Não é uma sala onde se esperaria ver um espetáculo da Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo (CPBC), mas é o palco adequado em tamanho e localização para acolher a primeira iniciativa do projeto Rota dos Pequenos Palcos (RPP). O bailado CASA, composto por quatro criações de seis coreógrafos (duas duplas) estará em cena no Capitólio, no Parque Mayer, em Lisboa, de 22 a 25 de janeiro, dando início a uma digressão pelo país, sempre em pequenas salas. Assim espera Susana Lima, bailarina que integrou desde o início a companhia fundada por Vasco Wellenkamp e Graça Barroso em 1997, e que em 2024 assumiu a direção artística. “Esta aposta do Capitólio foi inédita, tanto que somos o primeiro espetáculo de dança que eles vão receber, mas como eu queria uma coisa diferente, mesmo fora da caixa, não queria um lugar habitual, o normal é o Camões, porque é o teatro da dança, mas o Camões era enorme, nem tentei o contacto, eu queria uma coisa pequena, mas boa, e muito central”, diz Susana Lima a DN. .Com o projeto Rota dos Pequenos palcos, explica a diretora artística da CPBC, “a ideia é conseguir chegar mais longe e a mais pessoas, porque nós somos uma companhia mediana, temos entre dez e 11 bailarinos, há peças que têm cenário e não é possível pôr 11 bailarinos, cenário e volumes em palcos pequenos, como a maior parte dos palcos em Portugal, que têm seis ou sete metros de frente. Então lembrei-me de fazer uma programação específica para este tipo de palcos e para os municípios, para que possam ter acesso também a dança de qualidade, a que normalmente não têm”.O objetivo é que todos os anos haja um peça leve e móvel para chegar a todo o país porque, garante Susana Lima, público não falta. Depois da estreia na capital - “para começar tinha que ser em Lisboa, é a nossa casa” - a peça tem garantida a presença no Centro Cultural de Samora Correia, em Benavente, no dia 6 de março.No CASA será possível ver o bailado Sopro - A garden full of metal, dos coreógrafos César Fernandes e André Mesquita, Habita-me, de Miguel Santos, Luz/Dez, de Beatriz Mira e Tiago Barreiros, e Suite, de Vânia Doutel Vaz.“Lancei-lhes o desafio e dei-lhes liberdade total. O que é que podia ser casa, o lado arquitetónico, o espaço físico, algo mais telúrico, casa é bom, é mau, é conflito, é amor, o que é que pode ser casa? E fizeram ali quatro versões muito diferentes, que era exatamente isso que me interessava”, afirma Susana Lima, que queria “mostrar a extrema versatilidade destes bailarinos, que tanto podem fazer um repertório alinhado com a linha estética que nós sempre fizemos, como têm capacidade para fazer algo mais arrojado”. .Os coreógrafos são jovens emergentes, mas “com cartas dadas, uns mais do que outros” e com experiência internacional. São também todos ex-bailarinos da CPBC: “É quase como um regresso a casa também para eles, eles voltam para coreografar”. Cada coreógrafo só podia usar um limite de quatro bailarinos da companhia. “O que nos permite fazer uma coisa que, para nós, nunca aconteceu - vivemos sempre no limite, dançávamos sempre com o número integral - que é trabalhar pela primeira vez com dois casts de quatro. Como nós somos dez, dá para revezar. Estes espetáculos no Capitólio vão ser alternados também, não é o mesmo elenco a dançar sempre”, explica Susana Lima. A Rota dos Pequenos Palcos decorrerá, no entanto, sempre em paralelo com a programação habitual da companhia em que participam todos os bailarinos, que será para manter e já tem espetáculos agendados para este ano. .A peça mais conhecida do repertório da CPBC é o AMARAMÁLIA, uma coreografia de Vasco Wellenkamp. “O nosso AMARAMÁLIA é icónico, continua a viajar e continua a circular e enquanto houver pedidos...Eu já disse que vai ser o Cats da vida deles [dos bailarinos], porque é aquela peça que continua, é intemporal”, sublinha Susana Lima. A atividade da CPBC tem sido sobretudo em Portugal, com a apresentação de vários espetáculos do seu repertório, mas o AMARAMÁLIA tem tido alguma circulação internacional. “Queria continuar a apostar na internacionalização, nós estivemos em dezembro em Espanha, a convite da embaixada de Portugal naquele país, e funcionou muito, muito bem, foi um grande sucesso. E estamos em negociações para repetir”.Alargar o repertório da companhia é também um dos objetivos, até porque, diz a diretora artística, “a companhia nunca foi uma companhia de autor, Vasco Wellenkamp nunca quis que nos cingíssemos a uma linha estética só, ele acreditava nisso já na altura, e eu também sou apologista de que nós, como bailarinos, não ganhamos a trabalhar só uma vertente. Temos que abrir horizontes e aprender a absorver de vários coreógrafos”. Mas tanto a internacionalização como o reforço do repertório exigem financiamento que neste momento a CPBC não tem. “Havemos de criar novo repertório, mas para isso é preciso investimento. E essa é a nossa grande luta para este ano, é procurar mais investimento e mais apoio para conseguir investir em programação”. . A companhia é apoiada pela Câmara Municipal de Lisboa e pelos mecenas Allianz, Fundação Millennium bcp e RH+, mas os recursos são limitados face aos custos da companhia, que tem um corpo próprio de bailarinos e assim quer continuar. “Acreditamos que só se consegue assumir este palco quando toda a gente trabalha todos os dias ao mesmo tempo e são os mesmos, para ganhar dinâmica de grupo, e isso é muito difícil de manter, é muito pesado economicamente”.Quando assumiu funções, Susana Lima iniciou uma reestruturação da CPBC. “É muito difícil reorganizar a casa, tentar voltar a pô-la o mais parecido possível com aquilo que nós tínhamos [o grupo fundador], nós passámos numa altura bem mais privilegiada do que estes miúdos agora, tínhamos bastante mais apoio. E é muito difícil, é o que se chama fazer omeletes sem ovos, conseguir mudar a estrutura para não sobrecarregar as pessoas com três, quatro papéis, o ideal é ter uma pessoa para tratar de cada coisa”. De qualquer forma, Susana Lima adianta que a companhia voltou a contratar pessoas ao mesmo tempo que corta custos e olha para o futuro. “Foi isso que foi feito este ano com a criação da Rota dos Pequenos Palcos. Temos mais coisas na gaveta, a ver se elas acontecem.”Outra área que é uma prioridade para a diretora artística da CPBC é a comunicação. “O meu intuito é sempre honrar este legado que nós temos, este património imaterial do Vasco, que é riquíssimo, honrar sempre, continuar a fazê-lo melhor, mas também continuar a levar a companhia para a frente e mostrar cada vez mais, comunicar às pessoas o que fazemos”. .A Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo, instalada em Marvila, comemora 30 anos em 2027 e Susana Lima está apostada em dá-la a conhecer a mais público. “Trabalho nós sempre fizemos, mas as pessoas nem sempre souberam, porque não era devidamente comunicado. E hoje em dia é quase um crime não comunicar aquilo que a gente faz. E nós fazemos bastantes espetáculos por Portugal”. .Olga Roriz: "Libertei-me do pudor. Eu dispo-me neste espetáculo. Integralmente" .Recebida entre “boos e bravos” em Avignon, 'NÔT' chega aos palcos nacionais