A neozelandesa Lorde antecedeu o concerto de Florence + The Machine no palco principal do NOS Alive, numa última noite apoteótica do festival.
A neozelandesa Lorde antecedeu o concerto de Florence + The Machine no palco principal do NOS Alive, numa última noite apoteótica do festival.Foto: Leonardo Negrão

A "summer girl" Lorde abriu a noite para o "ritual" de Florence. A inquietação do último dia do NOS Alive

A neozelandesa classificou Lisboa como um dos seus lugares favoritos e acusou os portugueses de "saberem fazer o verão". Aos 29 anos, Lorde imprimiu sensualidade num concerto minimalista que começou com 'Favourite Daughter'. E depois o Passeio Marítimo de Algés rendeu-se a Florence + The Machine.
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Quando este sábado, 11 de julho, a (muito mais do que) cantora neozeladesa Lorde partilhou com o público do NOS Alive a Liability, do seu segundo álbum, Melodrama (2017), já a vasta multidão estava rendida à provocação sensual que ela emanava do palco. E tudo isto enquanto dizia estar emocionada por abrir o concerto para Florence + The Machine, que uma hora mais tarde transformaria o Passeio Marítimo de Algés numa evocação de demónios, uivos e lágrimas (no melhor sentido).

Lorde insinuou por gestos que despia a t-shirt preta que a cobria da cintura para cima. Era, aliás, uma das suas imagens de marca. E cumpriu, numa exposição minimalista que a caracteriza.

No público, alguém comentava que a dupla de bailarinos que a acompanhava estava vestida como se "fosse um dia qualquer". E estavam. Não era preciso mais. A intenção estava nos gestos e na voz.

Lorde com uma energia sensual no palco, que não conseguia evitar partilhar.
Lorde com uma energia sensual no palco, que não conseguia evitar partilhar.Foto: Leonardo Negrão

Logo a seguir a Favourite Daughter, do quarto álbum da neozelandesa, Virgin, com uma habitual e expectável aproximação ao público Lorde atirou: "It's one of my favourite places (é um dos meus lugares preferidos)."

Referia-se a Lisboa. E depois afirmou que os portugueses sabiam "fazer o verão".

"Está calor", disse, sem se queixar, antes de assumir ali perante as várias dezenas de milhar de pessoas que a ouviam: "I'm a summer girl (sou uma rapariga do verão)."

Lorde mostrou-se inquieta, arrastando o público consigo numa onde de calor e de paixão pelo verão.
Lorde mostrou-se inquieta, arrastando o público consigo numa onde de calor e de paixão pelo verão.Foto: Leonardo Negrão

Com o público rendido, falou de amor e disse que o que se estava a passar era uma "paixão de verão" (uma "summer crush", classificou). E era, do público para o palco, garantidamente.

Foi nesse momento que ela partilhou The Louvre com o público, antes de avançar com Current Affairs. Enquanto cantava esta história de amor que estava a ser construída no momento, Lorde gritou, numa amostra de felicidade (se era espontânea ou não, é com ela): "Oh my God, I'm in Lisboa (ó meu Deus, estou em Lisboa)!"

No início do concerto, Lorde estava pronta para um dia chuvoso, que era a ameaça natural que se impunha, mas depressa aceitou o calor.
No início do concerto, Lorde estava pronta para um dia chuvoso, que era a ameaça natural que se impunha, mas depressa aceitou o calor.Foto: Leonardo Negrão

Pelo calor, talvez, pelo amor que recebia da audiência, certamente, Lorde disse sentir inveja. "I'm so jelous of you". Invejosa de nós, que a ouvíamos, interpretamos. Depois, disse lamentar pelo que aconteceu a Portugal no Mundial de Futebol. E o público ficou ainda mais rendido, antes de avançar com Liability e com Hammer, quase a chegar ao fim.

O ritual de largar o telemóvel e simplesmente "ouvir a porra da música"

As fotografias de palco estavam proibidas, avisara a produção da banda inglesa Florence + The Machine, que deve o nome e a poderosa voz à cantora Florence Welch. Com fotojornalistas longe daquela ribalta, o palco NOS Alive transformou-se no ritual que Florence queria que fosse. Só mais tarde, nós, o público, percebemos porquê. Prometo que antes do fim do texto explicarei.

