Exposição 'Fotocópia Original' na Culturgest.
Exposição 'Fotocópia Original' na Culturgest.Foto: Leonardo Negrão

A linguagem musical inventada por Sei Miguel, referência do jazz, para ver na Culturgest

'Fotocópia Original' abre portas ao público este sábado, 17 de outubro, na pequena Galeria 3 da Culturgest, em Lisboa. Exposição será acompanhada de um programa de dois concertos com quatro atuações.
Publicado a: 
Atualizado a: 

A exposição Fotocópia Original na Galeria 3 da Culturgest, onde antes era a livraria, nasceu de uma outra com desenhos de Carlos Nogueira intitulada Pensamentos. Em papel, que mostrava esboços do artista para as suas esculturas e performances, numa espécie de "desenhos de projeto".

O trompetista e compositor Sei Miguel visitou esta exposição no ano passado com Fala Mariam, trombonista e artista plástica, sua companheira, e gostou muito, incluindo do próprio espaço, recorda Bruno Marchand, o curador de Fotocópia Original, numa antevisão desta mostra. "Ele até falou que sugeria uma câmara secreta egípcia", revela Fala, que também esteve presente nesta apresentação. "E nessa altura combinámos que seria uma boa oportunidade para concretizarmos um projeto que tínhamos falado de uma forma muito ligeira ao longo dos anos, de poder mostrar os seus scores", conclui Bruno Marchand.

Sei Miguel, nome incontornável do jazz e música experimental em Portugal, morreria a 11 de novembro de 2025, aos 64 anos. A exposição, apesar de não ter sido pensada dessa forma, acaba por ser uma homenagem ao músico.

O compositor também desenhava e até lançou uma obra, Livro das Imagens (2017), uma coletânea de desenhos de 2012 a 2015, mas salvo duas exceções (Tombeau du Poète, de1976, e Le Sexes Noirs, de 1977), o que se mostra nesta exposição são os scores de 17 peças musicais (sendo que Fala revela que Sei que deixou "num tupperware", scores de cerca de 50 peças). Bruno Marchand conheceu Sei Miguel no contexto do lançamento do livro, para o qual escreveria um texto e que apresentaria na galeria Zé dos Bois.

O curador admite a ousadia de apresentar uma exposição desta natureza numa instituição como a Culturgest. "Este projeto nasce dessa relação e desta minha vontade de chegar ao ponto em que esta galeria apresenta uma coisa que é polémica, que está no limiar do que é aceitável dentro de um espaço expositivo. Porque quando entramos numa galeria de arte, sobretudo num centro expositivo conhecido e institucional dentro do circuito português, tendemos a acreditar que aquilo que nos vai ser dado a ver é arte. Partimos desse pressuposto, e mais do que isso, de boa arte".

Scores foi a palavra encontrada para descrever as páginas que "fazem as vezes de partitura", diz o curador. "Aquilo que está lá posto foi uma linguagem que o próprio Sei inventou para conseguir fazer passar aos músicos com quem ele trabalhava, e talvez fixar para si mesmo, aquilo que ele entendia que era importante que coordenasse a obra", explica.

Bruno Marchand, curador da exposição, com Fala Mariam,  trombonista e artista plástica, que foi companheira de Sei Miguel.
Bruno Marchand, curador da exposição, com Fala Mariam, trombonista e artista plástica, que foi companheira de Sei Miguel.Foto: Leonardo Negrão

Fala diz que Sei Miguel sabia escrever música, mas a notação habitual não servia os seus propósitos. "Não havia termos na música que transmitissem a sua visão. Ele teve necessidade de inventar, de criar uma linguagem que servisse a sua visão". A trombonista explica que o músico começou a criá-la nos anos 1980, e o primeiro termo que ele arranjou para a descrever, "provisório", foi Organização Humana do Som.

"Mais do que dizer aqui é esta nota, com esta duração e com esta intensidade, seguida de uma outra com um determinado intervalo, aquilo que o Sei estava a tentar fazer era a construir um campo de relações, de tensões e de energias". Fala revela que Sei não lhe chamava "notas" mas "timbres", e como o compositor trabalhava com músicos de várias áreas e formações diversas, esta linguagem tornava-os "compatíveis".

"Essa linguagem que o Sei criou é necessariamente muito miscigenada, porque tem texto, tem pictograma, tem narrativa, tem indicação, mas também tem poesia, às vezes, mais do que pictograma, tem desenho, umas vezes muito abstrato, outras vezes altamente concreto", acrescenta o curador. "Olhamos para estas páginas simultaneamente como desenhos, mas também como instruções, como comunicação gráfica, comunicação textual, e como projeções de um campo de sensação auditiva. Sabemos que o Sei era músico. Há uma lógica sinestésica, a visão, a compreensão, a audição, que estão a acontecer ao mesmo tempo."

Fala Mariam com mostrar o desenho 'Tombeau du Poète', de 1976.
Fala Mariam com mostrar o desenho 'Tombeau du Poète', de 1976.Foto: Leonardo Negrão

Os scores estão expostos entre vidros, numa pequena prateleira, encostados à parede. Trata-se de um "prurido curatorial", diz Bruno Marchand, com um significado: o espaço do desenho costuma ser a parede, mas estas páginas encontram-se num "ponto intermédio". Apenas os dois desenhos de Sei estarão expostos diretamente na parede.

Na exposição haverá também um giradiscos com auscultadores através dos quais os visitantes poderão ouvir o disco Showtime, lançado pela primeira vez em 1996, e agora reeditado em versão vinil pela Holuzam, com a fotografia de capa que Sei Miguel gostaria que tivesse sido utilizada na primeira edição.

Disco 'Showtime', de 1996, agora reeditado com nova foto de capa.
Disco 'Showtime', de 1996, agora reeditado com nova foto de capa.

Fazendo jus à vocação multidisciplinar da Culturgest, com esta exposição haverá também um programa musical, Everywhere infinity, everywhere mystery, com dois concertos. O duo português Sirius (Yaw Tembe em trompete e Monsieur Trinité em percussão) e o compositor e artista sonoro brasileiro Livio Tragtenberg atuam no dia 17 de outubro, e o guitarrista norte-americano Joe Morris e a trompetista alemã Birgit Ulher tocam no dia 12 de dezembro.

O título da exposição, Fotocópia Original, remete para o processo de trabalho de Sei Miguel nos scores. Ele rasurava, emendava, punha novas instruções, fotocopiava as páginas vez após vez. Não havendo uma versão original ou final, apenas uma "fotocópia original", assume-se também uma "posição ideológica", sublinha Bruno Marchand. Contraria-se a ideia "de transformar a obra de arte numa coisa absolutamente singular e exclusiva, em que há um original que só uma pessoa pode ter e que valoriza. O Sei cortou o mal pela raiz: não há originais, só há fotocópias originais".

Exposição 'Fotocópia Original' na Culturgest.
Pedro Cabrita Reis entra nos 70 com exposição no MAAT. "Com a mesma intensidade e o coração livre de cuidados”
Exposição 'Fotocópia Original' na Culturgest.
Uma exposição no Museu Vieira da Silva para redescobrir a obra de Arpad Szenes
Diário de Notícias
www.dn.pt