Encontramos a Beatriz Narciso no espaço Safra, na Estrada da Torre, em Lisboa, um antigo armazém transformado em hub de artistas. É ali que ela trabalha todos os dias. Tem várias telas expostas nas paredes e num cavalete uma pintura que está a terminar e que já está vendida. Um homem sentado com uma criança ao pescoço no que parece ser uma despensa de porta aberta. O ter vencido a primeira edição da WAF - Women in Art Fellowship, bolsa de que a artista Joana Vasconcelos foi mentora e membro do júri, já lhe começou a dar visibilidade e, no próximo ano, vai abrir-lhe as portas para uma exposição em Lisboa, entre março e junho, em data ainda a definir. Nessa mostra vai apresentar, revela ao DN, uma “pintura instalativa”, o projeto com que venceu a bolsa. E mostra-nos os desenhos dessa proposta e então ficamos a perceber a razão porque se refere à pintura como uma instalação - terá três paredes. “Foquei a pesquisa no que a mulher fez pela sociedade. A nível doméstico, na ciência, na saúde, em tudo. E acabei por fazer uma lista daquilo que está um pouco escondido na história. Fiz uma coleção de vários objetos que foram inventados pelas mulheres, mas que não tiveram o devido reconhecimento, ou tiveram-no mais tarde. Decidi juntar isso tudo numa sala”, explica a artista, de 24 anos. Essa sala é um sótão, um espaço onde “deixamos sempre relíquias da família, ou de pessoas que estiveram na nossa vida, e está sempre na hora de arrumar, mas às vezes arrumamos as coisas erradas, ou às vezes não arrumamos. É um processo muito emocional. E eu acho que esse comportamento também transmite muito como nós funcionamos na sociedade. Ao que é que fechamos os olhos? Ao que é que deveríamos ter prestado mais atenção ou ao que é que demos demasiada atenção? Nunca sabemos para onde olhar”. . As telas darão corpo a esta reflexão sobre o que guardamos e o que deitamos fora, e serão pintadas no estilo que ela tem vindo a explorar. “A minha pintura é figurativa, mais para o lado realista. E tem este complemento quase fotográfico, porque eu também uso o recurso da fotografia. E depois transformo, dando mais ênfase à luz, alterando as cores, acrescentando mais pessoas, ou alterando o espaço.”Beatriz Narciso desvenda o seu processo criativo: “Gosto primeiro de pensar num tema, numa coleção, e depois trabalho a partir disso. Inspiro-me no meu dia-a-dia, e daí a fotografia, vou andando, fotografo, e depois volto”. .Com a covid não se podia sair muito, mas à noite eu ainda conseguia. E só pintava sítios, porque não havia muita gente, era mais eu com o espaço, não havia muita ação humana, mas eu gostei desta desmistificação do espaçoBeatriz Narciso. A série em que tem vindo a trabalhar chama-a de “Noturna”, porque retrata pessoas e ambientes à noite. Começou a fazê-la, explica a artista, na altura da covid, nas Caldas da Rainha, onde estudava, na Escola Superior de Arte e Design, no curso de Artes Plásticas. “Não se podia sair muito, mas à noite eu ainda conseguia. E só pintava sítios, porque não havia muita gente, era mais eu com o espaço, não havia muita ação humana, mas eu gostei desta desmistificação do espaço, e depois também como as pessoas também se comportam à noite.”De regresso a Lisboa, começou a olhar para a noite do Bairro Alto e do Cais do Sodré. “Observo como as pessoas se divertem, há um relaxar que acontece mais à noite, e eu gosto muito de ver essa franqueza”, explica. . Observadora do quotidiano, a exploração da luz e da cor são centrais na obra produzida até agora por Beatriz Narciso, que aponta como referências artistas tão díspares como Artemísia Gentileschi (pintora barroca italiana do século XVII), Edward Hopper ou Paula Rego. Beatriz Narciso terminou a licenciatura em 2022 e decidiu dedicar-se a 100% à pintura. Quando soube da WAF não hesitou em candidatar-se. Beneficiou de mentoria em muitas áreas, e quando se lhe pergunta o que reteve de mais importante para a sua carreira artística que apenas está no início, aponta para os aspetos técnicos, por exemplo, como fixar o preço de uma pintura. “Sempre foi uma dúvida que eu tinha”, diz. Retirou ensinamentos para tornar a sua atividade rentável a longo prazo, “porque eu gostava de fazer isto e nada mais”, sublinha. “Eu agora faço as minhas próprias telas, compro o linho, e isso tem todo um outro custo, porque preocupo -me com a longevidade da minha pintura, quanto tempo ela dura, quanto tempo é que ela consegue estar nas casas, se ela é resistente às temperaturas, e é um preço um pouco mais alto, mas eu estimo que o meu cliente daqui a dez anos não tenha nenhum