Florence, e toda a 'máquina' que estava por trás, não hesitou na entrada (ainda que o concerto tenha começado alguns minutos depois do previsto), inaugurando o momento com Everybody Scream, do álbum homónimo lançado em outubro do ano passado. E toda a gente gritou, enquanto a letra da música ditava as ações: "Everybody dance, everybody sing, everybody move (toda a gente dança, toda a gente canta, toda a gente se mexe)."

Vestida de vermelho, descalça, com umas mangas volumosas que lhe pendiam do vestido mais conspícuo do mundo, Florence Welch fez música sagrada, com fãs a chorar de alegria, rendidos àquele ser que esvoaçava no palco, sempre com gestos de agradecimento pelo que estava a acontecer.

O público no NOS Alive de 2026.
O público no NOS Alive de 2026.Foto: Leonardo Negrão

Na fila da frente, muitas pessoas tinham coroas feitas com flores, típicas da celebração pagã do solstício de verão, conhecida como Midsommar na Suécia, por exemplo. E era o que se celebrava: o verão e a magia da música de Florence + The Machine.

Como se de um exorcismo conduzido algures numa Europa gótica em pleno século XIX, Florence lançou Shake It Out. Depois, enquanto comandava o público como se fosse a maestrina da orquestra mais vasta do mundo (seguramente com mais de 50 mil pessoas), a cantora, com gestos vagos mas intencionais que sugeriam mesmo um controlo sobre o público, continuou o momento sagrado com Which Witch, Spectrum e Rabbit Heart.

Alguém comentava entre as milhares de pessoas que estavam no público: "Parece uma fadinha." E parecia.

Talvez por parecer e querer ser uma criatura imortal, ilógica, sensorial, Florence Welch vai até ao extremo mais à direita do palco, do ponto de vista do público, estende os braços para a multidão e pede uma oferenda, que era a devoção ao momento de cada pessoa. E foi-lhe concedida oferenda.

Depois, avança com Hunger, o que faz com que a multidão fique ainda com mais fome do que Florence tinha para oferecer.

"Estou a chorar demasiado", admite uma rapariga que assistia ao concerto, vestida de preto, a condizer com um ambiente gótico que era necessário para o momento. E nada preparava aqueles milhares de pessoas para o que aí vinha.

"I am no mother, I am no bride, I am king (não sou uma mãe, não sou uma noiva, sou rei)", repetia Florence, com os habituais olhos vazios mas incrivelmente presentes, durante a interpretação de King.

Momentos depois, os ecrãs que transmitiam imagens gigantescas do concerto ficaram distorcidos, de propósito, com um ar espectral, amorfo, distante, sobrenatural. O corpo de bailarinas de Florence – Lea Oroz, Aisling Tara, Jena Anne Nathan e Chihiro Kawasaki – mostrou aquela aura gótica e sombria que poderia ter sido criada por Bram Stoker e permitiu que a cantora se alimentasse do público, sem drenar a energia. Aquela biunivocidade fez disparar os ânimos e toda a gente se confundia com a própria Florence Welch. E era o que ela queria.

Por isso, depois de Buckle, Florence Welch não parou de repetir "never let me go, never let me go (nunca me deixes partir, nunca me deixes partir)", e o publico cumpriu.

Antes do momento final, Florence Welch pediu aos milhares de pessoas que cumprissem com ela um ritual, difícil mas simples, prometeu. Que arrumem os telemóveis e parem de gravar o concerto para "ouvirem a porra da canção" (ela usou a expressão "fu**ing song", por isso peço desculpa pela eufemismo da tradução).

"Sei que é difícil, porque querem filmar esta canção, mas estou aqui para vos dizer que filmá-la vai impedir-vos de a experienciar, e não foi para isso que vieram. Vivam isto com as pessoas com quem vieram, digam-lhes que as amam", ensinou.

Durante Sympathy Magic, Florence Welch foi até à barreira de segurança e tocou nas mãos de toda a gente que estava à frente, como se fosse uma divindade. O contacto prolongou-se e ninguém lhe resistiu, como se o tempo não existisse.

Depois de arrancar do coração das pessoas Dog Days Are Over, Florence Welch deixou uma última mensagem – sob a forma de música, com Free –, que tanto podia ser para si própria como para a multidão: "I am free (eu estou livre)."

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