Erika Fatland esteve em Lisboa, no Padrão dos Descobrimentos, entre as viagens para retratar o antigo império português.
Erika Fatland esteve em Lisboa, no Padrão dos Descobrimentos, entre as viagens para retratar o antigo império português.DR - Jarle Aasland/Stavanger Aftenblad

A norueguesa que virou costas ao Velho do Restelo

  Erika Fatland percorreu todos os territórios por onde o império colonial português se estendeu desde a conquista de Ceuta em 1415 e até à entrega de Macau em 1999. 'Os Navegadores' é o resultado.
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Ao contrário de uma boa parte dos portugueses destes tempos que vivemos e que têm vergonha do seu passado de descoberta marítima do planeta, uns por ignorância histórica e outros por uma estupidez à Velho do Restelo, a escritora e antropóloga norueguesa Erika Fatland decidiu após outras viagens publicadas em livro partir à descoberta de um itinerário muito especial, o dos Descobrimentos portugueses. Se os seus livros anteriores tinham tido sucesso, Os Navegadores foi uma enorme surpresa, pois os leitores levaram-na ao primeiro lugar das tabelas de vendas no seu país em 2024 e retiraram dessa posição o mítico escritor de autoficção Karl Ove Knausgard.

O deslumbramento vivido por Erika ao percorrer o globo terrestre de uma ponta à outra não fez com que perdesse o sentido crítico, tanto que colocou na capa como subtítulo a frase Uma viagem pelo império perdido de Portugal. A decisão de partir nesta aventura que necessitou de mais de seiscentas páginas para o seu relato já vem de longe: “Uma amiga visitou Macau e achou que alguém deveria escrever um livro sobre o império português. Concordei que seria uma boa ideia pois não faltaria leitores fora do mundo lusófono, onde o império britânico ficou muito mais famoso. No entanto, tudo começou com Portugal, a própria globalização e o mundo que conhecemos hoje. Portanto, era uma boa ideia, mesmo que difícil de realizar dada a dimensão deste império.”

É impossível não perguntar à escritora a razão de os autores portugueses não se terem antecipado num livro destes. Responde sem dificuldade: “Na realidade desconheço a razão para que ninguém o tenha feito e também porque tão poucos portugueses escrevem sobre o seu antigo império. Não tenho a resposta para isso, até porque fiquei surpreendida por terem ruas Vasco da Gama por todo o lado e muito património que evoca esse passado espalhado pelo país. Também reparei que evitam falar das situações mais polémicas sobre o império, o que me surpreendeu bastante.” Para Erika Fatland, as situações “mais polémicas” são bem conhecidas dos atuais portugueses: “Parece que as pessoas não sabem que Portugal foi responsável por quase metade do comércio transatlântico dos escravos e têm uma visão muito positiva sobre a colonização. Geralmente dizem que «ao contrário de outros fomos menos violentos, não fomos racistas e fomos bons colonizadores».”

Enquanto recolheu informação para Os Navegadores, o contacto com as populações anteriormente colonizadas foi pacífico, como recorda: “Na maioria das colónias fui muito bem recebida e, mesmo quando entrevistava as pessoas que tinham todos os motivos para serem críticas, por exemplo ex-prisioneiros políticos durante o tempo de Salazar ou que os que eram guerrilheiros nos movimentos de independência, a reação não era tão negativa como esperava e pareciam estar em paz com o passado e alguns dos que eram contra a antiga situação agora têm filhos a estudar em Portugal. Encontrei muita nostalgia também, tal como aconteceu quando escrevi sobre a União Soviética, porque as pessoas lembram-se do passado e da juventude perdida. É muito humano sentirem-se nostálgicos. Confrontei-me com o facto de os novos países que sucederam às colónias serem extremamente diferentes uns dos outros, creio que por estarem longe uns dos outros, afinal o império português espalhava-se por todo o lado e não se pode comparar o povo de Timor-Leste, com o do Brasil ou da Guiné-Bissau.”

