Para Maria Filomena Mónica não se pode falar de ensino superior sem se acrescentar a palavra «elite» ou é certo que se chumba no exame. É com esse alerta que fecha o seu mais recente trabalho, A Universidade, um conjunto de quatro textos e um epílogo, em que revela a sua “angústia” perante o dia a dia das escolas superiores portuguesas. Afirma que a sua experiência na Universidade de Oxford, onde se doutorou, lhe mostrou que a massificação do ensino veio agravar muitas situações quando se comparam instituições inglesas e portuguesas, daí que defenda esse elitismo nos que frequentam o ensino superior. Esclareça-se que a autora não pretende dificultar o acesso aos jovens que provém de famílias menos favorecidas e sugere que estes devem contar com um esquema de bolsas de estudo montado pelo Estado, designadamente nas faculdades ligadas às Ciências Sociais, as quais permitem obediências indesejadas por parte das quem as gere e organiza currículos.É sobre esse espaço do ensino superior, o das Ciências Sociais, que Filomena Mónica muito se debruça neste volume. Logo na primeira página do capítulo A Invasão dos Bárbaros aponta o dedo a uma “ideologia presumidamente de esquerda” que tem como intenção “pôr fim às desigualdades sociais no acesso ao ensino superior”. Considera que esta intenção se tem vindo a intrometer nos currículos e assim vai fazendo com que desapareça a noção de elite. Não lhe faltam estatísticas para exemplificar o que diz: em 2024 existiam 448 235 estudantes a frequentar o ensino superior, um número em muito diferente daquele que se verificava em 1974. Além do fim das elites como população universitária, Filomena Mónica critica também o rumo do aprendizado: “Uma boa Universidade destina-se sobretudo a ensinar a pensar” e não a “formar indivíduos robóticos que os políticos julgam necessários ao funcionamento da economia”. Os responsáveis desses estabelecimentos, a seguir ao ministério da tutela, não fogem às acusações da autora: “Por preguiça, abdicam da possibilidade de ter uma palavra a dizer sobre os alunos que nelas ingressam, sendo as Universidades cúmplices deste crime. Os magníficos reitores resignam-se a entregar a seleção dos alunos aos professores do Ensino Secundário e aos burocratas do Ministério”.Maria Filomena Mónica confessa estar consciente das dificuldades de reformar as universidades com a Revolução de Abril de 1974: “Sem um passado em que ancorar os cursos, defrontado com uma classe média que exigia que os filhos tivessem acesso ao ensino superior, não dispondo de um corpo docente qualificado, o regime democrático viu-se perante um problema difícil”. Qual foi a solução? Responde: “A injeção de dinheiro no sistema”. Acrescenta: “Talvez fosse aceitável se as instituições funcionassem, mas não era esse o caso”. Daí que, considere, que tem assistido no domínio das Ciências Sociais – não refere as Ciências Exatas por terem outro passado e outros critérios de avaliação – a uma “agonia da instituição universitária como um fórum onde todas as ideias podiam ser debatidas devido aos valores liberais estarem em vias de ser ultrapassados pelo iliberalismo progressista”. Ou seja, refere em seguida: “Os corredores foram-se estreitando, deixando passar apenas o que os gurus esquerdistas consideravam aceitável”. Filomena Mónica aponta novamente o dedo aos responsáveis destas instituições: “A expansão súbita das Universidades fez com que tudo se mecanizasse e que os administradores da instituição passassem a dar mais importância aos rankings do que à maneira como os jovens eram ensinados”.A história da universidade domina o segundo capítulo, O Século dos Bacharéis, iniciando-se com a fundação da de Bolonha (1088), e passando pelas portuguesas: a de Lisboa (1288), que foi transferida para Coimbra (1537), observação feita sob o olhar de Eça de Queiroz, estudante desta última, com a ajuda de quem a autora constrói um retrato mordaz da instituição conimbricense e remata com a sentença de que “não deixou saudades” no escritor. Acrescenta também a opinião da condessa de Rio Maior, que tinha os filhos a estudar em Coimbra, e a de Trindade Coelho, entre outros.O século XX universitário português é analisado no terceiro capítulo, Ditadura e Revoluções, onde se retratam outras instituições do ensino superior que surgiram após o fim do monopólio da de Coimbra, onde se referem vários nomes quase contemporâneos e que retratam o (des)caminho mais recente da Universidade portuguesa. O volume termina com As Minhas Recordações, o capítulo onde Maria Filomena Mónica dá testemunho próprio percurso universitário: desde a entrada na Faculdade de Letras de Lisboa (1960), a passagem por Oxford (1970) e tudo o que considerou relevante das experiências pessoais no universo do ensino superior. .A UNIVERSIDADEMaria Filomena MónicaRelógio D’Água131 páginas Outras novidades literárias PRAZERES AMARGOSO índice de Na Cozinha do Kremlin conta com 18 refeições e igual número de histórias que o autor foi desencantar num recanto muito particular da vida de ditadores e de famosos da Rússia, da URSS e da Federação Russa. Qual é o objetivo do livro? Mostrar através da alimentação como é a história do “continente” e dos que mandam ou são importantes. São muitas as histórias que não se podem deixar de ler; como a de O banquete de Ialta, quando Roosevelt e Churchill se juntam a Estaline para repartirem a Europa no quase pós-II Guerra Mundial. As negociações não decorrerão sem as barrigas de setecentos membros das delegações estarem bem cheias e o autor destaca um dos cozinheiros para mostrar o que pode acontecer a quem cai em desgraça.Outra das boas histórias é a das cozinheiras do primeiro homem a ir para o espaço e um dos maiores heróis russos: Iuri Gagarine. Há a mulher que alimentará o cosmonauta durante a sua formação, Feina, e a cozinheira que lhe dará de comer antes de ir para o espaço, Kritinina, que queria que Gagarine levasse cebolas para substituir alguma da comida especial que o alimentaria durante as voltas à Terra. Quando regressou comeu uma maçã a conselho do médico.Não podia faltar entre estas fábulas uma dedicada ao atual líder russo, Putin, ou melhor, ao seu avô cozinheiro. Que exerceu parte da profissão no famoso restaurante Astoria e de quem se diz que confecionou pratos para Lenine, Estaline e Khrushchev. Sobre esse antepassado, o neto Vladimir Putin escreveu uma parte da história que ele terá vivido e, sobre quem, muito pouco parece ser verdade. A somar à prosa repleta de histórias sobre uma profissão que atravessa várias cozinhas e décadas, está no final de cada capítulo uma ou mais receitas a propósito do que foi relatado. No caso de Ialta, descreve-se como cozinhar Peru com Marmelos e Gelatina de Esturjão. .NA COZINHA DO KREMLINWitold SzablowskiZigurate349 páginas