Decididamente, na atual temporada de prémios cinematográficos, Jessie Buckley é o nome em destaque. Mesmo os mais reticentes a qualquer especulação sobre os vencedores (incluindo o autor deste texto), vêem-na como a vencedora “antecipada” do Óscar de melhor actriz por Hamnet — aliás, a sua performance já lhe valeu, entre outras distinções, um Golden Globe, um BAFTA e um prémio do Screen Actors Guild (sindicato dos atores). Confirmando a sua preciosa versatilidade, aí a temos, agora, a protagonizar A Noiva! Quem? Pois bem, a noiva de Frankenstein... É um reencontro de Buckley com a realizadora, Maggie Gyllenhaal, atriz que se estreara na direção com A Filha Perdida (2021), subtil melodrama familiar centrado em três personagens interpretadas por Olivia Colman, Dakota Johnson e Buckley (que aí obteve a sua primeira nomeação para um Óscar, enquanto atriz secundária). A mudança de registo não podia ser mais radical: das feridas íntimas de A Filha Perdida, Gyllenhaal aposta agora numa reinvenção do mito fantástico criado pelo romance de Mary Shelley (publicado em 1818), especulando sobre a possibilidade de criação de uma noiva para o monstro de Frankenstein. A ideia, convém recordar, já está presente na escrita de Shelley. Mais do que isso: James Whale, realizador do emblemático Frankenstein, um clássico do começo do cinema sonoro, em 1931, prolongou o mito poucos anos mais tarde com A Noiva de Frankenstein (1935). Isto sem esquecer que Terence Fisher, responsável pelo relançamento das personagens de Drácula e Frankenstein na produção britânica dos estúdios Hammer, realizou, em 1967, o também clássico Frankenstein Criou uma Mulher. O “tour de force” de Buckley envolve uma inusitada esquizofrenia dramática, já que, em boa verdade, ela interpreta três personagens: antes do mais, a própria Mary Shelley, pontuando todo o filme como uma espécie de sacerdotisa de um mundo a preto e branco (como os filmes de Whale), invocando as forças ocultas da natureza para a gestação de uma mulher que faça companhia ao monstro Frank (Christian Bale); depois, a figura humana de Ida, símbolo da boémia de Chicago na década de 1930, fotografada em cores densas e exuberantes por Lawrence Sher (responsável, em 2024, pelas imagens de Joker: Loucura a Dois); e, por fim, a noiva, renascida no laboratório da Dra. Euphronious (Annette Bening, impecável como sempre, mesmo numa presença secundária). O calendário das estreias suscita um paralelismo sugestivo com a nova versão de O Monte dos Vendavais, realizada por Emerald Fennell, com Margot Robbie e Jacob Elordi nos papéis centrais. Ambos os filmes revisitam romances da primeira metade do século XIX (o livro de Emily Brontë surgiu em 1847), aí colhendo uma peculiar inspiração dramática — em diversos aspectos, eminentemente carnal — capaz de gerar grandes espectáculos com o seu quê de surreal. Para lá das transfigurações humanas tão brilhantemente assumidas pela interpretação de Buckley, um filme e outro integram com inusitada alegria criativa sensibilidades musicais indissociáveis deste nosso século XXI: com a participação de Charlie XCX na banda sonora de O Monte dos Vendavais e as canções de Fever Ray (Karin Dreijer, do duo The Knife) em A Noiva! (Karin Dreijer surge mesmo na cena musical do filme). A grandeza do IMAX Toda a música de A Noiva! — incluindo a banda sonora original de Hildur Guðnadóttir (“oscarizada” em 2020 pela música do primeiro Joker) — contribui para essa celebração espectacular que funde a nostalgia do cinema de terror mais primitivo com o “glamour” do género musical ou, no limite mais simbólico, os artifícios da ópera. Ponto a ter em conta: de forma sedutora, e tal como acontece em O Monte dos Vendavais, a grandeza física do ecrã IMAX serve para revalorizar os grandes planos, a presença física dos atores e, muito em particular, a densidade emocional dos olhares. Depois das galáxias sem imaginação dos super-heróis, sabe bem reencontrar essa proximidade quase táctil dos rostos. .'Maria Vitória'. À procura de um realismo português .'Yunan'. O exílio e as suas novas paisagens