As Doce nunca foram ressarcidas pelo mal que lhes foi feito, lembra advogado

A recente estreia do filme Bem Bom, de Patrícia Sequeira, recuperou a memória de um dos grupos musicais mais populares de sempre em Portugal, as Doce. Mas também trouxe a memória amarga da campanha de difamação de que foram vítimas. O advogado delas, Agostinho Pereira de Miranda, conta ao DN como tudo aconteceu.

Talvez tudo tenha começado com uma graçola boçal numa noite de copos. Ou com o vislumbre de uma cabeleira loura numa maca de hospital. Depois, tudo o que, em 1981, ainda subsistia de marialvismo na sociedade portuguesa deu lastro, um lastro tão grande que dura até hoje, àquilo que se transformaria numa das maiores campanhas de difamação do Portugal democrático. Os alvos? Laura Diogo, Helena Coelho, Fátima Padinha e Teresa Miguel, os quatro membros do grupo musical As Doce, cuja popularidade entre miúdos e graúdos não parava de aumentar, valendo discos de ouro, de platina, espetáculos cheios e um país inteiro a saber-lhes de cor as canções. Uma delas, dizia-se, teria sido violentamente sodomizada por um homem negro e atlético, a ponto de ter sido socorrida na urgência hospitalar. Depois vieram os nomes, suficientemente sonantes para que toda a gente os apontasse a dedo: ela era Laura, a loura do grupo, ele era Reinaldo Gomes, futebolista de origem guineense da equipa principal do Benfica.

A história explode no princípio de dezembro de 1981, quando as Doce estavam em tournée no Canadá. A imprensa mais sensacionalista faz eco do suposto caso, as piadas fáceis são repetidas milhares de vezes (mesmo em tempos tão anteriores às redes sociais) nos empregos, nos cafés, até nas escolas. Num instante, esqueceram-se as tribulações da vida política, os resultados da "bola", as peripécias da telenovela: só se falava nisto.

Ainda no Canadá, as Doce são informadas e passam, todas elas, uma procuração forense ao então jovem advogado Agostinho Pereira de Miranda para que as represente em tudo o que se relacionasse com este caso.

Com pouco mais de 30 anos, Agostinho trabalhava no escritório do conhecido advogado anti-fascista Francisco Sousa Tavares e apresentava, no currículo, pelo menos dois casos de impacto mediático: em 1980, defendera o chamado "piratinha do ar", o adolescente, João Rodrigues de seu nome, que, nesse ano, ousara desviar um avião da TAP, mas também (em parceria com o advogado e jornalista, Miguel Sousa Tavares) Roberto Martelli, o membro das Brigadas Vermelhas que os serviços secretos italianos tinham surpreendido em Lisboa. Dando-se o caso de ser amigo de António Avelar de Pinho (autor de muitas letras das Doce, como de muitos outros artistas portugueses na época), tornar-se-ia a escolha natural das quatro jovens postas em tal aflição.

"A sensação que eu sempre tive", conta agora ao DN, Agostinho Pereira de Miranda, "é que o primeiro impulso delas foi contactar o advogado da sua editora, a Polygram, que lhes terá dito que nada havia a fazer. A partir daí foram um bocado deixadas à sua sorte. Por sugestão do António Avelar de Pinho, constituíram-me como seu advogado". De regresso a Portugal, Laura, Lena, Fátima e Teresa apresentam queixa na Polícia Judiciária contra os alegados autores do boato, João Duro e Guilherme Martins, membros do corpo clínico do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, e o advogado requer a certidão negativa deste estabelecimento de saúde, certificando que nenhuma delas tinha sido ali atendida no período em que supostamente tinham ocorrido os acontecimentos. "O caricato de tudo isto", recorda Pereira de Miranda, "é que as Doce tiveram que pagar a uma pessoa para fazer a pesquisa nos arquivos do Hospital porque este não disponibilizou sequer um funcionário para a tarefa, alegando falta de pessoal."

Para o advogado, o boato prosperou porque "todas as instituições falharam: a Ordem dos Médicos, a RTP, o Sindicato dos Jornalistas e, antes de qualquer outra, a editora delas. No saldo final, foi esse comportamento irresponsável das instituições e indivíduos que contribuiu para a sensação de falhanço que, de algum modo, se apoderou delas." Ao longo do processo, testemunhou o efeito devastador que a situação causava nas suas involuntárias protagonistas: "A minha ideia era fazer uma conferência de imprensa mal elas chegassem ao aeroporto de Lisboa para que imediatamente se fizesse o contra-ataque. Mas percebi que era impossível já que estavam completamente arrasadas." Ao longo do processo, Pereira de Miranda testemunharia o desamparo das artistas, todas muito jovens (Lena Coelho não tinha ainda 20 anos): "A mais forte era porventura a Teresa Miguel, que era também a mais velha. A Laura, então com 21 anos, era muito ingénua e tinha poucos instrumentos para lidar com todo aquele drama." Como é mostrado no filme de Patrícia Sequeira, Laura Diogo, antiga manequim, namorava então com um estudante negro, que, não aguentando a pressão, a deixou na sequência do boato: "Isso devastou-a porque ela gostava muito dele. De resto, a Laura não tinha noção de que no Portugal da época, mesmo na indústria discográfica, supostamente menos conservadora do que outros meios, namorar um rapaz negro a expunha a muita maledicência."

A queixa foi apresentada a 3 de dezembro de 1981 e as Doce prestaram declarações na PJ a 15 de janeiro seguinte, havendo mais tarde também uma participação à PSP de Belém. Durante quatro anos o caso andou na justiça (primeiro com Pereira de Miranda como advogado e depois com o seu colega de escritório, Miguel Sousa Tavares) até ficar à espera de produção de melhor prova. "O que choca em tudo isto", afirma o advogado, "é a impunidade. Estes dois médicos desencadearam a campanha ao dizerem que alguém que eles conheciam (e que nunca identificaram) tinha cosido uma das cantoras das Doce, sem nunca especificar qual. Tanto quanto sei, eles nunca foram incomodados por tais declarações, tal como a RTP, então a única televisão a operar em Portugal, alguma vez responsabilizou os seus profissionais que difundiram, para o público ouvir, piadas acerca do assunto."

As Doce alguma vez foram ressarcidas ou indemnizadas pelo mal que lhes foi feito? "Nada, zero. Esta é uma situação de exploração despudorada e criminosa porque infligiu um dano permanente a estas quatro mulheres", responde o advogado que hoje trabalha exclusivamente na associação por si formada, PróPublica - Direitos e Cidadania, onde lida com muitas questões relacionadas com violência doméstica e de género. "Antes de ser advogado", conta, "fui inspetor da PJ e lidei com um mundo de extrema agressividade mas nunca me habituei. Um caso como o das Doce é muito revoltante." E se em vez de 1981, a data destes acontecimentos fosse 2021, o que aconteceria? "Não creio que fosse muito diferente porque, nas suas camadas mais profundas, a sociedade portuguesa não mudou assim tanto." E conclui Agostinho Pereira de Miranda: "O trágico é que a nossa lei continua a ser demasiado branda quando a reputação de alguém é destruída para sempre."

dnot@dn.pt

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