A preguiça de Ryan Reynolds

Quem é alérgico ao humor tolo de Ryan Reynolds, fica avisado: esta comédia juvenil de sci-fi é uma overdose dos seus tiques. The Adam Project é a enésima variação dos paradoxos das viagens no tempo e enjoa verdadeiramente.

Na ressaca ao assalto à temporada dos prémios a máquina de marketing da Netflix vira-se para o entretenimento puro e duro e constrói mais um veículo comercial para Ryan Reynolds, um dos atores de Hollywood mais trabalhadores e com salário mais elevado. The Adam Project, que mistura comédia e ficção científica não atinge os mínimos daquilo que pretende mas é já um sucesso de visualizações, estando já número 1 no top da plataforma em Portugal.

Como se não estivéssemos fartinhos de histórias com viagens no tempo e de homenagens ao espírito dos anos 1980 da Amblin, eis um "produto" sem medo de não ter nada de novo para oferecer. A intriga é estafada e volta a brincar com noções de como alguém se comportaria se algum dia se cruzasse com a sua versão na infância. Dá até a ideia de que o realizador Shawn Levy não levou em conta o legado de filmes como Peggy Sue Casou-se, de Francis Ford Coppola, Dèjá Vu, de Tony Scott ou os clássicos Terminator, Back to The Future, etc., mesmo quando há referência explícita no guião. É o mais do mesmo aplicado em shot desavergonhado,até depois de recentemente obras como Loop- Reflexo Assassino, de Rian Johnson ou Tenet, de Christopher Nolan, terem trazido algo de novo no género.

Aqui, Ryan Reynolds é um astronauta viajante do tempo que chega de 2050 para se encontrar consigo próprio em 2022, ano esse onde a sua versão adolescente é um Adam palavroso e vítima de bullying. Do futuro também chegam adversários de Adam que querem impedir que ele viaje até 2018, altura em que o seu pai (um Mark Ruffalo que dá dignidade à coisa...) inventou as viagens no tempo. Para Adam, o plano é evitar que o mundo no futuro se torne num desastre como "o que se passava num dia bom de Terminator".

Estamos perante a mesma lengalenga dos cuidados com os desvios da linha espaço-temporal e de toda a complexidade com mudanças no presente que afetam o que aí vem, inclusive quando se tenta aplicar o habitual humor seco de Ryan Reynolds, aqui ainda mais cabotinamente preguiçoso. Tal como nos filmes de Shawn Levy (de À Dúzia é Mais Barato à trilogia À Noite no Museu), o tom da leveza confunde-se com a banalidade de piadas de mau gosto juvenil.

Pior de tudo: o desinvestimento das sequências com naves espaciais e combates futuristas com armas de laser - tudo parece metido a martelo e apenas para dar escala à produção. Levy não tem unhas para filmar esse tipo de sequências com explosões digitais e a ideia com que se fica é que a série B sem qualidade abocanhou a tal pretensão de emular a Amblin de Spielberg.

Por muito que o próprio filme tenha noção da sua tonteria tal não o redime da sua mediocridade, exposta ainda mais quando o argumento insiste e repisa na mensagem da unidade familiar. Enfim, uma mensagem escusadamente azeiteira e sentimentalona apenas para aproveitar um enredo sobre um menino com saudades de um pai ausente.

The Adam Project é um divertimento para a família tão tosco quanto desnecessário. Se fosse lançado nos cinemas passava ao lado, disponível na Netflix chega ao primeiro lugar do top...Dá que pensar, não dá?

dnot@dn.pt

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