Diferente de muitos outros autores, Erika Fatland não prepara a viagem exaustivamente. Explica: “Faço a maior parte da pesquisa após o regresso porque tento viajar com a mente aberta e sem grandes planos que me impeçam de fazer descobertas, além de que é impossível preparar em detalhe um périplo por 29 países. O que fiz foi aprender a falar e a ler português para poder conversar e informar-me sobre a história de Portugal.” O maior receio da autora quando soube que iria ter uma edição portuguesa foi que “descobrissem muitos erros sobre a parte histórica”, no entanto disse para si própria que “se fosse um português a escrever sobre a Noruega também iria cometer alguns erros”.

Uma boa parte desta viagem foi feita num navio moderno, que Erika Fatland não deixa de comparar com as antigas caravelas: “Não sei como é que navegavam em embarcações tão pequenas, rodeados de tantos perigos e através de oceanos desconhecidos. De que resultou o fim da Rota da Seda após Vasco de Gama descobrir a rota marítima para a Índia entre muitas alterações.” Também questiona como seria a visão dos povos que habitavam esses territórios ao ver chegarem os portugueses em caravelas e naus: “Quando eu chegava aos lugares, perguntava-me como teria sido a reação de quem lá vivia. As fontes não são muitas, sendo que a melhor descrição é a da chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil porque existe a Carta de Pêro Vaz de Caminha. Que é uma leitura fascinante para se entender o olhar dos navegadores mas que em muito pouco explica o pensamento das pessoas que viviam lá e o que teriam sentido ao ver um barco aparecer de repente.”

O próximo livro da autora é sobre a Ucrânia, que será publicado no fim do ano. Mesmo que a guerra continue? “Sim”, é a resposta de Erika Fatland. Considera que é “um trabalho em curso porque não se sabe o que irá acontecer e quando terminará esta guerra”.  A pesquisa para este próximo livro não foi tão boa a certos níveis como com Os Navegadores, como conta: “Uma das melhores descobertas foi ter provado o verdadeiro sabor do chocolate com o cacau de São Tomé, bem como dos ótimos alimentos dessas antigas colónias e em Portugal - uma boa herança dos portugueses -, principalmente quando se compara com o pesadelo alimentar das ex-repúblicas da União Soviética ou nos Himalaias.”

OS NAVEGADORES

Erika Fatland

Porto Editora

653 páginas

Lançamentos

ANTOLOGIA UM

Sete anos após a morte de Fernando Pessoa, o amigo Adolfo Casais Monteiro editou a primeira antologia do poeta, com uma seleção que incluía já a divisão por heterónimos que o próprio Pessoa lhe explicara a razão de existirem. Monteiro refere serem os heterónimos os de “quatro maiores poetas” portugueses e que muitos leitores iriam tomar contacto pela primeira vez através desta antologia desta diversidade de Pessoa, um “homem que viveu para dentro”. O volume recupera a edição original e tem um prefácio de Guilherme d’Oliveira Martins e um ensaio de Eduardo Lourenço.

PRIMEIRA ANTOLOGIA

Fernando Pessoa

Shantarin

281 páginas

ANTOLOGIA DOIS

A introdução de Cláudia Pazos-Alonso à antologia dedicada à obra de Florbela Espanca explica muitas das razões por que se deve regressar à leitura da sua obra, compilando uma cronologia de eventos sociais e históricos que terão moldado a poeta e, com a sua morte, tornado “objeto de lenda, graças à irresistível combinação entre uma biografia turbulenta e a uma série de sonetos inconfundíveis”, a que acresce um oportuno paralelismo com a tragédia de Sylvia Plath e a certeza de que “a morte física não significou o fim do trajeto da poeta”.

ALMA E SANGUE E VIDA EM MIM

Florbela Espanca

Shantarin

126 páginas

ANTOLOGIA TRÊS

Uma seleção de sonetos e outros poemas de Camões desfilam pelas páginas desta antologia a cargo de Valeria Tocco. Entre os critérios está o da escolha “de poemas líricos relacionados com o tema do Amor”, que “oferecem um retrato menos monolítico da obra e revelam a complexidade da sua visão do mundo e da arte”. O volume conta também com um ensaio de Vítor Manuel de Aguiar e Silva sobre a mundividência na lírica camoniana.

AMOR E DESCONCERTO DO MUNDO

Luís de Camões

Shantarin

125 páginas

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