Rezam as crónicas — e também uma deliciosa coleção de fotografias — que a escritora francesa Sidonie-Gabrielle Colette (1873-1954), ou apenas Colette, viveu uma existência povoada de muitos felinos. Daí o valor simbólico do seu romance A Gata (agora lançado entre nós com chancela da editora Sistema Solar), ainda que menos conhecido do que títulos emblemáticos como Chéri ou Gigi. Na apresentação do livro, o tradutor Aníbal Fernandes, depois de recordar os sobressaltos da sua vida conjugal e literária assombrada por Willy, “o marido autoritário”, sublinha a radical energia da Saha, a gata aqui retratada, “(...) o animal doméstico dotado de seduções capazes de inspirar um amor rival e triunfante sobre as exclusividades instituídas pelo amor entre cônjuges, de suscitar um ciúme ameno mas intranquilo e, em maus momentos, até susceptível de resvalar a um desejo de crime.” Ainda que discreta na sua pose elegante da raça “Chartreux”, Saha está presente desde o começo, ocupando e, mais do que isso, pontuando o território de ilusória estabilidade moral e afetiva das famílias dos noivos, Alain e Camille. Vogamos num tempo de equívoco “progresso” e “estabilidade” em que o tédio dessas famílias se confunde com uma arte menor de ostentação social. A frase de abertura estipula um verdadeiro programa narrativo e político: “Por volta das dez horas, os que jogavam aquele póquer familiar davam sinais de cansaço.” Por certo com ironia, mas também através da precisão clínica de um insólito realismo, podemos resumir A Gata como o retrato íntimo do “triângulo amoroso” formado por Alain, Saha e Camille. E faz todo o sentido colocar a gata entre os nomes dos dois humanos, uma vez que a clivagem que ela instaura começa por abalar as certezas do próprio Alain. Medita ele: “Saha, antes de eu te escolher talvez nunca tivesse sabido o que é escolher. Quanto ao resto... O meu casamento deixa todos contentes, e há momentos em que a Camille também me faz ficar contente, mas...” .Este “mas” em que desemboca o pensamento errático de Alain é tanto mais fundo quanto ele começa a sentir uma perturbante distância perante os arroubos mais íntimos da própria Camille: “Como o desejo lhe desfigura o rosto!...”, desabafa Alain perante a nudez de sua mulher. Afinal de contas, Saha era a musa silenciosa que lhe garantia a desencantada estabilidade de uma solidão para ele apaziguadora: “Sentia-se cansado e irritado, pronto para injustiças, assustado por verificar que agora nunca estava sozinho.” Viajar para onde? A edição original de A Gata surgiu em 1933, num contexto social em que o uso do automóvel passava a ser uma hipótese totalmente viável (pelo menos para famílias como aquelas a que pertencem Alain e Camille) — curiosamente, foi o ano da fundação da Air France e também, se quisermos baralhar as memórias, da alegria anarquizante de um filme clássico como Zero em Comportamento, de Jean Vigo. É um dado que está longe de ser secundário, uma vez que o jovem casal tem à sua disposição um roadster (carro de dois lugares, sem tecto fixo), quer dizer, possui uma liberdade de movimentos, com uma promessa de aventura, que não está ao alcance de todos. Mas viajar para onde? E com que programa? Com ou sem Saha? As fronteiras entre a descoberta romântica do mundo e o fantasma do crime saltitam pela escrita de Colette. Contornando os estereótipos sociais, rejeitando qualquer sistematização sociológica, A Gata possui a ligeireza de uma crónica romanesca, momento a momento contaminada pelos fantasmas das mais selvagens rupturas: “És como o cheiro das rosas — disse um dia a Camille — tiras o apetite.”.'Três Amigas'. Romantismo “à la française” .Seis livros para dizer “Aqui há gato”