A mudança de rosto é frequentemente combinada com a técnica de soprar fogo, causando um forte impacto visual junto do público.
A mudança de rosto é frequentemente combinada com a técnica de soprar fogo, causando um forte impacto visual junto do público.

A mudança de rosto na Ópera de Sichuan: a extraordinária técnica chinesa de trocar máscaras num piscar de olho

A Ópera de Sichuan, um dos principais géneros de ópera chinesa, é uma forma de cultura tradicional profundamente apreciada pelo povo do sudoeste da China, incluindo Sichuan, Chongqing, Yunnan e Guizhou.
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Em 2006, foi inscrita na Lista Nacional do Património Cultural Imaterial da China. A Ópera de Sichuan caracteriza-se pelas inúmeras habilidades especializadas, sendo que a mudança de rosto (bian lian em chinês) - a técnica extraordinária de alterar a aparência facial num instante - constitui a arte central e a característica mais distintiva da Ópera de Sichuan. Com destreza excecional, os artistas trocam de máscaras num piscar de olhos, tornando de forma imediata o mundo interior das personagens visível ao público.

Ao contrário de outras formas de ópera como a Ópera de Pequim ou a Ópera Cantonense, que privilegiam o canto e os movimentos corporais, a Ópera de Sichuan enfatiza a expressão visual exagerada. Os artistas conseguem trocar mais de dez máscaras em apenas 20 segundos, transmitindo de forma vívida as mudanças nos estados emocionais das personagens.

A mudança de rosto assenta sobretudo em três técnicas fundamentais: “esfregar o rosto” (mo lian) consiste em deixar uma porção de tinta facial numa parte específica do rosto e espalhá-la com as mãos para transformar a aparência; “soprar o rosto” (chui lian) aproveita os movimentos de dança em que o artista se inclina para soprar pó colorido de uma caixa, resultando numa mudança instantânea no rosto; a mais complexa é “puxar o rosto” (che lian), em que máscaras pintadas em tecido acetinado são aplicadas sequencialmente no rosto, sendo retiradas uma a uma sob o disfarce dos movimentos de dança, criando um efeito de múltiplas transformações.

A troca instantânea das máscaras do artista reflete as emoções variáveis da personagem - alegria, raiva, tristeza e felicidade -, incorporando o conceito da cultura chinesa de que o coração molda a aparência e se transforma com as disposições internas, constituindo uma técnica de inspiração romântica para revelar os pensamentos e sentimentos das personagens. Mesmo que o público não esteja familiarizado com o enredo, consegue compreender rapidamente a personalidade e as oscilações emocionais das personagens.

Cada cor e padrão das máscaras da Ópera de Sichuan tem um significado específico: o vermelho representa coragem e justiça, o preto simboliza altruísmo e determinação, o amarelo e o branco geralmente denotam falsidade e astúcia, entre outros.

Acompanhados pelo ímpeto dos gongos e tambores, e com passos de dança ágeis, os artistas sincronizam com precisão cada troca de máscara ao ritmo musical, conferindo à apresentação teatral um efeito inesperado e absolutamente magnífico.

Os artistas utilizam frequentemente leques para ocultar a face, executando num piscar de olhos a técnica de “puxar o rosto” (che lian).
Os artistas utilizam frequentemente leques para ocultar a face, executando num piscar de olhos a técnica de “puxar o rosto” (che lian).

Quanto à origem da mudança de rosto, existem várias versões. Reza a lenda que esta forma de arte teve origem quando os antigos desenhavam padrões grotescos nos rostos para afugentar animais selvagens, tendo sido posteriormente adotada por grupos de artistas populares para os seus espetáculos. Outra versão amplamente difundida sugere que a mudança de rosto foi uma técnica criada por artistas da Ópera de Sichuan durante a Dinastia Qing para criar suspense e aumentar a tensão dramática em cena.

A peça tradicional Guizheng Lou, encenada na década de 1930, apresentou o protótipo desta arte através de um enredo em que o ladrão Bei Rong escapa, usando técnicas de mudança de rosto. Inicialmente, os artistas utilizavam máscaras feitas de papelão ou papel rústico, removendo-as, camada a camada, durante a apresentação, sob a cobertura de fumo ou leques. Mais tarde, gerações de “grandes mestres” incorporaram engenho e criatividade nas suas atuações, tornando a técnica de mudança de rosto cada vez mais refinada.

Embora as técnicas específicas de mudança de rosto tenham sido mantidas em segredo durante muito tempo, os fundamentos sólidos que esta arte exige - incluindo o controlo facial, a coordenação corporal e o domínio do ritmo - refletem a filosofia dos artistas da Ópera de Sichuan: a união entre técnica e arte.

Atualmente, a arte da mudança de rosto continua a evoluir e as encenações modernas incorporam frequentemente efeitos de iluminação e cenografia, intensificando o impacto cénico.

Apesar da pressão exercida pelas formas de entretenimento contemporâneas, um número crescente de jovens artistas dedica-se ao estudo desta arte, revitalizando-a tanto a nível nacional, como internacional. A arte da mudança de rosto não só se tornou um ícone da cultura chinesa, como também uma importante forma artística que revela a estética e o saber do Oriente no palco global.

INICIATIVA DO MACAO DAILY NEWS

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