Uma semana depois da estreia de A Grande Eleanor, primeira longa-metragem de Scarlett Johansson, eis que chega às salas o primeiro filme de fundo de outra atriz, Kristen Stewart (nascida em Los Angeles, em 1990). Chama-se A Cronologia da Água e o menos que se pode dizer é que estamos perante uma proeza narrativa de rara delicadeza emocional.Stewart escreveu o seu argumento a partir do livro homónimo de Lidia Yuknavitch (nascida em São Francisco, em 1963), publicado em 2011, uma memória autobiográfica que parte dos muitos, e muito cruéis, episódios de abuso sexual de que Lidia foi alvo por parte do pai. A autora viveu a infância e a adolescência num espaço familiar dominado pelo autoritarismo paterno, com uma mãe que não conseguiu vencer o medo e uma irmã mais velha, Claudia, que se libertou mais cedo do que Lidia.Não se trata, longe disso, de relançar o cliché dramático da vítima que encontra a “redenção” num processo militante de libertação. Stewart assina um filme visceralmente feminino, sem que nada no seu trabalho procure a facilidade de um discurso “militante”, supostamente universal. À maneira dos grandes melodramas clássicos centrados em admiráveis figuras femininas (poderíamos citar a inspiração moral de George Cukor ou Vincente Minnelli), este é um mergulho radical num universo de sofrimento que nunca se desfaz numa generalização abstrata.Durante muito tempo, Lidia deambula como uma marioneta dos seus próprios traumas. O sexo vivido como um eterno assombramento daquelas memórias, a par do consumo de álcool, vai estilhaçando a sua personalidade. Tudo se passa como se o “eu” fosse uma coleção de ruínas impossíveis de reconstruir — a eletrizante montagem do filme é um espelho formal disso mesmo. O que ela nunca perde é o gosto da natação, ou melhor, a paixão da água — a água como matéria íntima, sensual, literalmente imersiva, que a salva do vazio total. Nesta perspetiva, a “cronologia” a que o título se refere envolve o desejo de uma paradoxal libertação. É ela que o diz: “Estou a aprender a viver em terra.”Como é que Stewart encena tudo isto? À flor da pele. Quase não há planos gerais (das paisagens, das casas ou até mesmo de cada divisão dessas casas), já que tudo acontece em grande plano, em imagens de uma beleza crua, registadas com a clássica película de 16mm, numa prodigiosa direção fotográfica de Corey C. Waters. A presença obsessiva dos rostos, a liquidez dos olhos, os cabelos desgrenhados, as lágrimas (ou as gotas da piscina) que deslizam na pele, o vermelho do sangue, uma pupila a encher o ecrã... Tudo nos fala de um carrossel de dores interiores que o corpo, através de uma poesia trágica, torna exteriores — o cinema renasce, assim, como coisa quase palpável. .A herança de FaulknerEscusado será dizer que A Cronologia da Água existe também como uma bênção para os seus intérpretes. No papel de Lidia, a composição de Imogen Poots possui a harmonia secreta de uma dádiva como há muito não víamos num ecrã de cinema — a sua ausência na temporada de prémios que está a decorrer (que, provavelmente, se repetirá nas nomeações para os Óscares) tem qualquer coisa de escandaloso. No papel de Claudia reencontramos a notável Thora Birch (que descobrimos em 1999, em Beleza Americana, de Sam Mendes) e há ainda a inusitada mas brilhante composição de Jim Belushi na personagem do escritor Ken Kesey (autor de Voando sobre um Ninho de Cucos cujas aulas, na Universidade de Oregon, foram frequentadas por Lidia).Porque é que Lidia começou a escrever? Como ela diz a Kesey, para se aproximar de William Faulkner e escrever o “seu” O Som e a Fúria. A ambição, mesmo utópica, define um desejo radical de celebração do gesto artístico que, por fim, encontra a sua correspondência formal na realização de Kristen Stewart. Não para “reproduzir” a vida, antes criando uma experiência visual e sonora que, fazendo da estética um ato de amor, se enreda com tudo o que foi vivido. E tudo o que não será possível esquecer..'Orwell 2+2=5'. Como refazer a herança de George Orwell? .'Marty Supreme'. Com saudades de James Stewart