Nesta entrevista ao Diário de Notícias, revisita um percurso sem grandes ruturas, fala da maturidade, do teatro musical, da Eurovisão e da felicidade que encontrou na família e na profissão. A cantora garante que continua a sonhar e acredita que o próximo grande êxito ainda pode estar por chegar. Está a celebrar 40 anos de carreira e 50 anos de vida. Qual destas datas tem hoje um significado mais forte?É muito difícil separá-las, porque ambas representam uma vida cheia de emoções. Os 40 anos de carreira fazem-me recordar tudo aquilo que vivi através da música: os concertos, os discos, o Festival da Canção, a Eurovisão, o teatro musical, as pessoas que fui conhecendo e os palcos onde tive a felicidade de cantar. Mas os 50 anos de vida também trazem um enorme peso emocional. Houve momentos muito felizes, outros mais difíceis, como acontece com toda a gente, mas sinto que tudo contribuiu para aquilo que sou hoje. No fundo, as duas datas têm exatamente o mesmo valor para mim.Quando olha para a adolescente que começou a cantar, que imagem encontra?Vejo exatamente a mesma paixão. Continuo a entusiasmar-me quando descubro uma canção nova, quando surge um projeto diferente ou quando encontro pessoas com quem quero trabalhar. Essa curiosidade continua intacta e acho que é uma característica que nunca perdi. Talvez tenha perdido alguma da despreocupação que tinha aos 16 anos. Na altura subia ao palco com uma enorme naturalidade. Pensava apenas em cantar e em divertir-me. Hoje existe muito mais responsabilidade. Quero que tudo corra bem, preparo-me muito mais e isso faz com que também existam mais nervos.A experiência trouxe mais confiança ou mais responsabilidade?As duas coisas. Tenho muito mais experiência e isso dá-me segurança, mas ao mesmo tempo sinto uma responsabilidade muito maior. Hoje sei exatamente o trabalho que existe por detrás de um espetáculo, de um disco ou de uma personagem em teatro. Quando somos muito novos vivemos tudo com uma leveza extraordinária. Agora continuo apaixonada pelo que faço, mas tenho uma consciência muito maior daquilo que cada projeto representa. Costuma dizer-se que os artistas vivem várias vidas. Quantas já viveu?Acho que vivi muitas. Não apenas por causa da música, mas sobretudo pelo teatro musical. Interpretar personagens obriga-nos a sair de nós próprios, a descobrir emoções que às vezes nem sabíamos que existiam e a trabalhar aspetos da personalidade completamente diferentes. Poder interpretar personagens como Elisa Doolittle, Severa ou Alice, de A Canção de Lisboa, foi um privilégio enorme. Cada papel obrigou-me a descobrir uma nova mulher dentro de mim. É um processo muito intenso, mas também muito enriquecedor.Durante muitos anos foi vista como "a menina da Eurovisão" e, mais tarde, como uma das figuras do universo de Filipe La Féria. Essas etiquetas limitaram a forma como o público a via?Nunca senti isso. Acho que o público sempre conheceu a minha verdadeira essência. Sempre procurei ser exatamente a mesma pessoa dentro e fora do palco. As pessoas identificam-me como alguém próximo, simples, afetuoso, e isso corresponde realmente àquilo que sou. É verdade que durante muito tempo fui vista como "a menina". Mas essa menina continua cá. A diferença é que hoje é uma mulher. Gosto que as pessoas também reconheçam essa maturidade quando me veem atuar..Chega agora um novo álbum, gravado para assinalar os 40 anos de carreira. É um disco de celebração ou um novo ponto de partida?É claramente as duas coisas. Quis muito assinalar esta data com um projeto novo e não apenas recordar o passado. Este disco celebra tudo aquilo que vivi até aqui, mas olha claramente para o futuro. É um álbum gravado com orquestra, em Praga, com compositores e intérpretes de várias gerações e com uma direção artística extraordinária do Tiago Machado. É um disco muito elegante, muito cuidado e que representa aquilo que sou nesta fase da vida. Ao mesmo tempo, é uma forma de dizer que ainda tenho muita vontade de continuar. Não olho para estes 40 anos como um ponto de chegada. Vejo-os como um novo começo.Sente que encontrou uma nova voz durante este processo?Acho que encontrei sobretudo uma nova identidade. À medida que fui gravando, percebi que este é talvez o álbum mais pessoal que fiz. Muitas das letras parecem escritas na primeira pessoa e refletem aquilo que sinto nesta fase da vida. Há canções muito luminosas, outras mais profundas, outras ainda bastante teatrais. É um disco com muitas