As irritações de Julia e George

E subitamente as turras constantes de George Clooney e Julia Roberts nesta comédia de Ol Parker resultam. E se resultam! Bilhete para o Paraíso é um "agrada-multidões" com poucos defeitos, alguma alma e com coragem para mostrar as bonitas rugas destas estrelas de cinema.

Mesmo considerando que já foi tudo feito no género da comédia romântica, sabendo também ao que aqui vamos, Bilhete para o Paraíso, é uma surpresa reconfortante. Um daqueles objetos de Hollywood tão inofensivo como importante. Inofensivo por não querer enganar ninguém, é uma rom-com assumidamente tola e sem pretensões, importante porque, neste altura, é exatamente aquilo que o público quer ver após a ausência deste "produto" face à pandemia. Acima de tudo, é o prazer de reencontrar duas estrelas de cinema que sabem sempre reinventar-se. Juntos, Julia Roberts e George Clooney são adoráveis, fazem sentido. De alguma forma, fazem resplandecer um imaginário da comédia clássica, a bem dizer, uma certa memória das irritações românticas de Spencer Tracy e Katherine Hepburn - rezingões com uma cumplicidade própria, iniciada em 2001, em Ocean"s Eleven, de Steven Soderbergh.

Julia e George, aqui a interpretar dois cinquentões divorciados e que se odeiam de morte. De repente, são chamados a Bali para ir ao casamento da filhinha prodígio: uma jovem licenciada em Direito que desiste de tudo para se casar com um indonésio cultivador de algas. Obviamente, não aprovam e decidem fazer um pacto de não agressão e aliar-se para boicotar o casamento. E, no meio deste Bali sem turistas a mais e onde tudo é paradisíaco, parece que ao pouco começam a voltar a olhar um para o outro, mesmo quando a tentação para o insulto está sempre ao virar da esquina...

Com uma escrita fina e bem oleada, Ol Parker (conhecido sobretudo de Mamma Mia - Here We Ho Again), aproveita bem o embalo de um humor de fórmula de comédia familiar, tudo ligeiramente white America burguesa mas com um certo charme british, descontando todo o folclore tropical de Bali. Aliás, o filme chega a enjoar com o folheto turístico à região. Mas nada que amasse essa comicidade que fala do charme de "cotas" a reapaixonarem-se em praias de azul celeste. Praias essas que podem esconder gagues improváveis: desde cobras e golfinhos malandros a ameaçar a toada pacífica. Acima de tudo, Ol Parker evita a histeria, coisa já gigante num empreendimento destes. Para além disso, há uma camada inusitada no guião: a maneira como se fala da inferioridade moral dos americanos. Os pais sabem que não são boas pessoas e é aí que o filme tem piada. Resgata o mau carácter de uma educação capitalista e torna tudo numa saga de redenção, não obstante quando lá para o último terço fique realmente comédia sentimental.

Curiosamente, Ticket to Paradise chega a Portugal antes da estreia americana e, em sequência do luto nacional no Reino Unido, é inclusive um dos primeiros países a estrear-se. Fica também o aviso para durante os créditos finais ninguém abandonar a sala: os bloopers são do mais divertido que há memória. Para respeitar ainda mais George Clooney e Julia Roberts. Às vezes, as estrelas de cinema são mesmo precisas, sobretudo quando partilham um carisma tão pícaro...

dnot@dn.pt

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