A mística feminina segundo Fellini 

Em ano de centenário do realizador italiano, continuam a redescobrir-se no grande ecrã algumas das suas obras. A partir desta quinta-feira há Julieta dos Espíritos, uma carta de amor à mulher, Giulietta Masina.

No âmbito das reposições de filmes de Federico Fellini que nas últimas semanas têm esgotado sessões - dentro do enquadramento das novas normas de segurança -, Julieta dos Espíritos (1965), a chegar agora ao circuito, é um título raro. Talvez dos menos conhecidos entre os espectadores, incompreendido na altura do lançamento, tido como o início do "declínio" da idade de ouro do mestre, e hoje em dia motivo de deslumbramento tanto para cinéfilos como para leigos a iniciar a descoberta de uma obra repleta de motivos biográficos viciantes.

Surge algumas vezes como citação passageira ligada ao nome da atriz e mulher do cineasta, Giulietta Masina, mas há aqui todo um universo feminino a fervilhar no caldeirão mágico de Fellini que permanece na sombra, um pouco esquecido e ofuscado pelas obras anteriores, sobejamente populares, aquelas que têm Marcello Mastroianni como mestre-de-cerimónias.

No entanto, eis a verdade verdadinha: mais exuberantes e voluptuosos do que La Dolce Vita e Oito e Meio são estes caminhos do(s) espírito(s) de Giulietta.

Não há como nos desviarmos de Masina. Ela é a origem e o coração do filme, na pele de uma mulher de meia-idade, da alta burguesia, figura recatada e de olhos tristes que, ao suspeitar da infidelidade do marido, embarca num quotidiano místico, entre a fantasia e as memórias, em busca de uma serena libertação da estrutura simbólica do casamento. Estamos assim perante uma jornada de emancipação, com efeito caleidoscópio, que é incentivada por uma vizinha luxuriosa e transgressora, Suzy (Sandra Milo), atenta aos fantasmas que envolvem Julieta e a controlam no interior das paredes brancas da sua casa - uma casa-aquário que, na altura, reproduzia o próprio palacete de Fellini e Giulietta, no Bosque de Fregene.

A dimensão autobiográfica de Julieta dos Espíritos é aquilo que torna mais pesado o olhar felliniano sobre a mulher. Já não se trata de uma exploração do cineasta dos fenómenos da sua mente masculina, como acontecia em Oito e Meio, mas da tentativa de aplicar essa psicologia analítica de Jung ao ser feminino, percorrendo os abismos do sonho e da realidade através da instituição do matrimónio. Giulietta, a verdadeira, confunde-se com a do filme, concentrando na expressão do rosto uma tristeza inapelável que infunde o perfeito caos colorido, tanto da mansão libertina de Suzy como dos sonhos fantasmáticos da protagonista. E aqui é preciso sublinhar o papel do diretor de fotografia, Gianni Di Venanzo, que fez um trabalho soberbo neste que é o primeiro filme a cores de Fellini, ao gerir a luz, as sombras e intensidade cromática de uma experiência visual alucinatória e levada aos píncaros da sensualidade.

Naturalmente, essa sensualidade é intrínseca ao imaginário de Fellini, porém Julieta dos Espíritos leva a noção ao extremo açucarado, sem faltar o característico toque circense e a música de Nino Rota. Poucas vezes vimos Sandra Milo tão irresistível, carnal, garrida e adornada com um guarda-roupa tão criterioso no jogo dos sentidos, por contraste com a imagem pura de Julieta. Este é o território do excesso e do prazer, da liberdade e da criatividade pululante, onde tudo apaixona e repele, encanta e angustia ao mesmo tempo.

É curioso perceber também que, em 1965, longe ainda de uma revolução dos costumes em Itália ou da força motriz de um movimento feminista, o filme se reveste de uma frescura difícil de agarrar - e muito menos na época, literalmente. Quase dez anos depois de As Noites de Cabíria (1957), ao oferecer à sua Giulietta uma personagem que deve saborear a autonomia, apesar do casamento, e aceder ao mundo do desejo sem culpa, Federico Fellini procurou uma forma de expiação íntima que chegou a pôr em palavras: "O homem livre não pode prescindir de uma mulher livre." Livre mais livre não há.

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