problema”. Tem pintado em acrílico, mas agora está a descobrir as vantagens da tinta a óleo. “Estes dois quadros são a óleo. O resto é acrílico”, aponta. “Estou a fazer essa transição, porque o óleo tem outras vantagens. É mais translúcido e dá para fazer camadas de uma forma um pouco mais demorada, mais minuciosa, e eu gosto de ter isto no meu trabalho”.A formação que teve no âmbito da WAF fê-la perceber que ser artista é também ser empreendedor. “Eu tenho que levar um pouco mais a sério esse lado”, admite. “Tenho que trabalhar um pouco mais isso, porque eu não tenho dinheiro para pagar a uma equipa. Já faço networking, quando sou convidada para inaugurações, ou quando vou por mim própria, já há pessoas que me conhecem numa sala de 200. Isso para mim já é excelente, alguém saber o que eu faço. E depois a rede de trabalho, muito contacto humano ainda, presencial, olharem para mim, saberem quem eu sou. Acho que Portugal funciona um pouco assim”. .Estão constantemente a dizer-me para escrever sobre o meu processo. Escrever sobre o que faço. Porque é um treino para também poder falar melhor sobre o meu trabalho. E vender, por assim dizer, a minha brand.Beatriz Narciso.Neste processo de se afirmar como artista plástica, Beatriz Narciso percebeu que tem que investir na criação da sua marca. “Estão constantemente a dizer-me para escrever sobre o meu processo. Escrever sobre o que faço. Porque é um treino para também poder falar melhor sobre o meu trabalho. E vender, por assim dizer, a minha brand. E isso também é muito importante e requer consistência. Mas não é fácil, porque às vezes há coisas novas, o nosso trabalho está sempre a mudar. Dizem-me, regista e mostra tudo aquilo que fazes, mesmo que não pareça interessante. As pessoas também se ligam a isso. É o processo que às vezes faz com que haja esta ligação pessoal entre o artista e o cliente, ou o artista e o curador”. A bolsa artística WAF, criada pelos centros Via Outlets em Portugal, em parceria com a Portugal Manual e a Sota - State of the Art, proporcionou-lhe apoio estimado em 27 mil euros, entre formação, criação de um site e a exposição que terá no próximo ano. Beatriz Narciso enquadra-se no perfil de artistas que a WAF quer apoiar: mulheres que estão fora dos circuitos institucionais da arte contemporânea, oferecendo financiamento, mentoria e visibilidade. . Quanto ao impacto que a exposição em Lisboa poderá ter na sua carreira, afirma: “Primeiro espero que o conceito seja bem transmitido, essa é a minha preocupação. Depois disso, se me trouxer a visibilidade e a capacidade de continuar a poder fazer o meu trabalho, de ser artista em Portugal de uma forma sustentável, que venha”. No futuro, Beatriz Narciso vê-se a participar em bienais e a fazer residências artísticas e diz que gostaria de continuar a trabalhar em Portugal, tal como faz Joana Vasconcelos, a madrinha da primeira edição da iniciativa, que a partir de Lisboa desenvolveu uma carreira internacional. .A cor, para ela, nunca é decorativa; é parte da narrativa emocional de cada obra. Quando visitei o atelier, foi muito importante perceber de perto o processo meticuloso dela, o rigor com que pensa cada decisãoAstrid Sauer.Astrid Sauer, líder da State of The Art (Sota) e especialista em arte contemporânea, fez parte do júri que escolheu Beatriz Narciso como a primeira vencedora desta bolsa. Em relação ao projeto com que a artista se candidatou, sublinha “a originalidade do universo que escolheu trabalhar: a noite, os ambientes sombrios, as caves e os sótãos, esses espaços onde se acumulam coisas e memórias. A forma como nos faz refletir sobre o que escolhemos guardar e o que deixamos partir, trazendo esse imaginário íntimo para uma perspetiva claramente feminina, revela uma sensibilidade rara”. Também destaca a forma como ela “trabalha a relação entre luz e sombra, os cenários noturnos e aquilo que normalmente fica escondido ao olhar. A cor, para ela, nunca é decorativa; é parte da narrativa emocional de cada obra. Quando visitei o atelier, foi muito importante perceber de perto o processo meticuloso dela, o rigor com que pensa cada decisão”. Astrid Sauer considera que o trabalho de Beatriz Narciso tem um “enorme potencial de internacionalização, vejo um caminho muito promissor com residências artísticas e formações internacionais, que poderão ampliar o seu vocabulário visual e o seu percurso”. .Sara Graça: A precariedade de uma geração e a arte como processo de resolução de problemas e improviso.Graça Morais: “Devo aos grandes escritores portugueses o reconhecimento da minha obra”