cores e diferentes estados de espírito, mas acho que existe uma enorme coerência entre todas elas.Além da orquestra gravada em Praga, reuniu compositores de várias gerações. Era importante criar essa diversidade?Muito. Era precisamente isso que queria. Conseguimos reunir pessoas com sensibilidades muito diferentes e isso enriqueceu bastante o álbum. Depois houve o trabalho do Tiago Machado, que fez toda a direção artística, os arranjos e a produção musical, conseguindo dar unidade a esse conjunto de canções. Sinto que é um disco muito consistente e muito elegante."A Cidade" é a única regravação do álbum. Porque decidiu voltar a uma canção tão marcante?Porque continua a ser a música que as pessoas mais associam ao meu percurso. Tenho muito orgulho nela e achei que fazia sentido revisitá-la tantos anos depois. Não quis alterar-lhe a essência. A canção continua a ser a mesma. O que mudou foi a sonoridade, os arranjos e, naturalmente, a forma como hoje a interpreto. Acredito que o público vai reconhecer imediatamente "A Cidade", mas ao mesmo tempo vai descobrir uma leitura completamente diferente da canção.Disse que este é um álbum muito identitário. Encontrou algo de novo em si durante o processo de gravação?Acho que sim. Este disco obrigou-me a olhar muito para dentro. Há canções em que falo quase na primeira pessoa e isso torna tudo mais exigente. Quando uma letra nos toca verdadeiramente, não basta afinarmos a voz ou interpretarmos bem a melodia. É preciso acreditar em cada palavra e contar uma história. Sinto que neste álbum consegui fazê-lo de uma forma muito genuína. Há temas mais luminosos, outros que falam da sombra, da perda, da fragilidade, mas também da esperança. Acho que o resultado é um álbum muito equilibrado e que traduz bem a mulher que sou hoje.Há uma canção sobre o seu pai. Foi a mais difícil de gravar?Foi seguramente uma das mais difíceis. É uma canção escrita pelo FF e fala da perda do meu pai. Não consigo interpretá-la sem mostrar uma parte muito íntima de mim. É uma música que revela a minha fragilidade e hoje já não tenho receio de mostrar essa vulnerabilidade. Durante muitos anos achava que os artistas tinham de esconder algumas emoções. Hoje penso exatamente o contrário. A fragilidade também faz parte da nossa força e aproxima-nos das pessoas..Se tivesse de escolher uma ou duas canções que melhor a representam neste momento, quais seriam?Escolheria "Gosto da Noite", do Tozé Brito e da Ana Zanatti, porque tem um poema muito intenso e uma enorme dimensão interpretativa. É uma canção que me desafia muito enquanto cantora e enquanto atriz. Depois escolheria "Murro na Mesa". Não porque tenha passado a vida a sentir que precisava de afirmar-me, mas porque hoje sou uma mulher que sabe dizer "não" quando é preciso. Com a idade aprendemos que também faz parte da maturidade estabelecer limites.Esse "murro na mesa" surge porque, em algum momento da carreira, sentiu que não lhe deram o reconhecimento que merecia?Não. Nunca senti isso, sinceramente. É evidente que qualquer artista sonha voltar a ter um grande sucesso e eu também gostaria muito que este álbum tivesse uma canção que chegasse a toda a gente. Sempre senti um enorme carinho por parte do público. Felizmente, nunca me faltou trabalho nem desafios interessantes.Acredita que o próximo grande sucesso ainda pode estar para chegar?Claro que sim. Acho que qualquer artista deve acreditar nisso. Caso contrário, deixa de fazer sentido continuar a criar. Gostava muito que este álbum trouxesse uma canção que marcasse novamente uma geração. Seria maravilhoso, mas não vivo obcecada com isso. O importante é continuar a fazer música em que acredito.O teatro tornou-a uma cantora diferente?O teatro ensinou-me a contar histórias através das canções. Hoje preocupo-me muito mais com aquilo que estou a transmitir do que apenas com a execução vocal. Quando canto, gosto de sentir que estou a viver cada palavra. Essa aprendizagem devo-a muito ao teatro musical.A indústria da música mudou profundamente. Hoje os artistas vivem muito das redes sociais. Como olha para essa realidade?Percebo perfeitamente a importância das plataformas digitais e sei que são fundamentais para divulgar o trabalho. Mas reconheço que não me surgem naturalmente. Tenho alguma dificuldade em expor-me dessa forma e em estar constantemente a produzir conteúdos. Sei que deveria fazê-lo mais vezes e, muitas vezes, preciso que alguém me incentive nesse sentido. É uma realidade