'As Irmãs Macaluso': Laços de família

Estupenda surpresa do novíssimo cinema italiano. Emma Dante, em As Irmãs Macaluso, conta uma história trágica de uma casa de irmãs desfeitas por uma tragédia. Doce, sensual e afetuoso. Estreou-se ontem.

Gestos, fragmentos e riscos. É disto que se faz o filme que nos introduz em Portugal ao cinema da italiana Emma Dante, aqui a filmar uma dilacerante tragédia de uma família. Um filme descoberto no Festival de Veneza e que em Portugal serviu ao mesmo tempo de encerramento da Festa do Cinema Italiano e de abertura do festival feminino Olhares do Mediterrâneo. E é precisamente de um sortilégio de olhar feminino que As Irmãs Macaluso se faz valer. Dante é uma cineasta desses tais gestos ousados de procurar uma cumplicidade de irmandade feminina. Fá-lo com uma delicadeza que é tanto sensual como íntima.

Passada em Palermo, a história introduz-nos às jovens irmãs Macaluso num verão particularmente quente e iniciático. São cinco as jovens que vivem numa casa que alberga pombas brancas - os pais deixaram-nas depois de um acidente e entre elas há um sentimento de comunidade. A vida destas irmãs muda radicalmente quando uma delas desaparece num acidente mortal numa praia. Anos depois, já com as suas vidas refeitas e desfeitas voltamos a encontrá-las num ambiente algo decadente, estando uma delas a contas com um cancro fatal. O que poderia ser um conto de choradinho contínuo transforma-se num Mulherzinhas sombrio e com um desfiladeiro orgânico de poesia. Um filme com gente triste lá dentro mas com um estranhíssimo encanto de fábula distorcida.

Por vezes, lembra o cinema de Alice Rohrwacher, por outras não lembra nada e parece algo verdadeiramente novo, o que é óptimo. A poesia trágica desta Emma Dante faz-se de olhares de cinema capaz de nos levitar perante os espaços e as situações de puro cinema, sempre através de uma "mise-en-scène" que se ganha nos detalhes. Pombas, doces de figo, caixas de música e banhos de imersão surgem em composições dignas de descrições literárias.

Tchekov pode ser também força libertadora do filme mas o que é imponente nesta conjugação de afectos tristes é a maneira como esta cineasta filma a arte da cumplicidade feminina. Uma câmara que perscruta os traumas como um baú de família com fotos e recordações abandonadas.

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