"Visão de D. João VI como medroso que abandonou o povo português foi propaganda de Napoleão"

Em 1821-O Regresso do Rei, Armando Seixas Ferreira conta a viagem e a chegada de D. João VI a Lisboa, 13 anos depois de ter partido com a Corte para o Brasil, onde fez do Rio de Janeiro a capital do Império, evitando assim a captura pelos invasores franceses, como acontecera ao seu cunhado, Fernando VII de Espanha. Jornalista a fazer uma incursão pela história, o autor enquadra bem toda a época, sobretudo o impacto dos anos brasileiros do rei.

Leonídio Paulo Ferreira

D. João VI foi o primeiro monarca na história a cruzar o Atlântico e nos dois sentidos. Só por isso merecia um lugar na história?
D. João VI merece ficar na história por vários motivos. Quando em 1807 decide embarcar a corte para o Brasil para salvar a independência do império, o filho de D. Maria I arriscava tudo naquela viagem. Nunca um soberano europeu tinha mudado de hemisfério, transportando cerca de 15 mil pessoas. É preciso ter um sangue frio enorme para tomar aquela decisão. Foi ao outro lado do Atlântico, salvaguardando a coroa. Essa resolução fez ruir os planos de Napoleão na península ibérica. No Brasil, D. João declarou guerra à França, organizou uma defesa com a Inglaterra e impôs sérias derrotas ao inimigo. A começar pela conquista da Guiana Francesa e vencendo os franceses por três vezes em Portugal, sob comando do duque de Wellington. Na apresentação do meu livro no Palácio Nacional da Ajuda, o vice-almirante Gouveia e Melo afirmou que D. João VI era um rei astucioso e inteligente que percebeu uma coisa que, só muito mais tarde, os estrategas vieram a escrever, a chamada "profundidade do território". Gouveia e Melo explicou que o rei usou o oceano e o Brasil para defender a nação, usando toda essa profundidade e recuando para um ponto em que depois podia recuperar outra vez a independência, fazendo com isso, pela primeira vez, o estabelecimento de um reino europeu no Brasil. Quando chega a Lisboa em 1821, D. João VI regressa como o rei que libertou os seus vassalos e venceu Napoleão. Acho que por isto merece um lugar na história.

Quando D. João VI parte em 1821 do Rio de Janeiro para Lisboa, Napoleão está a dias de morrer em Santa Helena. O rei português foi mesmo, como terá dito o antigo imperador francês, o único que o enganou?
Este livro é uma investigação baseada na pesquisa de fontes coevas, como os diários de bordo dos navios que realizaram a viagem de D. João VI para Portugal. Também usei cartas, manuscritos e jornais. Consultei uma extensa bibliografia e procurei sempre privilegiar os testemunhos dos principais intervenientes da época. Quando está em cativeiro na ilha britânica de Santa Helena, Napoleão assume que as coisas correram mal na península. "Foi ali que me perdi", disse Bonaparte, referindo-se às derrotas militares contra os exércitos anglo-portugueses. Em 1807, os jornais franceses ficaram escandalizados com a partida da corte para o Brasil, admitindo publicamente que tinham sido burlados pelo príncipe D. João. É preciso lembrar que um mês antes da partida, a França e a Espanha assinaram o tratado secreto de Fontainebleau que previa a divisão de Portugal e suas colónias pelos dois países agressores. Acho que D. João teve razões suficientes para transferir a corte para o Brasil.

Depois de 13 anos no Brasil, D. João VI sofreu com o regresso a Lisboa? No Rio foi feliz?
O rei adiou sempre a partida para Portugal porque sabia que isso podia significar a separação dos dois reinos. Naquela altura, a sede do governo era o Rio de Janeiro. A partir de dezembro de 1815, Portugal passou a chamar-se Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. D. João percebeu que era mais fácil manter a unidade do império se governasse a partir do Rio de Janeiro, onde terá passado os anos mais felizes da sua vida. Vivia no palácio da Quinta da Boa Vista, separado da mulher. Depois de Napoleão, D. Carlota Joaquina terá sido a sua maior inimiga. No Rio, D. João fundou o jardim botânico. Fazia passeios de carruagem à cidade e passava temporadas na ilha do Governador, onde gozava dos belos ares de uma formosa quinta, como relata o bibliotecário Marrocos nas suas cartas para Lisboa. Lia muito. Apreciava música religiosa e as Belas Artes, tendo patrocinado vários artistas. D. João foi popular no seu tempo. A etiqueta da corte portuguesa era muito rigorosa. As cerimónias do beija-mão real duravam praticamente todo o dia. Apesar de ser tímido, testemunhas garantem que era muito paciente e ouvia as súplicas de todos. Falava a linguagem do povo e nunca se aborrecia. Parecia talhado para reinar. Era bondoso e sentimental. Sofreu muito com a morte da mãe demente, D. Maria I, em 1816. No ano seguinte, recebe no Rio de Janeiro a noiva do filho D. Pedro. A arquiduquesa D. Leopoldina de Áustria que viajou de Itália para o Brasil a bordo da nau D. João VI. Em 1821, seria esse o navio almirante da esquadra que transportou a corte para Portugal. Existe um conjunto de aguarelas pouco conhecido entre nós que ilustram a vida a bordo desse navio de 74 canhões. Inspirei-me no ambiente desses desenhos e nos diários náuticos que descobri no Arquivo Histórico da Marinha para contar a história da travessia de 68 dias entre o porto do Rio de Janeiro e a cidade de Lisboa, uma expedição que se realizou há precisamente dois séculos, em vésperas da independência do Brasil. O que aconteceu durante essa travessia? Na época os mares estavam infestados de corsários. Qual era o estado de espírito do rei? Como era a vida dos marinheiros num navio de linha do século XIX? Apercebi-me que esse trabalho estava por fazer. Conhecemos bem a ida da corte para o Brasil, mas faltava contar a história do regresso da corte a Portugal.

