Numa nota de apresentação do ciclo dedicado a Mel Brooks, a decorrer na Cinemateca Portuguesa (até final do mês), recorda-se que esta é a terceira vez que aquela instituição acolhe um evento do género dedicado a um cineasta centenário vivo — os dois primeiros foram Manoel de Oliveira e Edgar Morin. De facto, o nova-iorquino Brooks "anda nisto há muito tempo” e a 28 de junho irá celebrar o seu 100º aniversário. Brooks começou por ser um genuíno caso de popularidade graças a dois títulos de 1974: Balbúrdia no Oeste e Frankenstein Junior. O primeiro parodia os heróis e as lendas do velho Oeste americano; o segundo revisita a herança da personagem criada por Mary Shelley no começo do século XIX, agora através de um descendente também empenhado em criar uma figura “quase” humana, mais ou menos monstruosa... Ambos os filmes refletem o gosto da citação que faz mover o mundo de Brooks: ele é, afinal, um cinéfilo apaixonado cujo humor começa na decomposição dos clássicos de Hollywood que, como espectador, muito admira. Daí a curiosa lógica “ambivalente” deste ciclo, propondo vários cruzamentos dos filmes de Brooks com títulos que, mesmo quando não o inspiraram diretamente, pertencem a todo um imaginário cinematográfico em que ele se reconhece. Os dois exemplos citados são mostrados em contraponto com Rio Bravo (1959), de Howard Hawks, uma referência nuclear na história do western, e Frankenstein (1930), de James Whale, pioneiro absoluto de um género que, recentemente, ressurgiu com o Frankenstein de Guillermo del Toro. .Num dos casos, a realização de Brooks e o respectivo “filme-memória” apresentam-se com o mesmo título: To Be or Not to Be/Ser ou Não Ser. A saber: a obra-prima de Ernst Lubitsch, datada de 1942, sobre um grupo teatral numa Varsóvia ocupada pelos nazis, e o “remake” em que Brook contracena com sua mulher, Anne Bancroft — lançado em 1983, é um momento da sua filmografia em que acumula a função de produtor sem assumir a realização (entregue a Alan Johnson). Seja como for, estão lá as marcas do seu “estilo”: a dimensão burlesca da comédia nunca é estranha ao tratamento bizarro dos diálogos, por vezes à beira do mais delirante absurdo. Sem esquecer, claro, que isso mesmo distingue a sua primeira longa-metragem como realizador, The Producers (1967), entre nós lançada como Por Favor, Não Mexam nas Velhinhas, em que o humor judaico passa também pelo mundo do teatro, baralhando o palco e a vida — ganhou o Óscar de melhor argumento original. De todos os pares “temáticos” que o ciclo propõe, o mais desconcertante, mas nem por isso menos sugestivo, reúne Alta Ansiedade (1977), primeiro título de Brooks como produtor (além de intérprete principal, co-argumentista e realizador) com The Cobweb/Paixões em Freio (1955), de Vincente Minnelli. Porquê desconcertante? Porque as mais directas referências de Alta Ansiedade remetem para a obra de Alfred Hitchcock: a personagem de Brooks, um psiquiatra que dirige o “Instituto Psico-Neurótico para os Muito, Muito Nervosos”, sofre de medo das alturas, numa série de citações muito directas de Vertigo (1958), aliás a par de outras evocações do “mestre do suspense”, nomeadamente Psico (1960) e Os Pássaros (1963). Porquê, então, o paralelismo com The Cobweb? Porque se trata de um drama vivido no interior de uma instituição psiquiátrica — além do mais, é também uma das narrativas mais prodigiosos da obra de Minnelli. Entre as raridades, importa ainda citar The Twelve Chairs/Balbúrdia no Leste (1970), uma parábola sobre o poder e a riqueza baseada de forma muito livre no clássico russo de Ilya Ilf e Evgney Petrov. Como complemento, o filme será acompanhado por The Critic, um desenho animado inspirado nos trabalhos do canadiano Norman McLaren, em que Brooks dá voz a um espectador que acompanha o bailado de formas abstratas no ecrã com comentários tão depreciativos como divertidos — realizado por Ernest Pintoff, ganhou o Óscar de melhor curta-metragem de animação atribuído em 1964. .Mel Brooks. (mais) um Óscar para o Frankenstein da comédia americana