As salas de cinema não têm demonstrado grande disponibilidade para os filmes musicais (ou dedicados a performances musicais). É um sintoma de indiferença, ou apenas falta de imaginação, quanto mais não seja porque o gigantismo dos ecrãs IMAX apela ao espetáculo da música — a começar, claro, pelos clássicos (musicais ou não) que poderiam ser relançados. Para contrariar tal vazio, aí está George Michael: The Faith Tour, magnífico registo de um concerto muito especial.São, de facto, imagens de dois concertos. Realizados a 30 e 31 de maio de 1988, no Palais Omnisports de Paris-Bercy, ilustram a digressão de George Michael (1963-2016) ligada ao lançamento do seu primeiro álbum a solo, Faith (1987). O duo Wham!, que formara com Andrew Ridgeley no período 1981-86, tinha sido um genuíno fenómeno global. Para Michael, tratava-se não apenas de vincar a sua identidade criativa, mas também de conquistar uma imagem de palco que não fosse uma mera reprodução das canções dos Wham!, ainda que não recusando a sua herança (reinterpretando, por exemplo, I’m Your Man). Em resumo: uma verdadeira reinvenção artística, agora “duplicada” por este filme feito a partir de materiais que se julgavam perdidos.O espetáculo apresenta-se dominado pelas canções do álbum, incluindo temas emblemáticos como Father Figure ou I Want Your Sex, além, claro, do próprio Faith, indissociável da “imagem de marca” que Michael gerara através do respetivo teledisco, dirigido por Andrew Morahan (óculos Ray-Ban de aviador, blusão com chancela La Rocka!, guitarra Gretsch Synchromatic, das décadas de 1930/40, etc.). Pelo meio, surgem alguns “desvios”, que são outras tantas homenagens, como é o caso de Love's in Need of Love Today, uma balada de Stevie Wonder, ou Lady Marmalade, um sucesso do grupo Labelle.Quase quatro décadas depois, Morahan está na origem do filme, até porque foi ele quem, em Paris, dirigiu a rodagem, utilizando 14 câmaras e película de 35 mm. A assinatura de realização é dupla, já que, para coordenar o restauro e a montagem do material filmado, Morahan convidou David Austin, amigo e manager de Michael. Antes do concerto propriamente dito, George Michael: The Faith Tour abre com uma curta-metragem dirigida pela fotógrafa e documentarista Mary McCartney (filha de Linda e Paul McCartney) em que escutamos frases de Michael sobre a gestação do álbum, acompanhadas por fotografias suas, obtidas por Herb Ritts, além de breves fragmentos do teledisco de Faith.Para lá do impacto de Faith — incluindo a presença regular dos respetivos telediscos na MTV —, Michael apresentava-se numa forma física e artística essencial para a energia do espetáculo, com uma banda muitas vezes relegada para um fundo pouco iluminado. O que, entenda-se, não impede que haja todo um requintado labor coreográfico, da responsabilidade de Paula Abdul (que, duas semanas depois destes concertos, lançaria Forever Your Girl, o seu primeiro álbum). .“I Want Your Sex”Tudo isto acontecia num contexto em que a pandemia da sida ecoava, de forma direta ou simbólica, no território musical (e não só, como é óbvio). Na sua singela mensagem, a canção I Want Your Sex (à letra: “Eu quero o teu sexo”) pode mesmo ser lida como uma confissão ambígua de alguém que tentava assumir a sua homossexualidade, ao mesmo tempo alimentando a ideia de uma equívoca “bissexualidade”.Enfim, tanto o concerto como o filme são alheios a qualquer esquematismo panfletário, mas um mínimo de atenção teria feito com que as letras das canções fossem traduzidas neste lançamento português. Assim, havendo apenas traduções dos momentos de diálogo com o público, o resultado torna-se, por vezes, inadvertidamente caricatural. Em Lady Marmalade, por exemplo, a repetida frase, em francês, Voulez-vous coucher avec moi ce soir? (“Queres dormir comigo esta noite?”) não está traduzida. A certa altura, o cantor pergunta “Do you?”... e aparece a legenda: “Querem?” Querem o quê? Seria simples resolver o imbróglio, até porque importa não menosprezar o que se diz nas letras das canções pop.