A mulher que sabia demais 

Kiyoshi Kurosawa está de regresso às salas portuguesas com um drama de época clássico, hitchcockiano, mas sui generis. Mulher de um Espião valeu ao realizador japonês o Leão de Prata no Festival de Veneza.

Despachemos o facto prestigiante: Mulher de um Espião tem como coargumentista Ryûsuke Hamaguchi, o realizador japonês cujo nome o leitor se recordará por este ano ter alcançado uma espécie de auge com Drive My Car, vencedor do Óscar de melhor filme internacional. A referência não serve, de modo algum, para diminuir o nome do próprio realizador de Mulher de um Espião, Kiyoshi Kurosawa - de quem Hamaguchi foi aluno -, mas para sublinhar, à partida, que as duas assinaturas juntas dizem muito sobre a precisão dramática deste filme, que nos leva até à cidade de Kobe de 1940, pouco depois de ter sido firmado o Pacto do Eixo entre Japão, Alemanha e Itália, para seguir uma intriga conjugal com contornos internacionais.

O presumível espião é um comerciante abastado que logo no início recebe a visita de um amigo de infância da mulher, apresentado num uniforme oficial com laivos da postura rígida de uma autoridade fascista. Cheira a nacionalismo por todos os lados e o cosmopolita que veste fatos europeus e bebe whisky está na mira desse jovem comandante em funções.

Eis então o cenário onde encaixa Satoko, a personagem titular, mulher do comerciante, que parece alheada da realidade: ela é a estrela de um filme mudo amador, realizado pelo marido, e parece ter sucumbido à delícia da ficção. Quando ele parte com o sobrinho numa viagem de negócios à Manchúria, e prolonga a estada, Satoko não imagina o segredo que vai trazer no seu regresso. Mas quando ela descobre evidências de crimes de guerra envolvendo uma arma biológica - provas captadas pela câmara do marido, que, pelos vistos não se fica pela produção caseira, e pretende fazer chegar à comunidade internacional o que testemunhou - torna-se a heroína, quiçá figura trágica, de um thriller de espionagem...

O filme dentro do filme é talvez a particularidade mais inteligente de Wife of a Spy, porque muito do que se passa neste enredo de traições e volte-faces responde aos impulsos do cinema de género cuidadosamente laborado pelo mestre do terror Kiyoshi Kurosawa. Mesmo tratando-se de um drama de época que, na aparência engomada, equivale a uma formulação clássica, há uma espiral hitchcockiana pouco óbvia que se faz sentir no modo como Satoko agarra o jogo, por vezes gerando uma febre romântica. Veja-se como ela exibe o semblante pesado perante a hipótese de lhe chamarem "mulher de um espião", para breves momentos depois se entregar ao fascínio dessa suposta sentença. De certa maneira, tal epíteto significa a possibilidade de viver o tipo de aventura que se vê nos filmes, ao lado do homem que dantes era apenas uma silhueta simpática e distante dentro do próprio lar.

A sabedoria de Kurosawa paira na conjugação dos elementos melodramáticos e noir, inclusive aqueles que são sugeridos na "tela dentro da tela". Numa cena em que Satoko vai ao cinema com o marido (e depois de se ouvir falar do último Mizoguchi), o filme que surge no ecrã é Kôchiyama Sôshun/O Príncipe das Trevas (1936), de Sadao Yamanaka, história à volta do roubo de um objeto que leva a eventos trágicos... Aqui está o eco interior de Mulher de um Espião.

dnot@dn.pt

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