Eunice Muñoz agradece ao público no adeus aos palcos

A atriz agradeceu ao público que a "acarinhou e aplaudiu" ao longo dos seus 80 anos de carreira, e deixou uma palavra de coragem aos colegas de profissão. Primeiro-ministro pediu para Eunice Muñoz não perder o sorriso, "um dos mais bonitos que há no mundo".

DN/Lusa
Eunice Muñoz fez a sua última representação no Teatro D. Maria II no exato dia em que se estreou há 80 anos. | foto André Luís Alves / Global Imagens
Eunice Muñoz com a neta Lídia, com quem contracenou em A Margem do Tempo. | foto André Luís Alves / Global Imagens
O primeiro-ministro António Costa participou na homenagem realizada no final da sessão. | foto André Luís Alves / Global Imagens

Eunice Muñoz, de 93 anos, voltou hoje ao Teatro Nacional D.Maria II, em Lisboa, no dia em que assinala 80 anos desde que se estreou neste palco.

Oito décadas depois da estreia profissional com "Vendaval", Eunice Muñoz subiu hoje ao palco com a neta, Lídia Muñoz, para representar "A margem do tempo", a peça com que se despede da carreira.

A 29 de novembro de 1941, aos 13 anos, Eunice Muñoz estreou-se profissionalmente no Teatro Nacional D. Maria II, na peça "Vendaval", de Vírginia Vitorino, no papel de Isabel, numa encenação de Amélia Rey Colaço.

No final da sessão, a que assistiram o primeiro-ministro, António Costa, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, e a ministra da Cultura, Graça Fonseca, foi prestada uma homenagem à atriz.

Nessa altura, Eunice Muñoz fez um pequeno discurso para assinalar que voltou a subir ao palco do D. Maria 80 anos depois e ao lado da sua neta.

"Este teatro foi a minha casa durante muitos anos, fui feliz no palco, em tudo o que cá fiz", afirmou.

A atriz fez questão de referir a sua avó Augusta, de quem acha "ter recebido o talento", os seus pais, que a "encaminharam no caminho do teatro, gente que levava o sonho a cada sítio por onde passava" e ainda a sua mestre, Amélia Rey Colaço.

E deixou também uma palavra à neta, apontando que lhe passa o testemunho "com a certeza de que continuará com a mesma exigência e talento".

"Agradeço sobretudo a vocês, ao público, que me acarinhou, que me aplaudiu desde que comecei até agora que comemoro os meus 80 anos de carreira", salientou igualmente.

A todos os colegas deixou um "agradecimento e uma palavra de coragem, para que continuem".

"Porque o teatro precisa de nós, de nós no palco e de vocês que recebem o melhor que temos para dar", acrescentou Eunice Muñoz.

E defendeu que o teatro mostra que, "apesar dos dias estranhos e difíceis, o belo continua a existir".

"Hino à vida"

O diretor artístico do Teatro D. Maria II, Pedro Penim, agradeceu o regresso de Eunice Muñoz a este palco, a "sua casa", e apontou que a sua presença "é um hino maravilhoso, é um hino ao teatro, é um hino à vida".

"Porque a Eunice é isso, a Eunice é um hino ao teatro e é um hino à vida", realçou.

O primeiro-ministro também subiu ao palco e disse ser para si e para todos os presentes "um enorme privilégio" poder "testemunhar 80 anos da sua carreira".

"Em nome de todos os que aqui estamos, de todos os que a viram e consigo sorriram, choraram, pensaram, amaram ao longo destes 80 anos, muito, muito obrigado por tudo o que fez pelo teatro, por tudo o que fez pelo seu público", disse.

Num curto discurso, fez também um pedido a Eunice Muñoz: "Por favor nunca perca esse sorriso, porque esse é um dos sorrisos mais bonitos que há no mundo".

Antes, em declarações aos jornalistas à chegada ao teatro, o chefe de Governo classificou como "um momento único poder homenagear alguém que ao longo de 80 anos esteve sempre presente nos palcos", assinalando que "no palco onde se estreou aos 13 anos, aqui se despede aos 93 anos".

"É uma pessoa por quem todos os portugueses têm um enorme carinho, os que a puderam ver em palco, os que a puderam ver através da televisão, os que a puderam ver através do cinema, e é muito bonito que aos 93 anos ainda aqui esteja, mais uma vez no palco, para dizer adeus ao seu público", salientou António Costa.

Também a ministra da Cultura Graça Fonseca subiu ao palco para a homenagem, deixando um agradecimento à "querida Eunice Muñoz", e declamou o poema "Green God", de Eugénio de Andrade, de que "a Eunice gosta muito e recitava muito".

Enquanto decorria a homenagem, foram projetadas numa tela em cima do palco 80 fotografias da atriz ao longo da sua carreira.

Estreada em abril último, em Oeiras, no auditório municipal com o nome da atriz, e depois de uma digressão por várias cidades portuguesas, a peça "A margem do tempo" voltou ao palco onde se estreou, para nove representações, de 3 a 26 de setembro passado.

Com texto do autor alemão Franz Xaver Kroetz (1946), a peça revela-se "uma longa didascália", "sem monólogo e sem diálogo", no qual a senhora Rasch, personagem partilhada pelas duas atrizes, convida os espectadores a assistirem a um final de tarde num dos seus dias repetidos, igual a todos os anteriores.

Com música original de Nuno Feist e encenação de Sérgio Moura Afonso, "A margem do tempo" põe diante do público a humanidade de uma mulher mais velha, Eunice Muñoz, que vai relembrando a monotonia dos dias repetidos, que se materializam numa mais nova senhora Rasch, Lídia Muñoz, que vai caminhando em direção ao seu "eu mais soturno e nostálgico".

Numa leitura mais superficial, a peça pode parecer centrar-se em coisas banais, mas, com o decorrer da ação, acaba por se perceber que nada há de trivial no que é posto em palco e que marca o quotidiano de tantas mulheres operárias.

A peça assinalou o regresso da decana das atrizes portuguesas ao teatro após um afastamento dos palcos desde 2012.