Em 1821-O Regresso do Rei, Armando Seixas Ferreira conta a viagem e a chegada de D. João VI a Lisboa, 13 anos depois de ter partido com a Corte para o Brasil.

Como se enquadra o regresso do rei a Portugal no contexto da Revolução Liberal de 1820?
Os portugueses estavam cansados da regência e do domínio inglês. O marechal Beresford ficou impopular desde o enforcamento de Gomes Freire de Andrade e de outros cabecilhas na conspiração de 1817. Portugal empobrecia e os valores liberais falaram mais alto. Aproveitando uma ida ao Brasil para reforçar os seus poderes, o britânico foi impedido de desembarcar em Lisboa. As cortes exigiam o regresso do rei. Mas D. João decidiu enviar o príncipe D. Pedro, conservando-se ele no Rio de Janeiro. Um pronunciamento militar na capital carioca alterou os acontecimentos, sobressaindo pela primeira vez a figura do príncipe D. Pedro que consegue travar o golpe militar. D. João VI muda de ideias e decide regressar a Portugal, deixando o filho como regente no Brasil. O rei entendeu os ventos de mudança que chegavam da Europa. Despiu a velha casaca do Absolutismo e não se importou de abraçar os ideais liberais, tornando-se no primeiro rei Constitucional. Tudo para o bem da Nação. E continuou a reinar. É isso que impressiona em D. João VI. A capacidade de se adaptar às circunstâncias. Agia com a máxima prudência, sobrevivendo a todos os golpes e ameaças. Ao contrário do avô D. José que delegou o poder ao marquês de Pombal, D. João VI reservava a decisão final só para si. A revolução liberal teve um preço, precipitou a separação do Brasil.

A independência do Brasil sob os Bragança e mantendo a unidade territorial foi fruto do tempo de D. João VI no Rio?
Acredito que sim. Este livro também aborda os bastidores da independência do Brasil. Historiadores como Oliveira Lima são unânimes. A permanência da corte no Rio de Janeiro foi benéfica para os brasileiros. Em 13 anos, D. João lançou importantes reformas. Abriu os portos brasileiros às nações amigas, criou escolas, tribunais e até um banco. Desenvolveu a imprensa e lançou as bases de um Estado moderno. A população disparou. Ao estabelecer-se no Rio, D. João VI consolidou a língua portuguesa naquele hemisfério e a unidade do Brasil. Enquanto isso, a América espanhola fragmentava-se em várias repúblicas. Antes de D. Pedro desobedecer às cortes portuguesas que pediam o seu regresso a Portugal, D. João antevia a separação entre os dois países quando disse que preferia que a coroa permanecesse na cabeça do filho, em vez de ser entregue a algum aventureiro. Entretanto, D. Pedro declara a independência do Brasil em 1822. Mais tarde, ao designar o filho como sucessor, D. João VI mantinha a secreta esperança de restaurar o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves na pessoa do seu primogénito.

Em 1825, Portugal reconhece o Brasil. D. João VI e D. Pedro I do Brasil (depois IV de Portugal) salvaram assim a relação entre pai e filho e também entre a antiga metrópole e colónia?
De certa forma sim. O Brasil tinha declarado a independência há três anos, mas carecia de ser reconhecido pelas outras nações, nomeadamente as europeias. Isso estava a prejudicar as trocas comerciais. D. Pedro precisava que Portugal reconhecesse a independência do Brasil, o que acabou por acontecer. Mas teve que aceitar as condições de D. João VI, respeitando o último desejo do pai de ser imperador do Brasil, ficando D. Pedro como herdeiro das duas coroas, a portuguesa e a brasileira.

Aquela ideia do rei indeciso que comia franguinhos a toda a hora é muito injusta para D. João VI?
É uma injustiça resumir D. João VI a uma figura caricata. Existe uma espécie de negacionismo em relação a este monarca que é preciso rebater em nome da verdade. Essa visão do rei fraco e medroso que fugiu e abandonou o seu povo foi propagandeada pelos jornais de Napoleão para justificar o fracasso da captura da família real por parte do exército de Junot. É uma visão deturpada do seu reinado que chegou até nós, talvez também devido à fisionomia invulgar do rei, de lábio inferior saliente e mais obeso nos últimos anos de vida. Quando vamos aos factos encontramos um político astuto e com caráter que fica para a história como o rei "Clemente", porque não gostava de assinar penas capitais. Perdoa a todos, incluindo a mulher e os filhos que conspiraram contra ele. Até Raul Brandão, que lhe aponta vários defeitos, reconhece o lado humano de D. João VI afirmando que "é também o melhor homem da sua época". Era um rei do povo. A prova está na forma calorosa como foi recebido pelos portugueses, quando a esquadra de 12 navios chegou do Brasil a 3 de julho de 1821. Até parecia que D. Sebastião tinha desembarcado no cais das colunas em frente ao Terreiro do Paço.

leonidio.ferreira@dn.pt