A interminável declaração de amizade de Mathieu Amalric

Estreia-se neste domingo John Zorn (2016-2018), integrado na programação do Jazz em Agosto. Não é documentário, nem ficção, é a segunda parte de um "filme sem fim" realizado por Mathieu Amalric sobre o músico e compositor John Zorn. O ator e cineasta francês falou com o DN.

No Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian há neste domingo, às 18.00, pelo menos uma pessoa "muito impaciente" para ver a estreia de John Zorn (2016-2018). É nem menos que o seu autor, o francês Mathieu Amalric, cuja obra no cinema se divide entre a representação e a realização.

O grande público conhece-o de papéis em O Escafandro e a Borboleta ou de 007: Quantum of Solace. Foi no ano seguinte em que se estreou o filme que contracenou com Daniel Craig no papel de James Bond que Amalric conheceu o homem que se tornou, à sua maneira, no seu herói de carne e osso: o músico e compositor John Zorn.

Conheceram-se no Jazz à La Villette quando Zorn adaptou para francês Shir Hashirim (o Cântico dos Cânticos), a peça que escrevera para Lou Reed e Laurie Anderson. Nos seus lugares, a récita foi cantada por Mathieu Amalric e Clotilde Hesme.

Na semana seguinte foi aos Estados Unidos com o realizador Alain Resnais, a propósito da estreia do filme As Ervas Daninhas. "O John tinha-me dito que quando fosse a Nova Iorque lhe ligasse. Foi o que eu fiz. E saímos juntos, andámos nas ruas. Lembro-me de que era o Dia do Perdão (Yom Kipur), o dia em que os judeus não fazem nada. Só andámos e falámos e criou-se uma amizade. Uma amizade simples, apenas pelo prazer de estarmos juntos", conta ao DN em entrevista por telefone.

Nove anos depois, Mathieu Amalric estreia o segundo filme sobre John Zorn e pensa continuar. É um filme sem fim, é um filme que termina com os nomes dos músicos participantes e com a menção "to be continued" (continua), "porque a nossa amizade não tem fim, espero. Então para quê terminar o filme?"

Lisboa no próximo capítulo

Fica uma garantia do francês: o terceiro capítulo terá a capital portuguesa como cenário porque Amalric não veio ao Jazz em Agosto só para ver a estreia absoluta do seu filme. "No próximo filme estará Lisboa porque eu vou filmar, continua, continua..."

John Zorn (2016-2018) sucede a uma primeira versão, Zorn (2010-2017). Este nasceu da sua crescente admiração de John Zorn, de querer fazer um retrato, e de uma encomenda do canal ARTE para um documentário. "É espantoso ver um homem trabalhar, pensar, ver a sua música percorrer o seu corpo e ele trazê-la cá para fora para toda a gente. É uma música muito espiritual, laica."

No entanto, o projeto inicial desvaneceu-se. "Rapidamente deixei cair a ideia. Continuei a filmar sem motivo, filmei e nem vi as imagens. Muito mais tarde, em abril de 2017, o John disse que eu podia mostrar as imagens. Eu e a montadora Caroline Detournay começámos a montar umas coisas com todas as imagens desde 2010", explica.

Viagem na constelação Zorn

Pode-se começar por dizer o que não é John Zorn (2016-2018). "Não há cenas do quotidiano, não o filmo na sua casa, não o filmo na rua, isso guardo para mim. Não é um videoclip, não é um documentário, não é uma hagiografia, não é a vida fora de palco com entrevistas ao John porque ele é precisamente alguém que não fala através de palavras ou de explicações. E não há entrevistas nem explicações porque o filme não tem qualquer propósito comercial."

Prossegue Amalric: "Quanto ao seu trabalho musical, está lá tudo, são dois anos de vida, é o estúdio, são os bastidores. Como posso dizê-lo? É uma viagem na constelação musical de Zorn. É realmente isto. Todas as variações, as facetas, a riqueza, a energia, a espiritualidade, o humor e as emoções da música."

O realizador afiança que John Zorn viu o filme "e está muito satisfeito"

A amizade e a cumplicidade que Amalric desenvolveu com o guru do avant-garde e do jazz não deu frutos somente na criação dos filmes.

"Diria que este homem modificou a minha vida, a minha vida moral e a minha vida artística, deu-me muito prazer e energia e fé no ser humano. Com o John aprendi que é preciso arriscar sempre. Ter a fé e o prazer infinito no risco. Eu aplico-o no cinema e na minha vida moral porque há uma moral artística no John. E o prazer, o prazer que há de ver o John trabalhar com outros. É magnífico."

John Zorn (2016-2018), retrato musical íntimo, foi um trabalho quase a solo de Amalric, que recorreu a uma equipa de quatro pessoas para a pós-produção. "No cinema tem de se trabalhar muito para ser livre, para poder improvisar, para poder estar inspirado e para poder respirar", conclui.

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