Distinguido com um prémio especial do júri no Festival de Cannes de 2024, A Semente do Figo Sagrado, do iraniano Mohammad Rasoulof, é um filme cujo caráter excecional começa na história da sua produção, prolongando-se nas atribulações da respetiva difusão. Por sua causa, a vida de Rasoulof mudou radicalmente, tendo fugido do seu país para evitar as sanções das autoridades do Irão. Na prática, o filme surge nos circuitos internacionais como uma produção alemã — há dias, obteve mesmo, em representação da Alemanha, uma nomeação para o Óscar de melhor filme internacional. Tal como Jafar Panahi, Rasoulof é um dos autores do cinema iraniano que tem sido perseguido pelo sistema político do seu país: os seus filmes já lhe valeram vários períodos na prisão e a confiscação do seu passaporte. Em 2020, não teve autorização para acompanhar a exibição de O Mal Não Existe, sobre a pena de morte no Irão, no Festival de Berlim, onde viria a ser consagrado com o prémio máximo do certame (Urso de Ouro). No caso de A Semente do Figo Sagrado, logo após o anúncio da sua passagem em Cannes, Rasoulof foi condenado a oito anos de prisão, tendo conseguido sair do país, para a Alemanha. A gestação do filme é indissociável de alguns acontecimentos dramáticos que estavam a marcar a sociedade iraniana, em particular a morte no dia 16 de setembro de 2022, em condições suspeitas, da jovem Mahsa Amini, presa pela polícia por alegadamente não ter usado o hijab. Aliás, A Semente do Figo Sagrado vai sendo pontuado por imagens, vistas na televisão, dos protestos gerados por essa morte. Não se julgue, porém, que estamos perante a retórica de um convencional filme “militante” que se limite a traçar uma linha segura entre os que protestam contra as arbitrariedades do sistema iraniano, em particular na agressiva “normalização” do comportamento das mulheres, e os que defendem esse sistema. A Semente do Figo Sagrado não é um vulgar panfleto, concebido para acomodar as “boas consciências”, mas um filme que aborda o labirinto da política através da reativação do mais velho modelo narrativo do cinema (iraniano ou não). A saber: o melodrama — entre outros exemplos “paralelos” da produção do Irão, podemos citar Uma Separação, de Asghar Farhadi, distinguido com o Óscar de melhor filme internacional referente a 2011. O melodrama é o género familiar, por excelência: porque se interessa pelas componentes mais comuns do quotidiano e também, como é evidente, porque o faz através da abordagem do espaço familiar. Desconfiança e paranóia O título A Semente do Figo Sagrado, esclarecido logo no início do filme, ecoa o simbolismo de uma planta que parasita outras, impondo-se à planta “ocupada”. Há algo desse género na gestão da vida familiar de Iman (Missagh Zareh), partilhada com a sua mulher Najmeh (Soheila Golestani) e duas filhas, Rezvan (Masha Rostami) e Sana (Setareh Maleki). Recentemente nomeado juiz investigador do Tribunal Revolucionário de Teerão, Iman cedo percebe que, para garantir o seu novo cargo, deverá aprovar automaticamente, sem qualquer tipo de investigação, as muitas sentenças de morte que lhe são “propostas” pelos seus superiores... De tal modo que, num processo de crescente desconfiança e paranóia, Iman vai transformar a mulher e as filhas em alvo de crescentes suspeitas. Há uma lógica de filme policial em tudo isto, desembocando na meia hora final, um perturbante exercício de “suspense” sobre a vulnerabilidade dos laços familiares. Aí reside a mágoa melodramática: Rasoulof encena as feridas e as dores de personagens que oscilam entre a aparente estabilidade do seu universo privado e as convulsões que provêm do exterior. Todas as personagens são servidas por talentosos intérpretes, sendo a mãe aquela que reflete de forma mais descarnada as tensões que Rasoulof coloca em cena: Najmeh descobre que a fidelidade ao marido e a proteção das filhas não pertencem à mesma forma de amor — nada poderia ser mais trágico. .'A Mulher de Tchaikovsky'. Entre real e surreal.'Noites Claras'. À procura de outra Lisboa.'Paradise'. Há problemas no paraíso dos bilionários