De acordo com informações disponíveis no site da distribuidora Risi Film, o filme italiano Piccolo Corpo está a ser lançado assim mesmo, sem tradução portuguesa do título. Não vem daí grande mal ao mundo, mas convenhamos que este é um daqueles casos em que a utilização da mais literal tradução portuguesa seria a atitude mais lógica..Estamos, de facto, perante a história de um “pequeno corpo”. Tudo começa no início de 1900, numa ilha no noroeste de Itália. A personagem central, Agata, acabou de dar à luz um bebé que nasceu morto. Tanto basta para que a tradição católica considere que aquele que não deu um primeiro suspiro não pode ser baptizado, nem sequer receber um nome… Tendo ouvido falar de um lugar nas montanhas em que as crianças podem ser ressuscitadas, de modo a que um breve fôlego permita o seu baptismo, Agata decide pôr-se a caminho, transportando o “pequeno corpo” numa caixa de madeira….Estreado na Semana da Crítica do Festival de Cannes de 2021, este é um filme que exemplifica uma moda que, como se prova, veio para ficar em nome do politicamente correcto. Assim, o que mais conta é a possibilidade, habitualmente abraçada por muitos discursos moralistas dos nossos dias, de atribuir um significado “redentor” às peripécias do próprio filme. E convenhamos que, de um simbolismo “feminino” supostamente universal até às atribulações da crença no “sagrado”, Piccolo Corpo contém uma colecção de sugestões típicas de um cinema que vive, sobretudo, da acumulação determinista dos seus “temas”..É pena que assim aconteça, quanto mais não seja porque Laura Samani, realizadora estreante, revela uma atenção às emoções dos rostos que merece ser sublinhada. Os resultados dessa atenção são especialmente evidentes na definição da personagem de Agata, interpretada por uma actriz, Celeste Cescutti (também estreante), capaz de manter uma relação tão delicada quanto intensa com o olhar da câmara..Por um paradoxo pouco feliz, Samani parece não acreditar muito na exploração de tal trunfo, sujeitando os actores (e o espectador) aos ziguezagues de uma câmara que confunde a construção de um espaço dramático com uma permanente agitação “visual”. Também neste domínio, Piccolo Corpo acaba por ser um objecto marcado pela dominação cultural de dispositivos televisivos em que a criação de um efeito de “velocidade”, não o argumento ou os actores, parece ser o objectivo principal..É a possibilidade do milagre que, em qualquer caso, vai pontuando o filme com algum “suspense” emocional. Aliás, a história ensina-nos que a “figuração” de um milagre, seja qual for o respectivo contexto, pode desafiar o espectador para lá dos mecanismos de “reprodução” do cinema. Pensamos, claro, em casos extremos como A Palavra (1955), do dinamarquês Carl Th. Dreyer, ou Eu Vos Saúdo, Maria (1985), do francês Jean-Luc Godard. Não creio que o filme de Samani possa sustentar qualquer tipo de comparação com o trabalho de tais cineastas, mas é um facto que Piccolo Corpo deixa, pelo menos, a sugestão de um olhar que pode evoluir para lá das obrigações das modas culturais.