Revelado em agosto no Festival de Locarno, agora lançado no circuito das salas, As Estações, de Maureen Fazendeiro, apresenta-se como um documentário que discute a sua própria dimensão documental. Dito de outro modo: sendo o Alentejo uma província frequentemente reduzida a esquematismos políticos ou clichés turísticos, o menos que se pode dizer de As Estações é que se trata de um exercício que nos dá a ver (documenta, precisamente) toda uma região através da observação dos seus lugares e habitantes, mas também convocando múltiplas memórias históricas e narrativas - é uma aposta ganha esta estreia de Maureen Fazendeiro como realizadora, a solo, de uma longa-metragem (em 2021, com Miguel Gomes, coassinara Diários de Otsoga).Curiosamente, começamos por ouvir falar alemão. Isto porque o projeto de As Estações teve como inspiração inicial o legado de Georg e Vera Leisner, casal de arqueólogos alemães que, ao longo das décadas de 1930-40, foram pioneiros no estudo dos monumentos megalíticos da Península Ibérica - daí que escutemos textos da correspondência que mantiveram com os seus pares na Alemanha (incluindo durante os tempos finais da Segunda Guerra Mundial).Ao contrário da convenção narrativa de raiz televisiva, esses textos, em off, não servem de “explicação” daquilo que as imagens nos mostram. As Estações é um filme absolutamente consciente da dualidade da linguagem cinematográfica - imagens/sons - e, nessa medida, da possibilidade de os seus elementos não obedecerem a uma lógica redundante de informação (ou de informação redundante). A própria noção de “informação” está, aqui, em discussão, já que os relatos arqueológicos podem alternar com registos muito diversos, incluindo momentos de encenação de lendas da tradição popular - sem que isso sirva de caução ou “justificação”, pensamos na herança de filmes como Trás-os-Montes (António Reis/Margarida Cordeiro, 1976), superando os limites de um discurso “apenas” etnográfico.Aliás, vale a pena insistir na questão das imagens alentejanas e nos seus tradicionais valores. Assim, estamos habituados a ver um Alentejo de uma paleta de muitos castanhos, dominado por largos horizontes pontuados por um ou outro sobreiro (com maior ou menor qualidade artística, não é isso que está em causa). Ora, em As Estações deparamos com um “visual” bem diferente, dir-se-ia um trabalho de redescoberta iconográfica do Alentejo a que, naturalmente, não é estranha a excelente direção fotográfica de Robin Fresson e Marta Simões - os verdes das paisagens e as cores frias das rochas são, aqui, elementos fundamentais de comunicação e emoção. .'Urchin'. Realismo e tragédia nas ruas de Londres.'Dreams'. Oslo, cidade dos sonhos