Christina Oiticica é carioca radicada em Genebra.
Christina Oiticica é carioca radicada em Genebra.Foto: Marcos Borges

A pintura que o Lago Maggiore recebeu e a natureza devolveu

A artista brasileira, Christina Oiticica, expõe 60 obras no Grand Hotel Majestic, em Verbania. A principal tela é Mamma Muxima, que ficou três meses submersa nas águas.
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Há cerca de 20 mil anos, o gelo começou a recuar dos Alpes, entre Itália e Suíça, deixando para trás uma paisagem que ainda hoje está em transformação: o Lago Maggiore. Nas águas profundas, que chegam aos 370 metros, estão restos de rochas, matéria orgânica e vestígios de cheias e mudanças ambientais. O lago, de certa forma, guarda o ADN da transformação desta paisagem, que parece saída de um filme.

Parte desta riqueza está na principal obra da exposição Quando o Céu invade a Terra, da artista brasileira Christina Oiticica, inaugurada no último fim de semana em Verbania, Itália. A carioca deixou uma pintura no fundo do Maggiore durante três meses para ver o que a natureza iria devolver. O resultado é uma pintura com areia, conchas, algas e outros materiais que representam uma verdade incontornável: a natureza não pode ser domada.

Em entrevista ao DN, um dia antes de retirar a tela do lago, Christina Oiticica estava ansiosa. Habituada a deixar obras enterradas ou ao ar livre para permitir que a natureza aja, esta foi a primeira vez que a água ditou o rumo do quadro. “A água é muito poderosa, mais poderosa do que a terra, que eu tenho experiência”, conta. Na hora de ver o resultado, noutra entrevista, a ansiedade transformou-se em alegria. “Fiquei muito contente, acho que ficou muito bom e parte do lago veio, como as conchas e areia”, resume, apontando para a obra, chamada Mamma Muxima. O nome significa “mãe do coração”, inspirado na língua nacional Kimbundu, de Angola.

A pintura também representa Nossa Senhora da Conceição e tem vários corações, que apareceram à artista carioca num sonho. “Eu tive um sonho, em que eu ia a uma igreja, que subia uma montanha, chegava lá e estava tudo escuro. Eu via uma coisa vermelha assim num altar. Quando acendiam as luzes, eu via que na realidade eram só corações em volta da imagem, por isso é que ela era vermelha, só tinha corações”, conta.

A figura desenhada da santa teve de ser refeita, porque as águas a levaram. “É uma oferenda para o lago, a minha arte foi levada para outros lugares”, celebra a artista, que se define como uma pessoa bastante religiosa.

Em Mamma Muxima também está a famosa frase “Quando você quer alguma coisa, todo o universo conspira para que você realize o seu desejo”, do livro O Alquimista, de Paulo Coelho. O escritor brasileiro é o companheiro de vida de Christina desde 1980. O casal vive atualmente na cidade suíça de Genebra.

Marcelo Mendonça é o cenógrafo da exposição.
Marcelo Mendonça é o cenógrafo da exposição.Foto: Marcos Borges

Quando o Céu invade a Terra é composta por 60 obras diversas, muitas delas marcadas pela ação da natureza. “Tem os quadros que eu deixei na salina, tem alguns do sul da Bahia também”, destaca. “A sua obra combina pintura e Land Art, integrando elementos naturais como terra, água e pedra. As telas são expostas diretamente às forças da natureza: enterradas no solo, submersas em água ou deixadas ao ar livre durante semanas ou mesmo meses. O tempo, o clima e os microrganismos transformam gradualmente as pinturas, fazendo da própria natureza uma verdadeira coautora da obra”, lê-se na sinopse da exposição, patente nas galerias do Grand Hotel Majestic, em Verbania.

A cenografia é do arquiteto Marcelo José Mendonça e a curadoria é de Adelina von Furstenberg. Em conferência de imprensa, a curadora afirmou que se trata de uma “obra prima” da artista brasileira. “Acompanhei desde o início, quando colocámos na água. Depois vieram as mudanças climáticas, os peixes e a destruição e surgiu esta obra. É uma obra-prima. Para mim, é a melhor peça que a Christina já fez”, avalia.

Com a curadora Adelina von Furstenberg.
Com a curadora Adelina von Furstenberg.Foto: Marcos Borges

Segundo a profissional, a maior lição desta exposição é que “nós pertencemos à natureza, somos um só”. Com entrada gratuita, Quando o Céu invade a Terra está patente até o dia 31 de outubro.

amanda.lima@dn.pt

*A jornalista viajou à convite da Fundação Paulo Coelho e Christina Oiticica.

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