazer uma sequela de um filme que foi um acontecimento marcante nos circuitos comerciais? A pergunta surge a propósito da estreia de Beetlejuice Beetlejuice, o filme de Tim Burton que serviu de abertura oficial do Festival de Veneza (a decorrer até sábado), retomando a personagem do fantasma burlesco interpretado por Michael Keaton..Convenhamos que não teria lógica formular tal pergunta como se, para o melhor ou para o pior, Burton fosse o principal responsável do fenómeno das sequelas. É certo que o seu trabalho não lhe é estranho, quer retomando títulos de sua autoria, quer revisitando obras de diferentes origens - basta lembrar que o seu filme anterior, Dumbo (2019), refaz, agora com atores, o clássico de animação produzido por Walt Disney em 1941 -, mas têm sido as produções com chancela Marvel ou DC Comics a definir o século XXI de Hollywood através de uma avalanche de sequelas e muitas outras derivações..Burton não é uma figura central dessa dinâmica, mesmo se dirigiu Batman (1989) e Batman Regressa (1992), títulos fundadores da nova era cinematográfica de um dos heróis emblemáticos da DC Comics. O novo filme enraiza-se num desejo eminentemente nostálgico: o original, Beetlejuice (1988), entre nós lançado como Os Fantasmas Divertem-se, além de ter ficado como imagem de marca da inspiração fantástica e fantasiosa do seu autor, foi também um importante sucesso de bilheteira - seria mesmo decisivo na integração de Burton no espaço de produção dos grandes estúdios..Com alguma ironia, talvez possamos considerar que Burton e a Warner Bros. quiseram pôr em prática um “feitiço” semelhante ao que se concretiza quando alguém, quase sempre de modo incauto, repete o nome de Beetlejuice… fazendo-o regressar ao espaço dos vivos. Assim, em vez do possível “Beetlejuice 2”, o título Beetlejuice Beetlejuice parece corresponder a um “abracadabra” cinematográfico, como se a personagem de Michael Keaton pudesse sustentar uma sequela sem ser revigorada por um argumento que arriscasse mais do que “repetir” o humor do primeiro filme, além do mais deixando o seu intérprete central entregue à monótona repetição dos mesmos gestos e esgares..Enfim, não simplifiquemos a visão de Burton que tenta, pelo menos, através da personagem da jovem Astrid (Jenna Ortega), filha de Lydia (de novo a cargo de Winona Ryder), criar uma diversificação capaz de enriquecer a história - afinal de contas, ela não acredita em fantasmas… Ou será que se tratou apenas de explorar uma figura capaz de atrair os espectadores mais jovens, maioritários nas salas de todo o mundo? Há momentos em que prevalece a sensação de que se procura explorar um humor típico do universo televisivo de Saturday Night Live, criando “quadros” que surpreendam por breves notas de um calculado absurdo - incluindo a utilização, na banda sonora, do fragmento de uma canção dos islandeses Sigur Rós..Ouvindo os Bee Gees.Neste risonho casamento entre as atribulações dos vivos e o mundo dos mortos, a cena mais conseguida (e, a meu ver, mais ligada às raízes figurativas e simbólicas do universo de Burton) acontece logo no início, também sob o signo de uma canção inesperada: Tragedy, pelos Bee Gees, do álbum Spirits Having Flown (1979). Assim, Delores (Monica Bellucci), a “sugadora de almas” que foi casada com Beetlejuice “na vida real”, refaz o seu próprio corpo através das peças transportadas em caixotes de madeira - a cabeça, os braços, até mesmo um dedinho rebelde, tudo é devidamente agrafado (sic) de modo a refazer o corpo original… Sobra um paradoxo sugestivo: este é também um cinema que gostaria de reencontrar o paraíso narrativo apenas remendando as componentes mais óbvias do seu imaginário.