completamente diferente daquela em que comecei a carreira.. Se estivesse hoje a começar, acredita que conseguiria construir um percurso de 40 anos?Acho que seria muito mais difícil. Hoje é muito mais fácil gravar música e divulgá-la. Qualquer pessoa pode montar um pequeno estúdio em casa e lançar canções para o mundo inteiro.Mas, precisamente por isso, existe muito mais concorrência. Há milhares de artistas talentosos e destacar-se tornou-se muito mais complicado.Continua a acompanhar o Festival Eurovisão da Canção?Continuo. Nem sempre consigo ver todas as edições, mas acompanho sempre o que vai acontecendo. Curiosamente, agora é o meu filho quem mais me incentiva. Gosta muito do festival e muitas vezes é ele quem diz: "Vamos ver a Eurovisão." É engraçado perceber que uma competição que marcou tanto a minha juventude continua agora presente através dele.Se voltasse a ser convidada para representar Portugal na Eurovisão, aceitaria?Nunca digo "nunca", mas não é um objetivo que tenha neste momento. Vivi esse sonho muito cedo. Ganhei o Festival da Canção aos 16 anos, representei Portugal na Eurovisão e foi uma experiência que marcou para sempre a minha vida. Mais tarde voltei ao Festival da Canção por convite do Fernando Tordo. Inicialmente até hesitei, porque dizia sempre que não queria regressar. Sentia que aquele sonho já estava realizado. Acabei por aceitar o desafio e foi uma experiência muito bonita, da qual guardo excelentes memórias. Mas hoje sinto que esse capítulo está encerrado.Ao longo desta conversa falou do passado, do presente e do futuro sempre com um sorriso. Sente-se uma mulher feliz?Sinto-me uma mulher profundamente grata. Em primeiro lugar, porque tenho uma família extraordinária. O meu filho é, sem dúvida, a melhor coisa que fiz na vida. Dá-me uma alegria imensa todos os dias. Tenho também um marido, o Vítor, maravilhoso, uma mãe incrível e irmãos muito presentes. Sinto-me rodeada de pessoas que me dão amor e equilíbrio. Depois olho para o meu percurso e vejo tantos momentos dos quais me orgulho. Houve trabalhos muito marcantes, personagens inesquecíveis e pessoas extraordinárias que cruzaram o meu caminho. Quando olho para trás, penso muitas vezes: "Que bom que vivi tudo isto."A celebração dos 40 anos de carreira não termina no concerto de apresentação. O que espera deste novo ciclo?Espero que seja uma verdadeira festa. O concerto é apenas o início. A ideia é levar este álbum ao maior número possível de salas e partilhá-lo com o público durante muito tempo. Quero celebrar estes 40 anos não apenas numa noite, mas ao longo dos próximos meses. É esse o nosso objetivo e, felizmente, sentimos que existe uma enorme expectativa em torno deste projeto.Depois desta celebração, o que ainda falta construir?Nunca fui uma pessoa de fazer planos muito rígidos. Gosto de viver o presente e de aproveitar aquilo que a vida me oferece. Claro que tenho sonhos e objetivos, mas também aprendi a confiar muito no caminho. Neste momento quero viver intensamente esta fase, desfrutar dos concertos e cantar estas novas canções. O resto virá no seu tempo. Se daqui a muitos anos alguém escrever uma frase sobre Anabela, o que gostaria que dissesse?Gostava que escrevessem que fui uma grande cantora... (Pausa.) Mas, acima de tudo, gotava que dissessem que fui uma boa pessoa..Para finalizar, perguntas para respostas curtas: qual a canção que melhor resume a sua vida?É difícil escolher apenas uma. Diria "Somewhere Over the Rainbow", mas também "A Cidade", porque faz parte da minha história.A canção que mais gostou de cantar?"São Luís", no Festival da Canção. Foi um momento muito marcante.O musical que nunca esquecerá?My Fair Lady.O artista que mais admira?Amália Rodrigues.A palavra que melhor define os seus 50 anos?Autenticidade.O maior medo?Que aconteça alguma coisa ao meu filho.A maior conquista da sua vida?Sem dúvida, o meu filho.Ainda acredita nos sonhos?Sempre. Acho que deixamos de crescer quando deixamos de acreditar neles.O que espera sentir quando terminar o concerto que assinala os 40 anos de carreira?Acho que vai ser uma noite muito intensa.Quero poder abraçar a minha família, o meu marido, o meu filho, a minha mãe, os meus amigos, as pessoas que estiveram ao meu lado durante este percurso, e sentir que tudo valeu a pena.Acredito que será um daqueles momentos que nunca mais se esquecem. Vai haver muita emoção, muita gratidão e, acima de tudo, uma enorme vontade de continuar. E depois ir festejar no Jamaica!