Como dar conta, em cinema, da música de raiz cigana? Eis uma pergunta que podemos relançar de modo abrangente: como ser fiel à pluralidade criativa e à riqueza expressiva da cultura Romani? A longa filmografia do realizador Tony Gatlif (francês, nascido na Argélia em 1948) é internacionalmente conhecida, e também consagrada, como uma das mais completas respostas a tais questões. Dois títulos poderão resumir tal vocação e também o respetivo reconhecimento: Latcho Dorm (1993) e Exílios (2004), ambos distinguidos no Festival de Cannes — o primeiro como melhor filme da secção “Un Certain Regard”, o segundo com o prémio de realização.Também apresentado em Cannes (extra-competição, edição de 2025), Ange chega agora às salas portuguesas, convocando-nos para o mundo muito particular e enigmático da personagem que dá título ao filme. Interpretado por Arthur H (nome artístico de Arthur Higelin, cantor, compositor e criador multifacetado, nomeadamente como ator e ilustrador), Ange talvez se possa definir como um homem à procura das emoções que a sua vida foi atraindo e, não poucas vezes, adiando. Daí que os seus encontros sejam momentos tocados pela pudica variedade que o amor pode assumir: primeiro, com Georgina (Maria de Medeiros), figura cuja presença se mede também pela nostalgia que partilham; depois, Solea (Suzanne Aubert), a filha com que Ange quer retomar um diálogo que talvez nunca tenha acontecido; por fim, Marco (Mathieu Amalric), o amigo cuja cumplicidade o tempo terá decomposto... ou talvez não...Tudo isto se cruza com a música, uma vez que Ange é um apaixonado da tradição cigana. Há um mesmo um breve, mas eloquente, diálogo com Solea em que ele explica a dinâmica interior dessa música e o “sopro” que a anima. De que modo?É o “sopro da vida, do amor, do desejo, da dor... e da provocação” — e Ange sorri como quem celebra os segredos de uma poesia muito íntima.Daí que Ange (o filme e a personagem) aposte na celebração de uma liberdade definida, em termos esquemáticos, pela possibilidade de continuar a percorrer a “estrada da vida”. A expressão pode ser interpretada de forma lírica, mas envolve também o facto muito concreto de este ser um filme com algo de road movie. Dito de outro modo: uma viagem mais ou menos errante em que cada um tenta encontrar o sentido perdido de toda uma existência — falando, cantando e dançando.