Escritor de poesia e prosa, jornalista, tradutor, Gerrit Kouwenaar (1923-2014) é um nome fundamental da cultura neerlandesa. Publicado no início da década de 1950, o seu romance Cai, Bomba! apresenta-se como um objeto de rara transparência emocional. Agora lançado entre nós (ed. Dom Quixote, com tradução do neerlandês por Maria Leonor Raven), a sua escassa centena de páginas envolve uma memória paradoxal da Segunda Guerra Mundial: refletindo uma dramática vivência coletiva, a sua narrativa não será estranha a um questionamento individual, não exatamente autobiográfico, mas pontuado por muitos ecos das vivências do autor.Tal como Karel Ruis, o jovem protagonista do romance, Kouwenaar era um adolescente quando o exército nazi invadiu os Países Baixos. Daí que os chamados “dias de maio” atravessem o livro como uma referência histórica e um assombramento muito íntimo, dir-se-ia reconfigurado pelas vivências de cada cidadão - a expressão designa, precisamente, os cinco dias entre aquela invasão, a 10 de maio de 1940, e a rendição aos alemães.No posfácio, escrito em 2023, o poeta e ensaísta Wiel Kusters recorda que “embora Karel Ruis não seja idêntico ao adolescente que o próprio Kouwenaar era em 1940, têm no entanto algumas características em comum”. Kusters cita, aliás, algumas esclarecedoras palavras de Kouwenaar: “Também eu, nesse final de tarde de 9 de maio de 1940, olhava aborrecido da janela da sala da casa paterna e também para mim começou no dia seguinte a invasão do caos e da destruição.” Mesmo que a guerra não tenha sido um facto completamente inesperado, correspondeu a uma “rutura total”.Nada disto significa que Cai, Bomba! seja um mero inventário historicista sustentado por uma memória descritiva mais ou menos “jornalística”. Aliás, o título basta para compreendermos que Kouwenaar parte, não de uma memória sociológica, mas das convulsões de uma adolescência em rutura com a organização do mundo em que está a crescer. A expressão do título surge mesmo antes da invasão, a pretexto da observação de um garoto a brincar na rua com um arco de ferro: “Hei-de atingi-lo mortalmente com o olhar. (...) Espalha-te ao comprido, morre! Eu, Kartel Ruis, ordeno-te: morre imediatamente, miúdo com o arco de ferro! Cai, bomba!”Quando as bombas começam mesmo a cair, Karel tenta encontrar um equilíbrio possível, dir-se-ia um resgate afetivo, entre a situação muito real em que se encontra e o país imaginado que preserva, algures no seu espírito, como um tesouro: “É a primeira manhã de guerra e eu estou a contemplar o porto. Onde é que está a guerra? Está um dia límpido de primavera. O rio cheira a sal. Este panorama é mesmo maravilhoso: uma das vistas características do nosso país. Na outra margem vê-se o fumo das fábricas. Mas os fascistas violaram as nossas fronteiras. Este tempo lindo não serve para nada. É inadequado. Engana-nos. Devia chover. Devia cair chuva sobre esta vista do rio. Na verdade, o tempo devia estar frio e sombrio.”Entretanto, tudo isto coexiste com o universo “alternativo” que Karel julga descobrir a partir do momento em que o seu tio lhe pede para, discretamente, entregar uma carta à sua amante judia. Ela tem uma filha, também adolescente, e Karel apaixona-se por ela... Assim acrescenta novos artifícios ao seu comovente desamparo: “Porque é que não me contaram como é a guerra? Será que eles próprios não sabiam?”Simplificando (e muito!), vem à memória o cinema de outro neerlandês, da geração anterior à de Kouwenaar, o documentarista Joris Ivens (1898-1989), também símbolo de um realismo sempre a discutir as formas da sua aproximação do real. Enfim, a memória não será totalmente arbitrária, já que Kouwennar participou como argumentista e narrador numa curta-metragem sobre o porto de Roterdão (Rotterdam-Europoort), realizada por Ivens em 1966. .Para onde foi o sorriso de Romy Schneider?.Ivo M. Ferreira: “Nós, portugueses, lidamos muito mal com os nossos traumas”