Os tempos que correm não são favoráveis para o prazer do cinema. Entenda-se: para a simples (ou complexa) visão dos filmes enquanto objetos específicos, não como gadgets de modas grosseiras ou mensageiros do politicamente correto. A produção dinamarquesa A Rapariga da Agulha, em estreia esta semana nas salas portuguesas, começou a ser assombrada por tais vícios mediáticos quando foi revelada no Festival de Cannes de 2024 - seria um típico filme de terror e também um panfleto sobre o direito ao aborto... Agora que esta realização de Magnus van Horn surge entre os cinco títulos nomeados para o Óscar de melhor filme internacional, valerá a pena tentar, pelo menos, libertar A Rapariga da Agulha da prisão ideológica de tais estereótipos. Não simplifiquemos, quanto mais não seja porque a crueza do título nos convoca para a dimensão trágica de tudo o que está em jogo. De facto, Karoline, a personagem central composta pela excelente Vic Carmen Sonne, é uma mulher desamparada que, em Copenhaga, no ano de 1919, quer pôr fim à sua gravidez: a sua condição precária como costureira de uma fábrica, e também o facto de não ter notícias do marido (que esteve envolvido nos combates da Grande Guerra), transformam-na em alvo vulnerável de um sistema de relações perversas, associado a muitas formas de exploração do trabalho feminino... Acontece que nada disto justifica que se transforme Karoline em símbolo “universal” da condição feminina face às questões sociais, legais e morais que o aborto pode suscitar. Desde logo porque a representação dos tempos imediatamente posteriores ao fim do primeiro conflito mundial é de tal modo cuidada no seu realismo obsessivo - enraizado na direção fotográfica, a preto e branco, de Michał Dymek - que o mínimo que se pode dizer é que não decorre de qualquer “paralelismo” com o nosso século XXI. Aliás, importa referir também que este é um filme “inspirado em factos verídicos”, em particular na figura de Dagmar Overbye (numa impecável interpretação da veterana Trine Dyrholm) que consumou uma série de crimes chocantes, fazendo-se passar por mediadora entre mães solitárias e famílias disponíveis para adotar as suas crianças. Há, assim, uma contundência histórica em A Rapariga da Agulha, alheia a qualquer generalização “simbólica”, que demarca o trabalho de Magnus van Horn das convenções medíocres que regem uma parte significativa dos filmes de terror regularmente lançados no mercado. Longe da exploração gratuita de tais convenções, esta é uma narrativa que lida com um assombramento moral que não resulta de “efeitos” fáceis, mas sim de um mapa de solidões em que Karoline é apenas a personagem nuclear de uma intrincada teia humana. Uma árvore genealógica Nascido em Gotemburgo, na Suécia, formado na Escola de Cinema de Lodz, na Polónia, Magnus van Horn constrói uma visão que parece resultar de uma multiplicidade de referências e influências que não serão estranhas às componentes de produção do seu filme - lembremos, por isso, que A Rapariga da Agulha resulta da conjugação de financiamentos provenientes de Dinamarca, Suécia e Polónia. E não deixa de ser sugestivo pensar que a formação polaca do realizador poderá não ser estranha à violência dramática da sua história, de algum modo evocando o sistema formal dos primeiros títulos de Roman Polanski (a começar por A Faca na Água, 1962, ainda rodado na Polónia). Isto sem esquecer, claro, que foi um mestre dinamarquês, Carl Th. Dreyer (1889-1968), que assinou o prodigioso Vampiro, datado de 1932. Enfim, A Rapariga na Agulha não pretende “justificar-se” pelas inspirações que nele possamos detectar, mas é um facto que estamos perante um filme conhecedor da árvore genealógica de onde emana o essencial: uma metódica atenção à perturbante vibração que as imagens podem conter. .'A Única Rapariga na Orquestra'. A solidão do contrabaixo no seio da orquestra.'Anuja'. Realismo e fábula em cenários da Índia