Sophie Rois e Milan Herms, um par improvável.
Sophie Rois e Milan Herms, um par improvável.D.R.

A idade da inocência

Os romances não são todos iguais. Eis a “lição” de "A E I O U: Um Breve Alfabeto do Amor", filme de Nicolette Krebitz, pequena pérola sobre o encontro entre um jovem sem rumo e uma atriz mais velha, a fazer Berlim ganhar ares parisienses.
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Não era óbvio que um filme centrado na relação entre um jovem e uma mulher, com grande diferença de idades, desse uma comédia romântica. Esse é o golpe de asa de Nicolette Krebitz, realizadora alemã que, em A E I O U: Um Breve Alfabeto do Amor, conseguiu transformar um tópico “dramático” em cinema solto, não-submetido a fórmula, nem obediente a limites impostos. Um filme tão discretamente singular, que as suas personagens parecem, por vezes, não estar sujeitas à lei da gravidade, vivendo numa bolha de fantasia que tem qualquer coisa de graça cinéfila.

Muito diferente, por exemplo, do último filme de Catherine Breillat, No Verão Passado, que explora a mesma natureza de relacionamento apontando sempre a seta a um realismo seco e ilustrativo - onde Breillat se destacou pela coragem de tocar num tabu, Krebitz destaca-se pela capacidade inventiva de tocar a estranheza do bailado romântico, sobrepondo-se ao mínimo preconceito. 

Os protagonistas de A E I O U conhecem-se da maneira mais adequado ao espírito da obra: ela, Anna, uma atriz de meia-idade desiludida com o meio da representação, cruza um olhar rápido com ele, Adrian, enquanto esse jovem delinquente lhe arranca a mala do ombro no meio da rua e desata a correr. Alguém virá em socorro de Anna, conseguindo até recuperar a mala, mas a carteira ficara com Adrian, talvez a sinalizar um futuro roubo do coração...

Por força do destino, os dois voltam a encontrar-se na circunstância em que Anna se torna uma espécie de terapeuta da fala de Adrian (daí as vogais do título), ele que está a preparar um teatro escolar e tem problemas de colocação de voz - para além dos problemas da pequena criminalidade já referida. 

Conforme as aulas avançam, em casa dela, os dois vão criando uma ligação em crescendo, que passa da fase professoral à maternal, culminando na expressão mais física do amor, que os leva, inclusive, a um interlúdio de imprudência na Côte d’Azur, longe da cidade de Berlim, onde tudo começou.



Cada um destes atos é sustentado por um brilhante dueto de intérpretes: a austríaca Sophie Rois, que traduz a confiança sedutora e a redescoberta do desejo feminino, e o jovem talento Milan Herms, que combina uma timidez infantil com a energia romântica mais inusitada. Isto sem esquecer o contributo mimoso do veterano Udo Kier, que faz de senhorio e amigo de Anna.

No fim de contas, o que interessa aqui é a própria liberdade da postura cinematográfica de Krebitz. Uma forma de expor a narrativa que não demonstra preocupações com o “peso” do tema - aliás, leveza é a palavra certa para definir o movimento interno do filme -, antes procurando uma inspiração quase de nouvelle vague  para trabalhar a felicidade crua destes corpos, a sua progressiva adaptação aos sentimentos que vêm à superfície. 

Diluindo as ideias do que é moral e socialmente aceite num jogo percetivo que nada tem que ver com as histórias enformadas para servir determinada reflexão, A E I O U exibe, pelo contrário, um vigor terno e, ao mesmo tempo, insolente que torna difícil a arrumação numa só categoria. E isso acontece porque a frescura do tom, ao invés de qualquer impulso discursivo, tem a última palavra.

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