Memórias do trabalho na Europa.
Memórias do trabalho na Europa.

'A Prodigiosa Transformação da Classe Operária em Estrangeiros'. Memórias políticas da economia da Suíça

Nascido em Bagdad, em 1955, o realizador Samir aborda a saga dos trabalhadores migrantes na Suíça. O título é sugestivo: 'A Prodigiosa Transformação da Classe Operária em Estrangeiros'.
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Perante o lançamento de A Prodigiosa Transformação da Classe Operária em Estrangeiros (depois da passagem na Festa do Cinema Italiano), o menos que se pode dizer é que se trata de uma estreia capaz de ajudar os espetadores portugueses a descobrir um pouco do trabalho de Samir (nome artístico de Samar Jamal al Din). Nascido em Bagdad, em 1955, filho de pai iraquiano e mãe suíça, Samir tem uma história indissociável da sua dupla nacionalidade — é essa história que o filme reflete, transfigurada em saga da classe operária (acolhida e repelida) na Suíça, ao longo de décadas de convulsões inevitavelmente ligadas às transformações sociais e políticas de toda a Europa.

Num plano informativo, o filme pode ser visto como um exercício de reavaliação de memórias históricas. Dito de outro modo: a tradição política neutral de um país como a Suíça (mesmo reconhecendo que a palavra “tradição” não será a mais adequada para dar conta de tudo aquilo que faz a história de um país) leva muitas vezes a encará-lo como um território “mitológico” encerrado num esquema ideológico mais ou menos inalterável. Ora, tendo em conta a narrativa de Samir, o que está em jogo é muito diferente.

Através de memórias pessoais, com os respetivos materiais de arquivo, e também de imagens de origens muito diversificadas (fotografias, filmes, etc.), somos confrontados com os efeitos em cadeia de uma série de acontecimentos dramáticos. Na sua origem está o fim de uma cultura de solidariedade entre os trabalhadores suíços, desmantelada, durante a década de 1960, a partir da oposição (do governo e sindicatos suíços) a um acordo celebrado com Itália, procurando proteger os migrantes italianos na Suíça — como diz o título, passaram de “operários” a “estrangeiros”.

A estrutura do filme tem dificuldade em gerir a avalanche de informação que se tenta transmitir. De tal modo que a ininterrupta voz off esquece que “sobrepor” às imagens a leitura um ensaio, por mais elaborada que seja a sua análise, acaba por ser um recurso que menoriza a própria contextualização cinematográfica. Fica a pedagógica chamada de atenção para um período histórico de enorme complexidade política e económica, mas também a sensação de que, através de um simples resumo, as notas informativas do dossier de imprensa são mais esclarecedoras do que a “mensagem” do próprio filme.

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