Banda desenhada cómica punk sobre o quotidiano de luxo

Depois de "Gravidez", a ilustradora Júlia Barata lançou "Quotidiano de Luxo", transformando a sua vida numa banda-desenhada de tom "cómico punk".

O stress do trabalho, o trânsito, as contas para pagar, o mau humor, o filho que chora, a pressão da família, os sonhos cada vez mais distantes, a falta de tempo, a frustração que se acumula, a fila na segurança social, as férias que nunca mais chegam. A vida de todos os dias cansa. E é este "quotidiano de luxo" que é retratado, com doses de humor e acidez q.b., nas tiras de banda desenhada de Júlia Barata, reunidas em dois pequenos livros: Gravidez (2017, editado pela Tigre de Papel, de Lisboa, e pela Musaraña Libros, de Buenos Aires) e Quotidiano de Luxo (2019, Tigre de Papel).

Júlia Barata teve, como ela mesma diz, "um percurso geográfico bastante caótico": "Nasci em Coimbra, mas nunca lá vivi, os meus pais estavam em Maputo, Moçambique, e lá cresci até aos 7 anos; depois mudámos para o Porto, onde vivi até aos 16, depois em Lisboa até aos 26, passando um ano pela Holanda aos 24, depois em Barcelona até aos 30, e daí ainda girei um pouco pelos mesmos sítios - Maputo, Porto e Lisboa - até vir para Buenos Aires." Instalada em Buenos Aires, na Argentina, desde 2013, Júlia tem atualmente 38 anos e um filho de 6.

"Contei historias e desenhei desde sempre, desde pequenina que passava horas a desenhar, e quando o meu pai viajava por trabalho escrevia-lhe as cartas em banda desenhada, contando as nossas vidas através dos desenhos", recorda. Fez o curso de arquitetura em Lisboa e na Holanda, e trabalhou sempre como arquiteta, em todos os lugares onde viveu. "Mas nunca deixei de lado o desenho e a ilustração, que iam acontecendo em paralelo através de exposições, fanzines e autoedições", explica. "Em setembro do ano passado passei a dedicar-me exclusivamente aos desenhos, aos comics e à ilustração. Não foi uma decisão definitiva nem nada que se pareça, apenas um momento em que se deram as condições para isso."

Até então, apesar de trabalhar como arquiteta, Júlia foi sempre explorando o desenho e a pintura a que, a partir de 2012, se juntou também a banda desenhada. "Provavelmente como escape a situações difíceis que se deram, senti a urgência de contar o que me estava a acontecer, e surgiram os primeiros esboços do que depois se tornou o livro Gravidez", explica.

Num registo de diário gráfico, a preto e branco, em Gravidez acompanhamos a protagonista desde o momento em que descobre que está grávida até ao nascimento do bebé, com todos os dramas associados à mudança no corpo, às hormonas ou às ansiedades típicas de uma mãe de primeira viagem, ao mesmo tempo que acontece a mudança para Buenos Aires. Um banho de realidade com filas para o serviço nacional de saúde e muitas contrações dolorosa, num tom que a a editora classifica como "cómico punk".

"Paralelamente ao desenvolvimento desse livro, foram surgindo as primeiras páginas do Quotidiano de Luxo, que eram feitas maioritariamente em transito, nas viagens de comboio para as obras, ou nos intervalos de tempo entre a maternidade, o trabalho e a vida em Buenos Aires com o meu companheiro de então."

Estas páginas inauguraram também o seu diálogo com as redes sociais: "O traço rápido e as páginas auto-conclusivas respondiam - ainda que por vezes pouco claramente - ao formato de "post", com o hashtag #cotidianodelujo, e tornou-se um hábito", explica. Em 2017 condensou algum desse material num fanzine, auto-editado, que circulou nas feiras e livrarias "fanzineiras" de Buenos Aires. "Foi tendo boa receção e continuei a desenhar páginas, até que com o Bernardino Aranda, editor da Tigre de Papel que já tinha visto o fanzine, pensámos em fazer um livro, com o material quase todo, e nas cores originais, e daí nasce a edição de Quotidiano de Luxo, que tem um certo caráter de sequela do Gravidez, enquanto história, embora com um registo gráfico um pouco diferente."

Em Quotidiano de Luxo estamos, portanto, já instalados no dia-a-dia desta jovem família, a tentar conciliar trabalho, maternidade e alguma diversão adulta. Os sentimentos de culpa típicos das mães e a alegria de ter um filho. Isto tudo desenhado a preto e vermelho, num traço imperfeito que realça as imperfeições dos corpos, das pessoas e do mundo.

"O quotidiano, tal como a vida na canção de Godinho, faz-se de pequenos nadas. Microações diariamente praticadas, eterno retorno de gestos e problemas que se deslocam dentro de nós", escreve Marta Lança no posfácio de Quotidiano de Luxo. O quotidiano pode desabar. " E é esse tão vulnerável equilíbrio que se lê e vê" nestas páginas. "A sua obsessão confessional e diarística de desenhar o pequeno incidente, bons e maus momentos, vergonhas e sucessos, utilidade ou vazio que os dias trazem, convida-nos a entrar na sua forma de ver o mundo e de se ver a si." São "ninharias", diz Marta Lança. Mas são estas ninharias que, afinal, compõem a vida de Júlia Barata e a vida de todos nós.

Livros de Júlia Barata
Gravidez: 13 euros
Quotidiano de Luxo: 13 euros
Editora Tigre de Papel

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