A constelação de contos de José Mário Silva
Há quase vinte anos que José Mário Silva não publicava ficção, situação que alterou há poucos dias com a chegada às livrarias de O Caderno Proibido, uma centena e meia de páginas com 28 contos, o género literário que mais pratica além da poesia. Uma ausência de publicação que tem muito a ver com o exercício da crítica literária, mesmo que ao ler livros de certos autores sinta vontade de escrever mais. Designadamente no caso de autores que se dedicam ao conto, como explica: “Quando leio determinados autores que escrevem contos fico com bastante vontade de o fazer também. No entanto, o contacto permanente com grandes escritores, que por vezes publicam livros extraordinários, impede-me também de os escrever porque fica a pergunta: será que vale a pena acrescentar qualquer coisa escrita por mim?”
Essa tomada de consciência não faz com que José Mário Silva desista: “Ao longo dos anos, vou escrevendo muito espaçadamente e nunca deixei de o fazer. Há períodos longos em que não escrevo nada, depois há períodos de hiperatividade, contudo considero que muitos escritores se diminuem por publicarem demais. Vejo uma certa ansiedade em publicar o que escreveram em vez de deixarem os textos à espera da altura certa para serem publicados.” No seu caso, revela que muitos dos seus contos “nunca verão a luz do dia”, embora “tenha guardados alguns que foram importantes no momento da escrita”.
O que faz ao conto o deixar passar o tempo? José Mário Silva não se preocupa se o correr dos anos mostrou que o conto não era assim tão valioso: “Creio que há uma vantagem em esperar dez anos e ver se ainda se justifica. Muitos textos perdem o sentido, outros sobressaem apesar de antes não se dar muito por eles porque entretanto o mundo mudou e passam a ter outro valor e significado.” Foi o que aconteceu com alguns dos contos incluídos neste livro? Responde: “Eu não tenho grande ambição como escritor e não quero estar sempre a publicar. O vagar e a lentidão, a ausência de pressão que ponho em mim mesmo, faz com que tenham passado quase duas décadas sem publicar ficção e mesmo assim estar tranquilo. Aliás, é-me indiferente se o livro tem sucesso ou não. Claro que gostaria que chegasse a muitos leitores e que eles gostassem do livro, mas se isso não acontecer também não será um problema.”
Foi a pressão do editor Marcelo Teixeira que fez o contista voltar às livrarias: “Não escrevi os contos agora reunidos em O Caderno Proibido a pensar num livro. Foram escritos em circunstâncias muito diferentes, daí que também o seu registo seja muito diverso. Questionei-me se fariam sentido juntar num único livro, no entanto acabei por descobrir que existia um fio condutor. Aliás, foi um processo curioso porque eu sou muito lento a escrever mas a preparação do livro foi muito rápida, mesmo que lá estejam contos com quase três décadas e outros escritos nas últimas duas. Ao reler os contos vi que eram todos muito diferentes uns dos outros, o que faz com que o leitor não se aperceba de um estilo dominante no livro. Esse efeito surpresa permanente para o leitor resulta também de existir mais pontos de contato entre os contos do que imaginava, fazendo com que se note uma marca de autor, um tom e um timbre, que se mantém mesmo quando os registos são muito diferentes. É preciso ver que, para o bem e para o mal, são contos que escrevi sem expectativa de publicar, apenas para o meu prazer e para explorar até onde se pode ir num conto.”
Questiona-se se está cada vez mais ultrapassada a velha opinião das editoras nacionais de que o conto é uma “literatura menor”. José Mário Silva nega: “Alguns dos autores que mais admiro e gosto de ler são autores de contos, como Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares, Cortázar, Silvina Ocampo, Lydia Davis e George Saunders. Aliás, a vanguarda da experimentação literária está em muito no conto, o que se pode observar na epígrafe que escolhi, um conto de uma única frase da Lydia Davis. Até pode ser meia página! Acho que é mais desafiante escrever um bom conto e, talvez mais difícil, do que um romance. O romance permite tudo e há vários absolutamente extraordinários e muito inovadores, no entanto é no conto o registo em que me sinto mais confortável. Não quer dizer que não venha a escrever um romance, até porque tenho vontade, mas a minha mão está feita para textos mais curtos.”
Uma das particularidades desta reunião de contos é a existência de textos em que se exaltam figuras distantes dos holofotes, como é o caso de desportistas regionais. O autor explica: “Num dos casos é uma paródia ao estilo dos jornais regionais que tem a ver com a minha experiência como jornalista, um setor que, tal como nos restantes jornais impressos, está em crise e em vias de extinção. Esse conto também tem a ver com o prazer de inventar uma vila alentejana e querer abordar temáticas que normalmente a literatura portuguesa não aborda, nomeadamente o desporto. Há muito pouco desporto na literatura portuguesa, quando o desporto tem uma presença muito forte na vida pública. É uma situação bizarra não existir um grande romance português em que o futebol esteja presente, enquanto, por exemplo, está no romance Submundo de Don DeLillo ao longo de meia centena de páginas a descrição de um jogo de basebol. Talvez tenha a ver com uma certa altivez que o mundo da cultura português tem em relação ao desporto, situação que não faz sentido. Ou seja, à minha maneira, quis trazer o desporto como matéria literária neste livro.”
CADERNO PROIBIDO
José Mário Silva
Parsifal
159 páginas
Apresentação dia 30, 18h30, na Biblioteca Camões em Lisboa, por Patrícia Portela
A LITERATURA NOBEL
A Gradiva vai iniciar uma nova coleção, Prémio Nobel da Literatura, em que se alinham dois primeiros livros importantes: o nunca traduzido para português, O Africano de J.M.G. Le Clézio, que conta as recordações da infância do escritor sobre África, tendo como pano de fundo as suas memórias e a presença colonial britânica ao retratar o pai médico, reunindo num único texto as evocações de anos longínquos e da relação paternal e familiar. Uma “pintura” literária com que muitos leitores portugueses terão a ver devido à nossa Guerra Colonial.
O AFRICANO
J.M.G. Le Clézio
Gradiva
88 páginas
O segundo volume da coleção que já chegou às livrarias é uma reunião de cinco textos de Jean-Paul Sartre no livro O Muro. Datadas de 1939, em todos existe o questionamento sobre as grandes questões do existencialismo que iria ser promovido e estudado pelo filósofo, como é o caso da liberdade e da responsabilidade, situações que estão bem representadas no texto que dá título ao livro, sobre o dilema de um republicano espanhol continuar fiel aos princípios ou salvar a vida perante um pelotão de fuzilamento franquista. O quinteto tem a particularidade de juntar três textos de 1936 e os restantes de 1938, espelhando a crise dos valores europeus perante uma segunda guerra mundial em aproximação. A coleção continuará com romances de Kazuo Ishiguro e John Steinbeck, entre outros.
O MURO
Jean-Paul Sartre
Gradiva
208 páginas

