A londrina que nunca deixou de contar Portugal na tela

O seu talento despontou cedo, mas só foi reconhecido no meio artístico aos 53 anos com a primeira grande exposição individual. Autora de uma obra inconfundível onde deu "uma face ao medo", contou histórias sem as escrever.

"Não gosto de envelhecer, é uma obscenidade. Até tenho vergonha, mas tem de ser." Em entrevista ao DN há 25 anos, Paula Rego admitia a Ana Marques Gastão o quanto lhe custava o passar dos anos. Até porque dizia ver a vida "com euforia", de "comer, de tudo", "de trabalhar, sobretudo". Uma e outra vez passava a mensagem de que era feliz no estúdio, principalmente à tarde. "É uma felicidade poder trabalhar. Imagine-se alguém da minha idade sem nada para fazer... Sou uma pessoa com sorte." Maria Paula Figueroa Rego, que morreu na manhã de quarta-feira (8) na sua casa em Londres, aos 87 anos, continuou a fazer o que mais gostava, inclusive com declarações políticas contra o aborto e a excisão em criações sem histórias por detrás das imagens - uma exceção ao seu método -, enquanto o reconhecimento da sua obra se amplificou e as honrarias multiplicaram-se.

No ano passado a Tate Gallery de Londres, cidade onde viveu mais de metade da sua vida, dedicou-lhe uma retrospetiva e ao The Guardian mostrava-se excitada pela inauguração. "Nunca pensei viver para ver esse dia." Depois de ter passado por Haia, a exposição está agora no Museu Picasso de Málaga, onde a artista é apresentada com uma "extraordinária imaginação que redefiniu a arte figurativa e revolucionou a representação das mulheres".

Filha única, Paula Rego cresceu entre o Estoril e a Ericeira e guardou memórias felizes, bem como dos pais, apesar dos medos que enfrentava (do escuro, das moscas, de "ir ao jardim"). Ainda com 16 anos, o pai, "um homem que admirava Eça de Queirós" e lhe transmitiu princípios "como os da liberdade e do respeito pelo outro", além de dizer que "este país não é para mulheres", referindo-se ao conservadorismo opressivo da sociedade salazarista, envia-a para Londres.

Tendo cedo mostrado talento artístico, continuou os estudos na faculdade de Belas Artes Slade. "Era alguém extremamente depressivo, mas muito generoso", disse ainda Paula Rego do pai, características que herdou, segundo quem privou com a artista.

"É tudo físico. Não há nada mais físico do que o pastel, que se faz com muitos, muitos riscos. Desenha-se vezes sem fim até quase não se conseguir agarrá-lo, ter de se pintar por cima e recomeçar tudo." Paula Rego

Foi em Londres que conheceu o artista Victor Willing, mais velho sete anos, e com quem viria a casar - passando a ter cidadania inglesa, embora dissesse que era londrina e não inglesa - e com o qual teria três filhos, Caroline, Victoria e Nick. Com os filhos, o casal estabelece-se na Ericeira e, em 1963, Paula Rego é bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian, um importante empurrão. Até 1976, ano em que regressam em definitivo à capital inglesa, vão vivendo entre Portugal e Inglaterra.

"Eu não pinto a óleo e um pintor que não pinta a óleo não é a sério. Não sou uma pintora, o que eu faço é desenho." Paula Rego

Cineasta, o mais novo dos irmãos realizou o documentário Paula Rego, Histórias & Segredos, estreado em 2017. Um olhar sobre a relação dos pais, as dificuldades financeiras e de saúde por que passaram (Victor Willing morreu em 1988 vítima de esclerose múltipla) e os episódios de depressão da mãe contada pela própria. Mas sobre o Victor Willing só há elogios. "O meu marido era uma pessoa extraordinária, extremamente inteligente, e sabia de pintura, ele é que me ensinava muitas coisas", disse ao DN.

A Paula Rego, o marido deixou uma carta na qual dizia: "Confia em ti e serás a tua maior amiga." No mesmo ano em que Vic morreu, a pintora, então com 53 anos, viu a sua primeira grande exposição individual materializar-se, na Serpentine Gallery.

Até receber a Grã-Cruz da Ordem Militar de Santiago da Espada (2004) ou de Dama da Ordem do Império Britânico (2010) ou ver um museu abrir em sua honra (Casa das Histórias, em Cascais, 2009) Paula Rego prosseguiria o seu trabalho inspirado na sua vida e em histórias, muitas delas de contos tradicionais portugueses, mas também, por exemplo, no cinema de quem foi voraz espetadora. "Para mim, a pintura não é decorativa. Há sempre algo por detrás dela que tem a ver com o que se passa entre as pessoas. Gosto, por exemplo, de pintar a vergonha, coisas que se escondem", disse ao DN em 1999.

"As pinturas são sempre muito perversas porque vão buscar coisas que não queremos e as figuras têm uma personalidade própria e põem-se a fazer coisas que não deviam." Paula Rego

Nessa fase estava a trabalhar na sua série sem título sobre o aborto, um tema que lhe era particularmente sensível. "Essa série surgiu da minha indignação. Fiquei triste com o que se passou em torno da questão do aborto", declarou em 2002, referindo-se ao falhado referendo de 1998. "As mulheres que abortam sofrem, mas o espírito pode sobreviver à dor. Não suporto a ideia de culpabilização em relação ao ato. Já basta o que cada uma sofre por ter de o praticar. Mas tudo isso advém dos tempos totalitários que Portugal viveu, de mulheres mascaradas com aventais a fazerem bolos como boas donas de casa", afirmou.

Como espírito livre que era mostrou o seu desprezo por "todas as formas de imposição de autoridade moral e de perseguição". Sendo a mulher figura central da sua figuração, para Agustina Bessa-Luís a pintura de Paula Rego não era feminista, como vincou no livro As Meninas.

"[Vejo a morte] Como um esqueleto com um lençol em cima." Paula Rego

O Presidente português, que de pronto reagiu à morte da artista, referiu que a retrospetiva em exibição em Málaga "desejavelmente poderia terminar em Portugal".

Sobre o trabalho da pintora, Marcelo Rebelo de Sousa afirmou: "A uma figuração convulsa, ao estilo britânico (ou não vivesse a artista há décadas no Reino Unido, em diálogo com as tendências do seu tempo e do seu espaço cultural), juntava-se um outro olhar, um outro imaginário, sombrio e opressivo, ou mítico e indomável, uma visão pessoal, naturalmente, mas uma visão portuguesa. E todas as aproximações à arte e à literatura universais não ficavam completas sem entendermos aquilo que era especificamente português nos quadros ou nos desenhos, fossem histórias infantis, memórias de juventude, arquétipos, traumas ou nostalgias."

Também os governos de Portugal e do Reino Unido lamentaram a morte da artista, tendo o executivo português decretado um dia de luto nacional, o qual coincidirá com o funeral.

O galerista Rui Brito, diretor da Galeria 111, em Lisboa, que no ano passado organizou uma exposição com 27 originais da artista, considerou Paula Rego "a maior figura da arte contemporânea".

cesar.avo@dn.pt

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