A primeira vez… no festival do Sudoeste

Milhares de jovens iniciam-se nos festivais, acampamentos, namoros e outras experiências. E se não é a primeira vez, é a vez em que o vivem mais intensamente.

"Não beber muito álcool." "Não beber do copo de ninguém." "Não fumar drogas." "Não apanhar bebedeiras." "Não arranjar namorado", mas também: "Beber água, comer, usar protetor solar." As recomendações que os pais fazem quando os filhos partem para o Meo Sudoeste, na Zambujeira do Mar, quatro dias de música, com nove dias de campismo incluído, 120 euros o preço-base do passe. O campismo começou no sábado, mas o festival teve início no dia 7, terminando no domingo, dia 11 de agosto.

É obrigatório telefonar de manhã e à noite para casa para saber se tudo corre bem. Só que, às vezes, a bateria vai abaixo. Ou, se não vai, parece. "Dizem sempre a mesma coisa, porta-te bem, vê lá o que fazes ", justifica Hélder Barata, 19 anos, de Nisa. Já um veterano. Tinha 16 anos quando foi ao festival pela primeira vez, a idade com que muitos dos participantes se iniciam nestas atividades.

"Antes, é-se demasiado novo. É um ambiente pesado, as bebedeiras, as ganzas, é preciso ter cabeça." Fala Catarina Martins, 17 anos, uma das mais novas do grupo. Vem com a irmã, a Fátima, de 19 anos, estudante universitária, no 2.º ano de Psicologia. Já trouxe o carro, o que é uma vantagem da idade.

"Foi o meu avô que me emprestou, mal sabe ele o que o carrinho vai passar", ri-se. Mais a sério: "Ter carro é sempre melhor, podemos trazer tudo." Embora a viatura fique à porta do parque de campismo e ser necessário carregar tudo nos braços.

Tribo do Didinho

Hélder e as irmãs integram-se num grupo de 19 pessoas, para 13 tendas, vindas de várias zonas do Alentejo e do Seixal, fruto de conhecimentos de edições anteriores. Ocupam um espaço delimitado por cordas, como é frequente entre os campistas, com uma faixa branca à entrada e a inscrição: "Tribo do Didinho". Em homenagem ao amigo, que teve um acidente e não pode estar presente. Estão à entrada do parque, "perto de tudo", uma vantagem só conseguida para quem chega muito cedo.

Os primeiros do grupo chegaram às 04.00 de sábado, para ganhar lugar na fila para a abertura do parque, às 08.00 do dia 4. E, ontem, terça-feira, estavam 25 mil na festa de receção ao campista, dados da organização.

Os caçulas são Bruna Henriques e Ricardo Afonso, ambos com 16 anos. O rapaz vem com a namorada, Catarina Franco, de 18, do Seixal, viagem que fizeram de autocarro. "É diferente, estamos 24 horas um com o outro, o que não acontece normalmente", comenta Ricardo. "Está a ser muito bom", acrescenta Catarina. Namoram há quatro meses e nem sequer estão na mesma escola.

O convívio, o canal, o campismo e os concertos são, por esta ordem, as preferências de quem escolhe ir ao Sudoeste. Também há as bebedeiras, o sexo, já não há tantas garantias sobre o facto de ser a primeira vez. "Perder a virgindade aqui é capaz de ser giro, mas não, não aconteceu comigo", diz Hélder.

Juntam-se outros à entrevista, risos, piadas, para dizer que quem teve uma primeira vez foi João Grilo, 19 anos, de Cabeço de Vide (Alentejo), o que seria inédito para qualquer um deles. "Paguei 60 euros para dar um beijo a duas raparigas ao mesmo tempo, uma espanhola e uma brasileira, é essa a história", conta. Veio ao festival com 16 anos e nunca mais falhou. Trabalha na hotelaria.

Há gente a dormir nas tendas, a comer, a tomar banho, a lavar os dentes, a limpar a loiça, a fazer comida, à espera que a roupa lave, etc., etc. O serviço de lavandaria é prestado gratuitamente por uma marca de eletrodomésticos, com DJ a animar enquanto aguardam a lavagem.

Um patrocinador incentiva à recolha seletiva do lixo, dá sacos e cada um cheio vale dez pontos, pontos que representam brindes: 200 valem uma tenda de campismo. Outra oferece boias com patos a quem beber duas bebidas, há quem disponibilize fogões e micro-ondas e também carregadores de telemóveis, escassos, criticam os festivaleiros.

Queixas não tem Guilherme Manha, 15 anos, de Torres Novas. É a sua primeira vez a acampar sem os pais, é também a iniciação em festivais, mas garante que não será a primeira vez que vai beber álcool - prometeu aos pais que não o faria. Está com a irmã, dois anos mais velha, e não se pode afastar dela, outro pedido. Já se afastou, mas manteve-se no grupo. "Ando com pessoas responsáveis", diz, para concluir: "Está a ser muito engraçado, é uma experiência diferente."

Há gente a circular por todo o lado, uns a chegar com malas e mochilas, também sacos com comida. Outros que partem no autocarro que faz o circuito para a praia, além de um fabricante de automóveis que tem serviço de boleia, basta descarregar a aplicação.

Susana Padilha, Sofia Duarte, Matilde Silvestre e Joana Barros têm dos 16 aos 17 anos e vêm do Bombarral, com os pais a fazer a viagem de ida e de volta. Voltarão à Zambujeira do Mar, no domingo, às horas que as filhas quiserem. Ao grupo junta-se Maria, de 18 anos, a irmã de Matilde, que chegou mais tarde e, por isso, veio de autocarro.

É a primeira vez que estão no Sudoeste, mas há quem tenha ido o ano passado ao RFM Somnii, na Figueira da Foz, cuja organização e as condições do parque de campismo dizem ser melhores. O convívio é que não tem críticas. "Viemos sós e já estamos num grupo de dez tendas."

É o que acontece com toda a gente, também com a Carolina Dias, 15 anos, de Vila do Conde, e Diana Sofia, 17, do Porto. Sozinha num festival pela primeira vez, Diana esteve na Zambujeira há dois anos, mas com a mãe. São escuteiras, o que já habituou os pais a saídas e a acampamentos, "sempre no máximo de responsabilidade".

Apanharam as duas o autocarro no Porto e, ao fim de sete horas e meia, a duração da viagem, saíram com um grupo de amigos. Mais de 20, alguns já na universidade ou a trabalhar, grande parte a aproveitar a tarde de terça-feira para tomar banho no canal ao fundo do parque de campismo. Com muita música e diversão, havendo quem queira mostrar os dotes de dançarino.

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