Almodóvar quer uma Palma de Ouro com 'Dolor y Gloria'

Nunca ganhou uma Palma de Ouro, mas poderá ser desta: o espanhol Pedro Almodóvar está em Cannes com Dolor y Gloria, um dos seus filmes mais pessoais dominado por uma notável interpretação de Antonio Banderas.

Pedro Almodóvar volta a estar na competição do Festival de Cannes com Dolor y Gloria. E as especulações mais imediatas, porventura mais fúteis, têm proliferado: sendo ele um "eterno" candidato à Palma de Ouro... será desta?

Convém lembrar que o cineasta espanhol é uma presença regular na Côte d"Azur, sendo esta a sua sexta presença na secção competitiva. Já foi distinguido duas vezes pelo júri oficial: em 1999, com Tudo Sobre a Minha Mãe (melhor realização), e em 2006, com Voltar (melhor argumento). Seja como for, lembremos o mais rudimentar: mesmo que Dolor y Gloria saia de Cannes sem qualquer prémio, estamos perante um dos trabalhos mais depurados, e também mais intimistas, de Almodóvar (a meu ver, o melhor de toda a sua filmografia).

As singularidades de Dolor y Gloria passam, antes de tudo o mais, pelas convulsões da personagem central: chama-se Salvador Mallo, é realizador de cinema e vive há muitos anos distanciado da sua profissão, num processo de decomposição emocional pontuado de forma dramática pela morte da mãe e uma crescente dependência de drogas.

Daí a considerarmos Dolor y Gloria um objeto autobiográfico vai um passo que, em boa verdade, não se justifica. Ao longo dos anos, através de declarações do próprio Almodóvar, fomos conhecendo alguns elementos da sua história privada que, de uma maneira ou de outra, ecoam neste novo filme. Mas seria precipitado, para não dizer grosseiro, encarar Dolor y Gloria como uma derivação das obscenidades "confessionais" da chamada imprensa cor de rosa. O que mais conta é a exposição radical, temperada pelo máximo pudor, da solidão de um homem que se vai perdendo num labirinto de memórias e fantasmas.

Escusado será dizer que o facto de Salvador Mallo ser um homem de cinema é tudo menos indiferente para o desenvolvimento do filme (e, em particular, na instalação do "segredo" que sustenta a sua construção narrativa). Estamos, afinal, perante as lágrimas e sorrisos de alguém que vive o cinema, não como uma mera "tarefa" profissional, antes como um exercício subtil, ora eufórico, ora doloroso, entre a intimidade e a vida pública. Daí o destaque muito especial para a notável composição de Antonio Banderas na personagem central - não será exagero considerar que, pelo menos até agora, ele é o mais sério candidato ao prémio de melhor ator.

Vale a pena, a propósito, referir o brilhantíssimo trabalho das atrizes Noémie Merlant e Adèle Haenel em Portrait de la Jeune Fille en Feu, também na secção competitiva. Com argumento e realização de Céline Sciamma, a cineasta do excelente Tomboy/Maria-Rapaz (2011), nele encontramos um insólito dueto feminino em ambientes do século XVIII: de um lado está uma jovem prometida em casamento a um noivo que não conhece; do outro, uma pintora encarregada de a retratar de modo a que imagem produzida sirva de apresentação a esse noivo. "Comédia de costumes"? Nada disso: antes uma intensa história de amor que Sciamma encena com um misto de intensidade e contenção que merece a classificação de erótico. Ou como o erotismo, sendo um processo de amostragem, é também uma arte de calculadas ocultações.

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